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‘Dificilmente um homem é questionado por escrever sobre mulheres’

‘Enterre seus mortos’ é o sétimo romance de Ana Paula Maia. Autora carioca ganha destaque na cena brasileira escrevendo uma literatura sem mulheres

    Em setembro de 2017, a Bienal do Livro do Rio de Janeiro promoveu uma noite de debates sobre o tema “Feminismo Hoje”, em que propunha discutir a escrita feminina como forma de atuação política e o lugar da mulher na literatura do século 21.

    Comandado pela jornalista Marina Gonçalves, o bate-papo reuniu as escritoras Ana Paula Maia, Antonia Pellegrino e Giovanna Maladosso. Das três, Maia levantou, na própria obra, a prova do argumento que defende: na dúvida entre uma “visão corriqueira” de feminismo e a liberdade artística, ela prefere ficar com a última. A certa altura do encontro, declarou: “Eu mesma só escrevo sobre homens, são meus musos inspiradores”

    Aos 41, a carioca lança em março de 2018 o romance “Enterre seus mortos”, editado pela Companhia das Letras. Desde sua estreia em 2003 com “O habitante das falhas subterrâneas”, Maia escreve sobre homens. Num momento em que a literatura escrita por mulheres — com mulheres no centro da narrativa — ganha destaque no mundo todo, Ana Paula costura uma obra em que mulheres quase sempre são figurantes ou protagonizam cenas desempenhando um papel cuja dinâmica é mais masculina.

    “Enterre seus mortos”

    Ana Paula Maia

    Em “Enterre seus mortos”, Edgar Wilson, seu personagem constantemente revisitado, trabalha recolhendo animais mortos em estradas, num lugar onde a terra literalmente treme várias vezes ao dia graças à atividade de uma pedreira que funciona nas imediações. Os animais recolhidos são levados a um galpão, onde são moídos e triturados para virar adubo.

    Como em seus outros romances, Edgar Wilson é desafiado a tomar decisões difíceis enquanto executa seu trabalho. Vive uma prova moral, mas é também um homem bruto, cujo passado prefere esquecer. Em um ambiente pobre e violento, não há espaço para floreios.

    Sua prosa franca e direta já foi classificada como “anti-romântica”, e tem sido lida por argentinos, alemães, franceses e sérvios.

    “Maia mostra possibilidades que a literatura escrita por mulheres não costuma explorar. Não escreve a partir da subjetividade de gênero ou do conhecimento que lhes é atribuído”, comenta a escritora e crítica argentina Beatriz Sarlo, em crítica ao romance “Assim na terra como debaixo da terra”, de 2017. “Os romances de Maia não são imposições de um destino identitário, mas sim uma eleição estética.”

    Sobre “Enterre seus mortos” e literatura, Ana Paula Maia conversou com o Nexo por e-mail.

    Como o Brasil de seus romances dialoga com o Brasil de hoje?

    Ana Paula Maia Meus livros não se passam no século 21. As ações ocorrem entre as décadas de 1980 e 1990. Porém, o que ocorria nesses períodos ocorre ainda hoje. As décadas avançam, mas a maneira como lidamos com a morte, a violência, a brutalidade, parece continuar da mesma forma. 

    A morte e a finitude trazem para “Enterre seus mortos” uma dimensão espiritual, embora o livro seja uma sucessão de cenas de ação. O elemento divino também é um elemento de ação?

    Ana Paula Maia Sim. O elemento divino e também o elemento sobrenatural permeiam o imaginário do Brasil e da América Latina como um todo. Em quase todos os meus livros esse elemento espiritual está presente, e sim, funciona como um elemento de ação.

    Há uma urgência na literatura de hoje, contaminada pelo debate alimentado na internet, de mulheres falarem por e para mulheres. Sua literatura vai na contramão: os protagonistas são quase sempre homens embrutecidos e o elemento feminino é secundário. Por quê?

    Ana Paula Maia Porque eu escrevo somente sobre o que realmente me interessa. Essa é a grande maravilha de se trabalhar com arte: liberdade. Eu posso escolher sobre o que quero escrever. Dificilmente um homem é questionado por escrever sobre mulheres. Nota-se em geral que ele é apreciador do gênero oposto. Sou uma mulher apaixonada pelos homens. Gosto do gênero masculino e sempre prefiro a companhia deles. Na literatura não é diferente.

    Como leitora, como avalia a intersecção entre literatura e ativismo, entre literatura e feminismo? É possível fazer boa literatura ‘engajada’?

    Ana Paula Maia Eu não tenho nenhum engajamento, mas acredito que as pessoas têm o direito de produzir literatura com consciência política, engajada em algum movimento, ou coisa que o valha. São escolhas pessoais que definem essa pessoa e o caminho a trilhar. A boa literatura é boa por si só, independentemente do tema abordado.

    Como você descreve seu trabalho de escritora? Em quem se inspira?

    Ana Paula Maia Eu me inspiro nos meus personagens e no universo em que eles transitam. Mas nem sempre foi assim. No início da produção literária eu me inspirava nos meus autores favoritos, como [Fiódor] Dostoiévski e Edgar Allan Poe, por exemplo. Ambos me traziam o elemento sombrio na construção dos personagens.

    Não é à toa que o meu personagem Edgar Wilson tem esse nome. É a junção de Edgar Allan Poe com William Wilson — esse último, nome de um personagem que dá título ao conto, cujo desespero era encontrar o seu duplo, uma espécie de sósia.

    Talvez o Edgar Wilson seja o meu duplo, àquele a quem busco insistentemente para revelar a mim mesma o meu lado mais obscuro. Aquele que carrega o meu fardo mais pesado. Um pai, um irmão, um mentor. Ele se move nas sombras e está sempre por perto.

    Edgar Wilson já apareceu em outros romances e, entretanto, continua um mistério para o leitor que acompanha o seu trabalho. Por que revisitar personagens?

    Ana Paula Maia Porque as histórias deles não se encerram em um romance. Dos sete romances que publiquei até o momento, seis se relacionam, ora no mesmo espaço-tempo, ora com personagens revisitados ou até mesmo fatos mencionados relacionados a um romance anterior ou a um romance que será escrito futuramente. Meus livros são construídos dentro do mesmo universo. Compõem partes de uma imensa narrativa.

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