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Francisco de Paula Brito: um editor negro no Brasil do século 19

Comerciante tornou-se uma figura proeminente do Império, teve escravos e deu o primeiro emprego a Machado de Assis

 

Imortalizado de casaca – traje reservado aos homens de posses e prestígio no Império – em seu único retrato conhecido hoje, Francisco de Paula Brito (1809-1861) foi um comerciante, livreiro impressor e editor que atuou no Rio de Janeiro por três décadas, entre 1831 e 1861.

Filho e neto de escravos libertos, Paula Brito começou como tipógrafo e se tornou um bem-sucedido empresário. Era um homem negro livre, letrado, em um país recém-independente e ainda escravocrata. Do ponto de vista editorial, foi ele quem “inventou” a literatura brasileira. Foi Paula Brito, ainda, quem deu o primeiro emprego, de revisor tipográfico, ao adolescente Machado de Assis.

Professor de História do Brasil Império da Unicamp, Rodrigo Camargo de Godoi é autor de uma extensa pesquisa sobre o editor brasileiro, publicada em 2016 sob a forma do livro “Um editor no Império: Francisco de Paula Brito (1809-1861)”.

Em entrevista ao Nexo, o professor explicou o surgimento e a trajetória de Francisco de Paula Brito na sociedade brasileira da época, destacando sua importância e suas contradições políticas.

Em que contexto Francisco de Paula Brito se tornou editor?

Rodrigo Camargo de Godoi O contexto editorial que o Paula Brito encontrou, logo que se formou como tipógrafo e começou a atuar no Rio de Janeiro, era um contexto dominado em grande parte por editoras francesas. Eram impressores-livreiros – como se denominava no século 19 – franceses, entre a década de 1820 e 1840.

Então, temos que pensar também no contexto histórico da França. Em 1814, Napoleão cai e os Bourbon retornam ao poder. Aí você tem, de novo, uma série de políticas características do Antigo Regime. Por exemplo, censura, perseguição a jornalistas, a jornais etc. Alguns desses editores, livreiros, tipógrafos franceses, perseguidos pela política dos Bourbon, migram para o Rio de Janeiro. Alguns são famosos, como Pierre Plancher, que fundou o Jornal do Commercio no Rio.

A grande vantagem que eles tinham, a despeito dessa perseguição política que alguns sofreram, era as relações de parentesco e de negócios com Paris. Nesse período, basicamente toda a matéria-prima para fazer um jornal era importada, do papel à tinta de impressão. Essas pessoas tinham ligações com fornecedores e isso facilitava muito a atividade desses livreiros desse lado do Atlântico.

Era um contexto editorial já internacionalizado. Muitos editores vão, por exemplo, optar por imprimir seus livros em Paris, porque o custo de produção era muito mais baixo do que aqui.

Como entender esse jovem letrado, negro, numa sociedade escravista?

Paula Brito era um jovem que conseguiu se estabelecer dentro desse mercado, conseguiu fazer e acontecer dentro daquela sociedade, daquele universo. Nesse sentido, é um feito. Porque ele conseguiu se firmar como o mais importante editor do início do Segundo Reinado e conseguiu, através de alianças políticas, da qualidade do trabalho e dos impressos que ele apresentava e dos investimentos que fez na compra de maquinário, na contratação de tipógrafos e litógrafos da França.

O parque gráfico do Paula Brito foi considerado um dos maiores do Império. Ele importou maquinário, investiu. Ele faliu, só que antes de a falência acontecer, conseguiu estabelecer uma das maiores gráficas do Rio de Janeiro. Nesse contexto, de mercado internacionalizado de bens culturais impressos, ele foi um fenômeno.

O pai dele foi escravo até os 6 anos de idade, o avô materno dele foi libertado na pia batismal em 1737, lá em Minas Gerais.

Como entender esse jovem letrado, negro, numa sociedade escravista? A gente tem que recuar – o máximo que minha pesquisa permitiu recuar foi até a década de 1720 – e seguir a trajetória dos familiares do Paula Brito.

Aí fica mais fácil a gente entender como ele se alfabetizou, quais foram as condições, naquela transição de uma geração a outra, que possibilitaram uma figura como Paula Brito.

[Para se contrapor à ideia] do “self-made man”, aquele cara que, uau, era excepcional, que se transformou numa espécie de Barão de Mauá, no Samuel Wainer da época, você tem que pensar que, no início da década de 1830, já depois da independência, com as instituições e o Estado-nação se formando, há uma miríade de jornais defendendo o direito dessas “pessoas de cor”, como [jornal] o Mulato ou O Homem de Cor.

Os homens negros letrados eram uma fatia importante da população do Rio de Janeiro no século 19

Paula Brito imprimiu alguns desses jornais. O conjunto deles que eu li, que é basicamente tudo que saiu na imprensa pela tipografia do Paula Brito, advogava por um espaço na burocracia, emprego público.

Era uma fatia importante da população do Rio de Janeiro, composta por homens negros letrados, com formação em diferentes ofícios, desde a medicina até a tipografia, que já estavam afastados da escravidão uma ou duas gerações, e que queria nada mais, nada menos, os direitos plenos de cidadania, inclusive de poder ocupar cargos da burocracia.

Uma ou duas gerações depois, filhos e netos de escravos libertos estavam na imprensa brigando por direitos 

Essa cidadania das pessoas negras no século 19 é muito consciente, eles conheciam, por exemplo, o texto da nossa constituição de 1824, na qual não havia um dispositivo racial.

Ela não restringia a cidadania brasileira aos brancos. Era cidadão brasileiro todo indivíduo nascido livre no Império, independente da cor. Eu acredito que essa ausência de um dispositivo racial na constituição de 1824 já é uma conquista dessa parte muito importante da população do Rio de Janeiro, que é difícil quantificar em números exatos.

Foi um processo lento, o de conquistar a liberdade no século 18, se estabelecer como artífice especializado na carpintaria, na tanoaria, entre outros ofícios, aprender a ler e a escrever. Uma ou duas gerações depois, os filhos e netos desses homens, desses ex-escravos libertos, estavam na imprensa brigando por direitos. 

Eu imagino que o caso do Paula Brito ilumina outros, joga luz sobre um contexto muito mais amplo, de busca pela cidadania.

Como ele conseguiu chegar a essa posição?

Rodrigo Camargo de Godoi O Paula Brito nasceu no Rio mas foi criado em uma fazenda que produzia mandioca no recôncavo da Guanabara, em Suruí, perto de onde hoje é Magé. Ele cresceu nesse lugar junto com a família, depois veio para o Rio de Janeiro por volta dos 14 anos de idade para viver com o avô.

Começou a trabalhar numa botica e em seguida ingressou como aprendiz de tipógrafo na Tipografia Nacional. A seguir, já passa a trabalhar nas oficinas desses franceses. Ele teve uma lojinha que vendia de tudo, um armarinho.

Depois, ele compra um prelo de madeira e começa a produzir jornais. O salto dele é nos anos 1840, quando ele compra o primeiro prelo mecânico, começa a importar maquinário da França. O que acontece no mesmo momento em que ele se aproxima dos conservadores, depois do Golpe da Maioridade, que é quando dão uma rasteira na Constituição – isso é muito comum no nosso país – e D. Pedro II, com 14 anos de idade, é elevado à maioridade para assumir o trono.

Ele se torna um empresário importante do século 19, mas um empresário do século 19: com escravos

Nessa reconfiguração dos partidos, o Paula Brito se aproxima dos conservadores e vai ser conservador o resto da vida. Vai ser um aguerrido correligionário do Partido Conservador, que tinha como bandeira a manutenção do latifúndio, do trabalho escravo, entre outras coisas.

Estudei quais foram as condições históricas que possibilitaram a emergência desse indivíduo, o editor, no Rio de Janeiro do século 19. São duas as respostas que eu proponho. A primeira é justamente a necessidade de fazer frente ao mercado internacionalizado. O Paula Brito precisava vencer a concorrência com os franceses, isso ele dizia textualmente.

Em segundo lugar, isso só se tornou possível pelas alianças políticas que ele teceu durante a vida, sobretudo com membros muito influentes do Partido Conservador.

A gente percebe pela documentação que o Paula Brito teve acesso às diferentes modalidades de financiamento instituídas pelo governo para financiar seus empreendimentos. E aí ele se torna um empresário importante do século 19, mas um empresário do século 19: com escravos, com africanos livres, operários franceses e brasileiros trabalhando para ele.

Ele tinha escravos.

Rodrigo Camargo de Godoi Ele tinha escravas de ganho [escravos que realizavam tarefas remuneradas a terceiros e repassavam parte da quantia recebida para o seu senhor] e africanos livres. Esses eram os africanos resgatados do tráfico transatlântico.

A partir de 1831, o tráfico de seres humanos é considerado ilegal. Mas entre 1831 e 1850 ele correu solto. Nossas autoridades fizeram vista grossa ao embarque de aproximadamente 750 mil pessoas, que vieram transportadas ilegalmente da África. Toda a riqueza do café do Vale do Paraíba, que se expande para o oeste paulista, foi construída a partir do contrabando de gente.

Mediante a pressão inglesa para que o Brasil extinguisse o tráfico, as nossas autoridades apreendiam uma ou outra embarcação. Essas pessoas que eram “apreendidas” eram destinadas a obras do governo ou distribuídas a particulares. Isso funcionava para azeitar o apoio político entre as autoridades do governo e pessoas que eram agraciadas com a proximidade dessas autoridades.

A ideia, no texto da lei, era educar essas pessoas  por um tempo de aproximadamente 14 anos, pagar um salário para elas, mas isso não acontecia na prática. Era mais uma modalidade de trabalho compulsório no Brasil do século 19. 

Do ponto de vista do mercado editorial, ele inventou a literatura brasileira

O Paula Brito teve 8, localizei 8 africanos livres. Ter 8 pessoas trabalhando para ele nessas condições colocava ele no “top trend” dos arrematantes do Rio de Janeiro. Demonstra a influência dele junto a um determinado círculo político.

Ele atrasava o pagamento de africanos livres. Os adversários políticos dele diziam que ele era um senhor de escravos extremamente cruel. Obviamente que isso eram imputações ali no momento do embate político, mas ele teve sim seus africanos e seus escravos. 

Como avalia a atuação dele?

Rodrigo Camargo de Godoi Do ponto de vista do mercado editorial, quem inventou a literatura brasileira foi ele. Do ponto de vista de viabilizar editorialmente o que a gente chama hoje de literatura brasileira, a gente deve isso ao Paula Brito.

Sem sombra de dúvida, nessa ânsia de fazer frente à concorrência francesa, ele foi o editor que começou a investir, naquele momento, no ano de 1843, em um produto novo, que eram narrativas ficcionais escritas por brasileiros, com DNA brasileiro.

O critério político-partidário também atravessava a atividade editorial

Ele começa com um jovem também de ascendência africana, o Teixeira e Souza. Depois publica o Joaquim Manoel de Macedo, e aí vai conseguindo formar um catálogo de autores. Um dos últimos a ingressar [no catálogo] é o José de Alencar. O caso é interessante, porque ele era vinculado ao Partido Liberal, era um adversário político do Paula Brito. A partir do momento em que Alencar vira a casaca, e passa para o lado dos conservadores, Paula Brito começa a editá-lo. O critério político-partidário atravessava também a atividade editorial que ele realizou no século 19. Ele não era inocente.

É muito interessante a relação do Paula Brito com o Teixeira de Souza. Quando Paula Brito vai apostar em um autor para ser o primeiro do catálogo de ficção brasileira, aposta em um jovem com características muito parecidas com as dele. O Teixeira e Souza também é um jovem de ascendência africana, que sai de Cabo Frio, migra para o Rio de Janeiro e ali tem o Paula Brito quase como um mecenas. Um mecenas que, claro, também soube aproveitar o trabalho do Teixeira de Souza para os seus propósitos editoriais.

Há uma série de autores negros e mulheres importantes no século 19 que estão sendo descobertos, como a Maria Firmina dos Reis e o próprio Machado de Assis, que tem sido revisitado como autor negro e é um dos maiores escritores da América Latina no século 19. Ele começou suas atividades como revisor na tipografia do Paula Brito.  

Sendo a atividade editorial um ramo muito importante da cultura de um país, imagino que ele tenha sido inspirador para editores e autores negros. Apesar dessas contradições políticas. A gente não pode cobrar uma conduta do Paula Brito que não a de um homem do seu tempo, com as contradições do seu tempo. Ele viveu plenamente a sociedade na qual foi gestado. Com todas as suas mazelas.

Os jornais que eu mencionei não eram abolicionistas. O movimento que contesta a escravidão começa a se formar e ganhar força em 1860, quando o Paula Brito já havia morrido. Naquele momento, não se falava em emancipação. A escravidão era uma instituição que atravessava nossa sociedade de alto a baixo, desde o grande cafeicultor, o grande proprietário com 400 escravos, à viúva que dependia de um escravo de ganho para poder ter um rendimento e se alimentar. Era uma instituição que não era contestada.

Pessoas como o Paula Brito estão afastadas do cativeiro, querem ser cidadãos, usufruir do estatuto de cidadania do século 19. Ser proprietário de escravos é uma prerrogativa do cidadão do século 19. Naquele modelo de sociedade, para um homem negro bem colocado na vida como Paula Brito, ser proprietário de escravos era mais uma entre todas as prerrogativas sociais que ele conquistou e das quais gozou durante a vida.

O que significava, nessa época, um homem negro ocupar tal posição?

Rodrigo Camargo de Godoi No livro, falo de quando ele foi barrado no Clube Fluminense. Um sujeito no Rio de Janeiro decidiu formar um clube para a elite, com salões extremamente bem decorados, onde as pessoas iam para fumar charuto, tomar um drink e falar de política.

Muita gente comprou cotas desse clube, mas chegou uma hora que o empresário resolveu deixá-lo mais “seleto” e riscou algumas pessoas. Riscou, inclusive, o nome do Paula Brito e da família, da mulher e das filhas dele. Isso causou um escândalo no Rio de Janeiro porque muita gente foi para a imprensa protestar. [Dizendo] que o Paula Brito era um homem de cor, mas um homem de cor muito bem relacionado, que tinha acesso ao palácio, que tinha uma certa posição, não era uma pessoa qualquer.

A racialização da política no século 19 é muito interessante. Quando você acompanha as brigas entre os partidos, você tem liberais dizendo assim: “vocês, homens de cor, têm que ser liberais! É um pressuposto do homem de cor ser um liberal! Se aproximem do partido”. E a imprensa conservadora dizia a mesma coisa.

Eles reconheciam essa parcela da população como pessoas eleitoras e elegíveis, e vencia quem conseguisse atrair essas pessoas. Havia políticos extremamente importantes que eram negros, médicos da Academia Imperial de Medicina, deputados no parlamento, advogados negros formados pela Universidade de Coimbra.

Ele é uma figura tão conhecida quanto deveria?

Rodrigo Camargo de Godoi Ele não é um personagem de todo esquecido. Quando o “encontrei” para começar a pesquisa que deu origem ao livro, havia alguns estudos de literatura brasileira, alguns sobre a obra e a figura do Machado de Assis. O fato de Paula Brito ter sido o primeiro a dar emprego para ele fez com que ele tivesse algum destaque na história da literatura, nos estudos machadianos.

Só mais recentemente, uma historiografia importante sobre raça e racismo no Brasil resgatou a figura do Paula Brito

Então ele, de certa forma, não sofreu um apagamento. Era sempre lembrado. No entanto, as contradições políticas em torno da figura foram, de certa forma, cedendo lugar a uma noção mais amena de um mecenas da juventude com aspirações literárias no Rio de Janeiro, como Machado. Em seguida, do mecenas pobre, um pobre abnegado que fez da sua livraria um ponto de encontro.

Só mais recentemente, uma historiografia importante sobre raça e racismo no Brasil resgatou a figura do Paula Brito. Ele não sofreu um apagamento total, mas a densidade da atuação política do editor no século 19, dessa atividade editorial vinculada à política, dessa política editorial brasileira que se estabelece desde o início da formação do Estado brasileiro, foi apagada. O Paula Brito é sem dúvida uma expressão do início desse processo.

Há aí uma tese de cunho gramsciano [referência ao filósofo Antonio Gramsci]: como determinados grupos políticos estabelecem a hegemonia? A hegemonia é uma coisa complicada de se conquistar o tempo todo só com armas e fuzilamentos. Ela se conquista também através da cultura. A cooptação e transformação desses agentes de cultura, como os editores, em partidários, porta-vozes, elementos atuantes de determinadas facções políticas, é muito importante desde o século 19. 

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