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Todos querem ser Macron. Mas quem é Macron?

Cientista político Dominique Reynié fala ao ‘Nexo’ sobre o que há de singular e replicável no presidente francês

     

    Em novembro de 2017, o marqueteiro francês Guillaume Liegey fez uma viagem por Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília, onde se encontrou com políticos e estrategistas de campanha envolvidos na eleição presidencial brasileira marcada para outubro de 2018.

    A turnê de Liegey apareceu em jornais e revistas como uma espécie de casting - nome dado à seleção que os diretores de teatro e cinema fazem quando estão em busca do ator ideal para um determinado papel. Liegey, no caso, buscava um “Macron brasileiro”.

    O marqueteiro francês havia desempenhado função importante na construção do movimento En Marche!, que culminou, em maio de 2017, com a eleição de Emmanuel Macron para a presidência da França.

    Numa disputa polarizada entre direita e esquerda, Macron entrou em cena como o representante jovem e dinâmico de um centro relativo, que pregava renovação política sem vinculação aparente com as velhas oligarquias partidárias. A despeito de ter sido banqueiro e ministro da Economia do governo socialista de François Hollande, o então candidato foi apresentado como novo, renovador e arrojado.

    O Nexo entrevistou, por telefone, Dominique Reynié, professor associado de Ciência Política do Instituto de Estudos Políticos de Paris (Sciences Po) e diretor-geral da Fundação para a Inovação Política da França. 

    Reynié explicou os fatores que marcaram a ascensão de Macron e as características que tornam o jovem político francês dono de um figurino cobiçado por marqueteiros e candidatos de outras partes do mundo.

    Macron é apresentado frequentemente como um jovem impetuoso, um executivo audacioso, uma novidade, alguém que criou um novo movimento político e que rompeu com as antigas estruturas das elites eleitorais francesas. Quanto disso corresponde à verdade e quanto é simplesmente marketing político?

    Dominique Reynié A imagem de Macron corresponde a uma realidade, ainda que, é claro, essa realidade seja usada politicamente. Ele é o presidente mais jovem da história francesa. Isto é um fato. Além disso, ele nunca tinha sido eleito antes para exercer um mandato. É outro fato. Muitas vezes existem pessoas jovens, mas elas não são necessariamente jovens na vida política. Macron é novo e é novo na política francesa.

    É preciso lembrar que ele apareceu num momento em que os franceses estavam particularmente descontentes com a sua classe política. Muitos eleitores sentiam que eram sempre os mesmos candidatos disputando as eleições. O nível da insatisfação com a classe política estava, então, muito alto.

    Toda essa insatisfação poderia ter se exprimido em votos em branco, em votos em partidos populistas ou, como acabou acontecendo, em votos que  favorecessem um candidato que não estava exatamente à frente de um partido tradicional, dado que o En Marche! era uma associação, não era sequer um partido formal [como veio a se tornar em seguida]. De fato, era algo novo.

    Eu não considero que, com tudo isso, Macron tenha forçado algo. A situação que então se apresentava é que acabou por colocá-lo nessa posição.

    Macron é um fenômeno político essencialmente francês ou ele representa uma espécie de novo figurino que outros candidatos ao redor do mundo podem vir a utilizar também?

    Dominique Reynié Eu considero que Emmanuel Macron é a expressão francesa da crise geral do sistema democrático no mundo. Vejo ele como a resposta francesa para uma crise da democracia que se apresenta em várias partes, não somente na França.

    Em muitos lugares, as pessoas veem que há uma classe política que é sempre a mesma. As pessoas muitas vezes sentem que, não importa o resultado eleitoral, sempre ficarão em segundo plano, sempre ficarão por baixo. Isso tem gerado respostas muito críticas ao modelo de democracia e, em consequência, tem levado à procura de alternativas – quer sejam alternativas populistas, de ruptura, quer sejam alternativas de renovação, que é o que ocorreu com Macron.

    Depois de nove meses de mandato, Macron demonstrou que, de fato, é o outsider renovador que nós vimos na campanha política ou, ao contrário, iniciado o governo, ele demonstrou que o slogan da campanha termina onde começa o mandato presidencial?

    Dominique Reynié Ele encara a função de uma maneira nova, quando comparado a ex-presidentes franceses como François Hollande [2012-2017] e mesmo a Nicolas Sarkozy [2007-2012]. Macron funciona num registro mais grave, mais sério, mais rígido, até mesmo com alguma forma de autoritarismo.

    A França teve, por vezes, uma mestiçagem enigmática entre a tradição republicana e a tradição monarquista, e também entre a tradição autoritária e a tradição liberal do país. [François] Mitterrand [1981-1995] encarnou isso muito bem. [Jacques] Chirac [1995-2007] também. [Charles] De Gaulle [1959-1969], evidentemente. Mas, em outros momentos, isso ficou menos claro, fosse com [Valéry] Giscard [1974-1981] ou fosse com [Georges] Pompidou [1969-1974], fosse com [Nicolas] Sarkozy [2007-2012] ou fosse com [François] Hollande [2012-2017].

    Giscard dava a impressão de se apropriar da função. Sarkozy dava a impressão de faltar certo rigor. Hollande teve uma presidência surpreendentemente fora das regras e dos códigos da função. E Macron, de maneira muito correta, acredito, identificou uma certa nostalgia dos franceses - é possível até que uma certa nostalgia na forma de cólera -, que pedia um presidente com autoridade e até com certa rigidez.

    A busca dos políticos e dos marqueteiros por um “candidato Macron” só ocorre no Brasil ou em outras partes do mundo também? Que resultados essa estratégia já produziu por aí?

    Dominique Reynié Isso ocorreu no Japão, onde a prefeita de Tóquio [Yuriko Koike] era apresentada como a Macron japonesa. E também no caso da Itália. Mas o divertido, no caso da Itália, é que, quando havia Matteo Renzi como primeiro-ministro [2014-2016], nós, franceses, dizíamos, a França precisava de um Matteo Renzi francês. Agora eles dizem precisar encontrar um Macron italiano.

    Os franceses acreditam que a imagem da França no exterior melhorou com Macron. Muitos aqui acreditam que ele vem exprimindo uma forma de otimismo, e que ele diz aos franceses que a França pode se introduzir no mundo num lugar que lhe é reservado. É como se os franceses tivessem se reencontrado com um tipo de confiança que havia se esvaído. Isso é algo muito importante para os franceses, que são, como se sabe, um povo muito crítico à globalização.

     

      
     

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