A subversão da voz feminina, segundo a escritora Mary Beard

‘Mulheres e Poder’, que acaba de sair no Brasil, analisa o silenciamento histórico das mulheres desde a Antiguidade

    “Mãe, volte para seus aposentos e retome seu próprio trabalho, o tear e a roca... Discursos são coisas de homens, de todos os homens, e meu, mais que de qualquer outro, pois meu é o poder nesta casa.”

    Um menino mal saído da infância manda a própria mãe se calar, na frente de bardos e serviçais -- no caso, Telêmaco, filho de Penélope e Ulisses, em uma passagem do poema épico “Odisseia”, de Homero. Eis o primeiro silenciamento público da voz feminina, segundo a historiadora inglesa Mary Beard, em seu “Mulheres e Poder - um manifesto”, livro recém-lançado no país.

    Professora na universidade de Cambridge e especialista em Roma Antiga, Mary Beard é celebridade na Inglaterra, ativa nas redes sociais, na imprensa e também na TV britânica, onde apresenta séries documentais sobre Roma.

    Sua presença constante na mídia a transforma em alvo. Já foi chamada de racista, por comentários sobre a atuação da Oxfam no Haiti, e acusada de reescrever a história, pela abordagem original a respeito da diversidade étnica da Britânia (como era chamada, na era romana, o que hoje corresponde à Inglaterra). Nas redes, a historiadora tem uma reação peculiar com trolls (pessoas cujo comportamento na internet desestabiliza a discussão) e agressores: Beard discute os reais motivos da agressão publicamente e, por vezes, chega a se tornar amiga de alguns deles

    “Mulheres e Poder” é sua contribuição mais recente para o debate feminista e foi recebido com entusiasmo, no final de 2017, quando saiu no Reino Unido.

     

    Os dois grandes capítulos que compreendem o grande tema do livro baseiam-se em palestras suas proferidas no Museu Britânico, em 2014 e 2017. O ponto de partida de Beard é a investigação do silenciamento das mulheres ao longo da história ocidental, e o quanto esse processo explica a desigualdade de gênero.

    Segundo a análise da autora, qualquer mulher que se faça ouvir é um perigo para o sistema.

    Além do episódio entre Penélope e seu filho, na “Odisseia”, Mary Beard enumera outros exemplos da literatura: “A pobre Io é transformada pelo deus Júpiter numa vaca e, assim, não pode falar, só mugir; enquanto a tagarela ninfa Eco é punida de modo que a própria voz nunca mais seja dela mesma, e sim mero instrumento de repetição das palavras alheias”.

     

    Com exemplos da Antiguidade, da literatura e da história contemporânea, Mary Beard afirma que, para a mulher estar inserida nas esferas de poder e de tomada de decisão, ela não deve tentar emular o homem -- tal como fizeram, segundo a autora, Dilma Rousseff, Angela Merkel e Margaret Thatcher, que praticava “exercícios vocais exclusivos para tornar sua voz mais grave e menos estridente”. Para Beard, é preciso, sobretudo, transformar as estruturas de poder.  É redefinir o poder, deslocá-lo, investir de poder outros lugares do debate público.

    Ao Nexo, Mary Beard fez comentários sobre três questões suscitadas pelo livro, por e-mail.

    Como manter o diálogo aberto, mesmo com ameaças de agressão e trolls?

    Mary Beard É uma questão muito importante, e é difícil dar uma resposta satisfatória, que satisfaça a todas as pessoas, que se aplique a todas as circunstâncias. É complicado estabelecer regras rígidas e imediatas em uma conversa. Meu conselho é que cada uma faça o que considerar mais confortável… Mas que as mulheres se mantenham corajosas.

    Não crio uma janela de diálogo com quem me ameaça de morte ou estupro -- isso é crime, e nesses casos vou direto à polícia, embora eu não espere muita ação deles [dos policiais]. Quando as pessoas são apenas ofensivas, peço-lhes que reconsiderem o que disseram. Às vezes dá certo; às vezes não adianta muita coisa.

    Boa parte dos trolls de internet são personagens tristes, não são necessariamente maus. Precisamos encorajá-los a parar com as ofensas. Não sou muito fã da ideia de bloquear o agressor e seguir com a vida. Na realidade, essa é mais uma maneira de silenciar as mulheres e dar a eles [aos trolls] o que eles querem.

    A mensagem final do livro indica que há um problema na estrutura do poder, e que ele precisa ser redefinido, destacado de um líder, deixar de estar encarnado na figura de uma pessoa. Para tanto, sua sugestão é que todo o sistema social e econômico mude. A sra. vê um caminho de como iniciar essa grande mudança?

    Mary Beard  Outra questão fundamental. Não tenho uma resposta simples, nem uma varinha mágica para agitar e resolver tudo. Como acadêmica, comprometo-me a dizer que a análise do problema é o primeiro passo para solucioná-lo, mas enfim, é só o primeiro passo.

    Creio que precisamos nos esforçar para descobrir outras vias pelas quais o poder tem se expressado de uma maneira diferente (por isso é que cito no livro o movimento Black Lives Matter), e também identificar potência e valorizar outras formas de poder, exercidas em escala local e menor, nas escolas, nas associações de bairro etc.

    A feminista Marielle Franco, eleita vereadora do Rio de Janeiro, foi assassinada há um mês. Dias antes, Marielle havia denunciado a violência policial em uma comunidade. As redes sociais, entretanto, foram tomadas por boataria e notícias falsas, ligando Marielle ao tráfico. Como interpretar esse fato?

    Mary Beard  A morte de Marielle Franco é um crime terrível, uma tragédia. Tenho a impressão de que caluniar alguém depois de sua morte (não apenas, mas especialmente quando as vítimas são mulheres) é algo muito comum entre nós. Só não sei como podemos parar com isso, especialmente quando isso tudo está ligado a interesses políticos de gente poderosa.

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