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3 feminicídios na Argentina da década de 1980. E o universo de Selva Almada

‘Garotas Mortas’, livro de não ficção da escritora argentina sobre mortes de mulheres no interior do país, é lançado em maio de 2018 no Brasil

    Foto: Vale Fiorini
    Selva Almada nasceu e cresceu em Villa Elisa, cidadezinha semelhante àquelas onde viveram as garotas mortas
     

    Andrea Danne, Maria Luísa Quevedo e Sarita Mundín foram assassinadas no interior da Argentina, nos anos 1980. Os crimes não foram solucionados e têm em comum a marca da violência de gênero.

    As circunstâncias da morte das três adolescentes, quem foram, em que ambiente viveram e o estado em que seus corpos foram encontrados (à exceção de Sarita, desaparecida) são peças de um quebra-cabeça resgatadas pela escritora Selva Almada no livro “Garotas Mortas”, de 2014, lançado no Brasil em maio de 2018 pela editora Todavia.

    Embora a investigação da autora seja movida, em particular, por esses três crimes, serve não para destacá-los como se fossem excepcionais, mas para compor uma história mais ampla, que inclui ela própria, criada em Villa Elisa, cidadezinha da província de Entre Ríos, na Argentina.

    Quando tinha 13 anos, Almada ouviu pelo rádio, em uma manhã de domingo de 1986, a notícia de que Andrea Danne havia sido assassinada em sua cama, enquanto dormia, em uma cidade a vinte quilômetros da sua. 

    “Durante mais de vinte anos, Andrea esteve por perto. Voltava de quando em quando com a notícia de outra mulher morta”, diz um trecho do livro.

    “Iam se acumulando os nomes que apareciam a conta-gotas nas manchetes dos jornais de circulação nacional: María Soledad Morales, Gladys McDonald, Elena Arreche, Adriana e Cecilia Barreda, Liliana Tallarico, Ana Fuschini, Sandra Reitier, Carolina Aló, Natalia Melman, Fabiana Gandiaga, María Marta García Belsunce, Marela Martínez, Paulina Lebbos, Nora Dalmasso, Rosana Galliano. Cada uma delas me levava a pensar em Andrea e em seu assassinato impune.”

    O machismo impregnado no cotidiano, as histórias de violência e abuso (delas ou alheias) contadas pela mãe e pela tia, as “visitas” de meninas jovens a homens mais velhos em troca de uma “ajuda econômica” para a família, vistas com normalidade nas vilas do interior, também compõem a narrativa.

    Em entrevista ao Nexo, Selva Almada fala da violência machista na América Latina, da lei argentina contra o feminicídio, dos desafios na escrita de “Garotas Mortas” e dos preconceitos ainda enfrentados pela produção literária escrita por mulheres.

    Como a morte de Andrea Danne te impactou quando criança?

    Selva Almada Andrea morava em um povoado vizinho, muito parecido com o meu, e tinha 19 anos quando foi assassinada. Eu tinha 13. Foi muito impactante, principalmente porque a haviam matado em sua casa, enquanto ela estava dormindo.

    Desde que me lembro, me diziam que o perigo estava lá fora, que lá fora podiam acontecer coisas horríveis com você, para ter cuidado com desconhecidos… A morte de Andrea vinha nos dizer que nenhum lugar era realmente seguro para uma mulher, nem sequer sua própria casa, nem sequer sua própria família.

    Por que você decidiu escrever sobre o assassinato dela e de outras duas jovens mulheres mortas na mesma década?

    Selva Almada Quando comecei a escrever, isso com 20 anos, logo pensei que queria escrever sobre Andrea, sobre esse crime que tanto nos chocou e nunca se resolveu. Mas muitos anos se passaram até que eu retomasse a ideia. Foi quando topei por acaso com o lembrete do assassinato de outra moça que havia ocorrido mais ou menos na mesma época, cujo culpado também não tinha sido encontrado.

    Então a ideia de escrever sobre feminicídios que tivessem ocorrido na época em que eu mesma era adolescente começou a se afirmar. As três garotas viviam em povoados pequenos de província e vinham de uma classe média baixa, igual a mim. Éramos contemporâneas. Teriam hoje mais ou menos a minha idade. Não devem ter sido criadas de maneira muito diferente da que me criaram. Isso me permitia entender o mundo em que haviam sido assassinadas, porque era o mesmo mundo em que eu havia sido educada.

    Como a realidade pode servir à literatura? Acredita que a literatura, por sua vez, pode interferir na realidade?

    Selva Almada Gosto muito de não ficção. Mesmo meus relatos ficcionais têm bastante a ver com a realidade ou tiram muitas coisas dela. Nesse caso, eu queria falar da violência machista, queria chamar atenção para algo de que se começava a falar com cada vez mais força na Argentina, queria dizer que não era um fenômeno atual, que não era que os homens tinham, de repente, começado a sair matando mulheres...que havia uma perspectiva histórica.

    Que, há 30 anos, haviam matado essas mulheres por serem mulheres, embora não chamássemos esses crimes pelo seu nome: feminicídio.

    Eu não sei se a literatura pode interferir na realidade. De qualquer forma, não é algo que eu exija da literatura. [O livro] “Garotas Mortas”, sem que eu tenha me proposto tanto ou pensado nisso quando o escrevi, é um livro bastante lido na escola secundária [etapa de ensino que vai dos 13 aos 17 na Argentina], lido por adolescentes.

    Eu não sei se a literatura pode interferir na realidade. De qualquer forma, não é algo que eu exija dela

    Às vezes, as professoras me convidam para conversar com eles: o livro serve para que elas abram essa porta, para falar de violência de gênero com seus alunos. Então, nesses casos, poderíamos dizer que sim, que [a literatura] intervém no mundo, ainda que seja de maneira esporádica ou muito pequena.

    Além de relatar os assassinatos, você os alinhava com detalhes ou episódios de aparência anedótica que viu, viveu ou de que ouviu falar. De que forma esse pano de fundo se liga ao que aconteceu às garotas mortas?

    Selva Almada Creio que está diretamente relacionado. São essas anedotas que todas nós mulheres temos, esses “micromachismos” que todas conhecemos, essas violências cotidianas pelas quais todas passamos pelo menos uma vez na vida (alguém te tocar no ônibus, ter medo de passar em frente a um grupo de homens porque vão te gritar coisas, um homem se aproveitar de seu poder no trabalho), essas coisas que são naturalizadas vão urdindo a trama que permite que o mais terrível aconteça, que é a morte, o feminicídio.

    O tom da sua narrativa em “Chicas Muertas” foi descrito como poético e cru ao mesmo tempo. Quais estratégias você usou para construir essa ‘voz’?

    Selva Almada Escrevi “Garotas Mortas” com as mesmas ferramentas com que escrevi meus livros de ficção. Não sou jornalista, então um relato jornalístico não me interessava. Queria contar essas histórias da maneira mais humana e acessível possível. Queria contar o inenarrável (a morte, o estupro, o corpo descartado como lixo) sem perder de vista que essas mulheres não eram personagens, que elas haviam estado vivas, que tinham uma história, que alguém havia arbitrariamente decidio matá-las.

    Não é um romance, mas pode ser lido como tal; há passagens muito líricas ou muito poéticas, mas também há informação

    Custei bastante a encontrar o tom, a voz… Mas isso me acontece com qualquer coisa que escrevo, é o que mais consome rascunhos: encontrar a voz. Reli várias coisas de não ficção, mas me dei conta de que a única voz que continuava a me interessar e a me parecer atraente era a de Truman Capote em “A Sangue Frio”... Aí havia algo, talvez o narrador em terceira pessoa, que faz com que sintamos que estamos lendo um romance e, ao mesmo tempo, não perdessemos de vista que o que estávamos lendo havia acontecido a pessoas de carne e osso.

    Meu desafio para o livro era um pouco esse, alcançar esse efeito: não é um romance, mas pode ser lido como tal; há passagens muito líricas ou muito poéticas, mas também há informação (resultados de autópsia, por exemplo), há investigação, há dados concretos.

    Você sente que ainda há preconceitos em torno da escrita de mulheres?

    Selva Almada Acho que sim. Creio que leitores homens ainda têm dificuldade de se aproximar de livros escritos por mulheres. Nos eventos importantes de literatura, como a Feira do Livro de Buenos Aires, por exemplo, ainda nos perguntam sobre o papel da mulher na literatura… como se fôssemos uma raridade! Os escritores homens, por outro lado, são chamados para falar de literatura pura e simplesmente, da literatura com letra maiúscula.

    Na Argentina, assim como no Brasil, a nomeação do feminicídio e sua tipificação penal são recentes. O que mudou a partir disso, em sua opinião?

    Selva Almada Nos últimos anos, houve uma tomada de consciência maior. Hoje se fala de feminicídio e violência de gênero, há campanhas. Nunca é suficiente, mas há uma melhora nesse sentido. Existe a lei, embora segundo dados publicados no ano passado pelo jornal Página 12, a maioria dos feminicídios ocorridos depois de a lei ter sido sancionada não são julgados nem sentenciados como feminicídios, e sim como “homicídio agravado pelo vínculo���; em outras palavras, [com pena de] 25 anos de prisão no máximo e não prisão perpétua, como ordena a lei [do feminicídio na Argentina].

    Às vezes as leis são maravilhosas, mas não vêm acompanhadas da prática. Claro que é melhor que ela exista e que seja cumprida pela metade do que que não exista. Mas quero dizer que nem tudo se resolve sancionando uma lei.

    Acredito que o feminismo é a saída, os movimentos de mulheres saindo nas ruas e reclamando nossos direitos, as meninas mais jovens se sentindo orgulhosas de abraçá-lo

    A lei não deteve os feminicídios, claro. Não se trata simplesmente de leis, temos que refletir, conscientizar, aceitar que é um problema gravíssimo e que é cultural, não é algo que acontece a uma família x.

    Por que tantas mulheres seguem sendo mortas na América Latina? O que há na nossa cultura, na história ou no contexto atual que faz com que haja tanta violência contra as mulheres?

    Selva Almada Lamentavelmente, são séculos de violência machista, de repetição desses padrões na educação… Por isso é algo tão difícil de desmontar. Não tem a ver com um contexto atual: não é de agora que se mata mulheres, o que acontece é que agora se denuncia, se mostra, fala-se disso e antes estava invisibilizado, naturalizado.

    Mas acredito que o feminismo é a saída, os movimentos de mulheres saindo nas ruas e reclamando nossos direitos, as meninas mais jovens se sentindo orgulhosas de abraçar o feminismo.

    Agora, na Argentina, depois de muitos anos de luta, graças à luta dos movimentos de mulheres, a legalização do aborto está em dicussão. É um momento histórico e uma conquista da maneira feminista de entender o mundo.

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