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Qual o peso do tema corrupção em eleições, segundo esta pesquisadora

Cientista política da UFPE, Nara Pavão fala sobre decisão do eleitor em tempos de Lava Jato e faz comparações com outros países da América Latina

    A Lava Jato está na ativa desde março de 2014. Maior operação contra corrupção na história do Brasil, expôs esquemas ilegais envolvendo os principais partidos brasileiros — e alguns dos políticos mais influentes do país.

    Em 2015, já com a operação em evidência, uma pesquisa periódica do Instituto Datafolha indicou a corrupção como o maior problema do país, segundo os entrevistados. Foi a primeira vez que o tema apareceu no topo da preocupação dos brasileiros.

    O mesmo resultado apareceu em 2017 em uma pesquisa do Latinobarômetro. Também foi a primeira vez que o levantamento mostrou a corrupção como o maior problema para os brasileiros.

    Em 2018, já ano eleitoral, uma pesquisa CNI/Ibope indica que os brasileiros pessimistas com a eleição de outubro veem a corrupção como a maior causa para esse pessimismo.

    A campanha eleitoral começa em agosto, e temas como corrupção e moralidade deverão aparecer no discurso dos candidatos. Há quem acredite que esse será o principal tom da disputa.

    Mas não é o caso de Nara Pavão, cientista política e professora da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco). Ela estuda justamente a corrupção como um tema de processos eleitorais, no Brasil e em outros países.

    A cientista política é mais cética quanto à capacidade da pauta da corrupção ser decisiva para o resultado das eleições, mesmo estando em evidência na política brasileira. Para a pesquisadora, a Lava Jato tem um efeito ambíguo sobre os eleitores e a corrupção não é um “critério útil” para os brasileiros decidirem em quem votar.

    Nesta entrevista ao Nexo, Pavão detalha seu raciocínio, traçando ainda paralelos com a situação em outros países latino-americanos.

    Que peso teve a corrupção nas eleições presidenciais brasileiras até aqui?

    Nara Pavão Não temos dados para mensurar de forma precisa a variação do peso da corrupção ao longo do tempo no Brasil, mas se acredita que esse peso tenha sido limitado. O que a minha pesquisa mostra é que quanto maior é a corrupção, ou a percepção dela, menor é o peso atribuído pelos eleitores a essa dimensão do voto e mais tolerantes eles são com relação à corrupção. A questão é que a percepção da corrupção na política sempre foi muito alta no Brasil. Por exemplo, dados do Global Corruption Barometer, pesquisa de opinião feita pela Transparência Internacional, indicam que em 2003 o brasileiro já tinha uma percepção muito elevada da corrupção na política: mais de 80% dos respondentes consideravam partidos e políticos como sendo corruptos ou extremamente corruptos. Em um cenário como este espera-se que a corrupção tenha um peso limitado, pois não serve como critério útil de escolha para o eleitor. Apesar de reduzido, o peso relativo da corrupção pode ter sofrido alguma variação ao longo do tempo, em função da saliência desse tema na cabeça do eleitor. A escolha do voto é multidimensional e se baseia também em várias outras considerações, como a competência (expertise) do candidato, partido, etc. A saliência, ou importância relativa, do tema corrupção frente a outros assuntos é um dos determinantes do peso que a corrupção terá sobre a escolha do voto. Quando o tema corrupção está em evidência, ele tende a pautar mais a escolha do voto. Nesse sentido, o peso da corrupção pode ter sido um pouco maior em 2006, após o mensalão, do que em 2010, quando os eleitores estavam muito mais preocupados com o tema saúde.

    Agora, com mais de quatro anos de Lava Jato, o cenário muda para 2018?

    Nara Pavão É possível que o cenário mude, mas ainda não está claro como será essa mudança. A partir da perspectiva da opinião pública, a Lava Jato representa uma megacampanha contra a corrupção, que é direcionada tanto à classe política quanto à opinião pública. É uma operação com forte conteúdo didático, que busca alterar as atitudes dos cidadãos com relação à política. Essa campanha contra a corrupção é encabeçada por instituições judiciais que possuem legitimidade perante a opinião pública, e portanto muito poder para influenciá-la. Eu estou conduzindo uma pesquisa, juntamente com Ezequiel González-Ocantos, professor da Universidade de Oxford, que busca identificar os efeitos desse tipo de ativismo anticorrupção sobre as atitudes políticas dos brasileiros. A Lava Jato tem o potencial de produzir dois efeitos opostos:

    Por um lado, ela pode aumentar a relevância do tema corrupção na cabeça do eleitor, contribuindo para aumentar também o peso da corrupção como determinante do voto nas eleições de 2018. Além disso, ao investigar e punir políticos acusados de corrupção, a Lava Jato pode sinalizar para os eleitores uma ruptura com a cultura da impunidade, o que por sua vez pode diminuir o cinismo dos eleitores com a política e incentivá-los a punir a corrupção nas urnas.

    ‘muito dificilmente a Lava Jato vai tornar a corrupção um fator decisivo na eleição’

    Por outro lado, a Lava Jato produziu muita informação negativa sobre a política e acabou reforçando a percepção de que a corrupção é generalizada. E isso pode aumentar as expectativas negativas dos eleitores, fazendo com que eles continuem descontando o fator corrupção na hora de escolher um candidato nas próximas eleições, focando em outros critérios de escolha.

    É muito provável que ambos efeitos existam e estejam associados a diferentes setores da população. Fizemos alguns experimentos piloto no ano passado e apesar de todos os achados ainda serem bastante preliminares e inconclusos, encontramos evidências de que o ativismo anticorrupção do Judiciário aumenta o apoio a candidatos outsiders. Então este pode ser um efeito direto — e esperado — da Lava Jato sobre as eleições de 2018. Isso representa uma demanda por esse tipo de candidato, mas não garante que eles sejam de fato ofertados pelo sistema político. Mas independente de qual seja o efeito da Lava Jato, muito dificilmente ela vai tornar a corrupção um fator decisivo, preponderante para a escolha do voto de todos os eleitores. A corrupção deve continuar competindo com outras considerações na cabeça dos eleitores ao longo da campanha. E eles continuam filtrando, através de um processo que é em grande parte inconsciente, informações sobre corrupção de acordo com motivações ideológicas, partidárias, ou mesmo econômicas.

    Em pesquisas recentes, os brasileiros destacam a corrupção como a principal razão para pessimismo com a eleição ou como o maior problema do Brasil. Como a sra. avalia esses resultados?

    Nara Pavão São esperados. As investigações de corrupção produziram ao longo dos últimos anos muita informação negativa sobre o sistema político, as pessoas associam muito política à corrupção, perderam confiança nas instituições políticas e eleitorais. A Lava Jato aumentou a saliência do tema corrupção na cabeça do eleitor. Os dados do Latinobarômetro mostram que, em 2010, apenas 3% dos brasileiros identificaram a corrupção como sendo o maior problema do país. O maior crescimento da saliência da corrupção na cabeça do eleitor ocorre entre 2013 e 2015, exatamente quando surge a Lava Jato. Nesse período, o percentual de brasileiros que identificam a corrupção como principal problema sobe de 9% para 22%. Em 2017 a saliência da corrupção atinge patamar recorde de 31%, como resultado natural de ações anticorrupção de alta visibilidade.

    Se a corrupção não é decisiva nas eleições, como explicar a popularidade de nomes como Joaquim Barbosa e Sergio Moro, associados à moralidade? Ou, no passado, as vitórias de Fernando Collor em 1989 como o ‘caçador de marajás’ e de Jânio Quadros em 1960 com o ‘varre vassourinha’?

    Nara Pavão Tanto a popularidade de nomes atuais associados à moralidade quanto a vitória de Fernando Collor e Jânio Quadros resultam de campanhas bem-sucedidas contra a corrupção. Collor e Quadros usaram o tema da corrupção como marca de campanha, com o intuito de tornar esse o critério de escolha mais importante para o eleitor. A Lava Jato não deixa de ser uma campanha muito poderosa contra a corrupção, que faz com que os eleitores busquem candidatos que estejam associados positivamente a essa dimensão — como Barbosa e Moro. As campanhas com mote anticorrupção possuem um forte apelo junto à opinião pública porque há um consenso de que a corrupção é ruim e deve ser eliminada, esse não é um tema que divide a população. Então essas mensagens tendem a ter forte apelo junto à opinião pública.

    A sra. também estuda outros países latino-americanos. Em que o Brasil se assemelha e se diferencia deles, quando o assunto é corrupção?

    Nara Pavão Uma semelhança entre os países da região é a percepção generalizada de que a corrupção é uma prática comum. As comparações mais interessantes com o caso do Brasil são o Peru e o Chile. Dados do Global Corruption Barometer de 2016 mostram a percepção de aumento da corrupção é particularmente forte no Brasil, Peru e Chile. Mas existem diferenças interessantes entre esses casos. Enquanto os brasileiros possuem um senso de eficácia, de empoderamento contra a corrupção sem paralelo na região, os chilenos demonstram-se extremamente céticos quanto à resolução desse problema e avaliam muito negativamente a luta contra a corrupção no país. Talvez isso seja explicado pela ausência de ações de visibilidade ou de uma grande operação contra a corrupção (como a Lava Jato) no Chile.

    A comparação com o Peru também é interessante. Como no Brasil, investigações de corrupção no Peru tiveram um efeito forte sobre a política: a renúncia de um presidente [Pedro Pablo Kuczynski, 2016-2018], a prisão de um ex-presidente [Ollanta Humala, 2011-2016, solto após nove meses de prisão preventiva] e um mandado de prisão de outro ex-presidente [Alejandro Toledo, 2001-2006, foragido nos EUA]. Mas as avaliações que peruanos e brasileiros fazem das instituições judiciais de seus países (que encabeçam essa luta contra a corrupção) não poderiam ser mais díspares. Enquanto as instituições judiciais do Brasil, juntamente com as do Uruguai e Costa Rica, recebem as melhores avaliações com relação a integridade, imparcialidade e confiança, as instituições judiciais do Peru são avaliadas de forma bastante negativa. Então a luta contra a corrupção nesses dois países ocorre em contextos institucionais bastante distintos e isso deve afetar o resultado dessas ações.

    Há diferença entre o fator corrupção numa campanha presidencial e numa campanha local (governador, legisladores ou prefeitos)? Um vereador corrupto, por exemplo, tem mais proximidade com seus eleitores e menos exposição midiática do que um candidato a presidente.

    Nara Pavão Em tese sim. Tanto a incidência quanto a cobertura midiática da corrupção tendem a assumir dimensões maiores na política nacional do que na política local. Então é possível que na cabeça do eleitor o tema corrupção esteja mais fortemente associado à política nacional do que à política local. Ao mesmo tempo políticos de diversos níveis de governo desempenham funções distintas e se relacionam com seu eleitorado de diferentes formas. As características dessa relação podem enfraquecer ou aumentar o peso relativo da corrupção. Por exemplo, vários estudos científicos mostram que partidarismo e ideologia são fatores que blindam políticos de acusações de corrupção e esses fatores são mais presentes na disputa nacional do que na local. Por outro lado, estudos também mostram que eleitores são mais tolerantes com o comportamento corrupto dos políticos quando recebem algum benefício material. Em geral políticos locais possuem esse contato mais direto com o eleitor, então isso pode alterar o peso da corrupção na decisão do voto para vereador, por exemplo.

    Mas na prática o que os dados mostram é que os eleitores diferenciam muito pouco os políticos quando o assunto é corrupção. Há uma tendência muito forte de generalização, de achar que todo político é corrupto. O Global Corruption Barometer de 2017 inclui perguntas sobre percepção de corrupção associada a diferentes tipos de cargos políticos, como presidente, congressistas e vereadores. Os dados mostram que a percepção da corrupção é virtualmente igual entre essas categorias de políticos. Ou seja, o brasileiro não consegue diferenciar níveis de corrupção entre as diferentes esferas de governo.

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