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‘Quando comecei a escrever, feminismo era um palavrão. Hoje é o oposto’

Ao ‘Nexo’, autora americana Jessica Valenti trata da chegada do debate feminista ao ‘mainstream’, do atual contexto político americano e outros temas

     

    “Quem eu seria se não vivesse em um mundo que odeia as mulheres?”, escreve a americana Jessica Valenti ao introduzir seu livro de memórias “Objeto Sexual – Memórias de uma feminista”.

    A ponderação se refere aos efeitos, sobre a experiência das mulheres com relação ao mundo e a si mesmas, “dos olhares lascivos que começam quando mal entramos na puberdade, do assédio, da violência à qual sobrevivemos ou contra a qual estamos sempre em guarda”, escreve Valenti. “Há muito tempo venho guardando luto por essa versão de mim que nunca existiu.” 

    “Objeto Sexual” é o livro mais recente de Valenti. De 2016, o livro acaba de ser lançado no Brasil pela editora Cultrix. 

    Nele, a autora narra, de maneira não linear, primeiras experiências sexuais, relacionamentos, episódios de assédio e violência, momentos de sua trajetória profissional, a vivência de dois abortos e também da maternidade, sempre dialogando com questões feministas.

    Valenti criou, no início dos anos 2000, o site Feministing, tornando-se uma das blogueiras a liderarem o debate sobre machismo e gênero nos Estados Unidos ao longo da última década. Atualmente, é colunista do jornal inglês The Guardian.

    Valenti falou ao Nexo, por e-mail, sobre a evolução na aceitação das discussões de temática feminista – e até no uso do termo – desde que iniciou sua atuação, o momento político americano (Trump, #MeToo, tiroteios em massa) e a descoberta do que significa ser mulher em um mundo violento e desigual.

    Como foi criar um blog feminista em 2004?

    Jessica Valenti Na época, foi empolgante porque apenas alguns poucos blogs feministas existiam, e fomos o primeiro blog de um grupo feminista. Construímos um público em uma velocidade incrível, o que acho que mostra o tamanho de apetite que havia por conteúdo jovem feminista on-line. Nos tornamos o site feminista mais lido de então. Foi uma época maravilhosa, e fico muito contente que o pessoal do Feministing esteja dando continuidade [ao blog] hoje.

    Como você descreve o ambiente político de então e a aceitação ao que você pretendia discutir no site?

    Jessica Valenti Quando comecei a escrever na internet, feminismo ainda era um palavrão. Hoje é exatamente o oposto – há um capital cultural enorme agregado à palavra e acho que o feminismo virtual teve um papel muito importante nessa mudança.

    Desde que você deu início ao blog, você vê uma transformação na forma como questões feministas são encaradas pelo público?

    Jessica Valenti Acho que, sem dúvida, questões feministas são levadas mais a sério atualmente. O movimento #MeToo é um bom exemplo disso – mulheres e feministas vêm falando de violência sexual desde sempre, mas somente nos últimos anos um grupo mais amplo de pessoas nos EUA está prestando atenção e, principalmente, acreditando nelas. 

    Sendo mulher e feminista, qual o valor político de escrever suas memórias?

    Jessica Valenti Creio que as histórias das mulheres, com muita frequência, são cooptadas e não são contadas do nosso ponto de vista. Também são frequentemente desvalorizadas – para mim, escrever um livro de memórias foi um ato tão político quanto a política real presente no livro!

    Por que se autoproclamar um objeto sexual (no título do livro)?

    Jessica Valenti Não havia outro título que descrevesse esse fenômeno de desumanização das mulheres como “objeto sexual”. Eu sabia que enfrentaria algumas críticas, e enfrentei, de pessoas que usaram o título para dar a entender que eu estava muito lisonjeada [em ser um objeto sexual]. Mas mulheres não querem ser objetos  – querem ser pessoas.

    Quando e como você começou a se dar conta do que significa ser mulher no mundo em que vivemos?

    Jessica Valenti É difícil apontar uma experiência específica, mas acho que minha compreensão gradual do que significava ser uma mulher esteve muito associada ao assédio e ao medo. Eu sabia que deveria tomar cuidado e andar pelo mundo de maneira diferente dos homens por conta desse medo. Não foi uma sensação boa.

    Como é ser uma escritora e ativista feminista no governo de Donald Trump?

    Jessica Valenti É obviamente apavorante, mas, para além disso, é desanimador. Que tantas pessoas, tantas mulheres, tenham votado em um misógino sem remorsos (unrepentant) demonstra quão arraigado é o sexismo [nas pessoas]. Pensei, ingenuamente, que havíamos avançado. Claramente não avançamos. 

    Meses se passaram desde que o movimento #MeToo começou e se espalhou. Já houve a primeira cerimônia do Oscar depois que as mulheres de Hollywood se manifestaram. Já é possível ver os resultados?

    Jessica Valenti Sem dúvida. Acho que não estamos mais em um momento #MeToo – estamos em um mundo #MeToo. Não há mais como voltar a manter segredo [sobre os episódios de assédio]. E nem devemos!

    Os EUA estão passando por um debate intenso sobre controle de armas e tiroteios em massa. Como você vê esses eventos, de uma perspectiva de gênero?

    Jessica Valenti Os tiroteios em massa nos Estados Unidos são certamente um fenômeno de gênero – são perpetrados em sua maioria por homens brancos que têm ressentimentos misóginos contra mulheres. Sim, é sobre as armas, mas também sobre masculinidade tóxica e a maneira como a ignoramos. Não é normal que homens ajam dessa forma, é uma crise para os meninos que conduz a uma crise para todos nós.

     

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