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A história da cantora Maria Rita Stumpf, relançada por DJs

Artista toca em março de 2018 no festival Dekmantel, em São Paulo, ao lado de nomes da música eletrônica

     

    Em 2015, a produtora cultural Maria Rita Stumpf recebeu um e-mail inesperado do DJ John Gómez. Ele estava interessado em algumas canções que ela gravara no final da década de 1980 com sua voz potente acompanhada de sintetizadores e batuques que evocam a sonoridade de povos indígenas brasileiros e africanos.

    Quando foram lançadas, suas obras atingiram um público pequeno, frequentador de festivais da canção. A carreira de Stumpf como cantora de MPB não deslanchou, e ela passou a se dedicar no início da década de 1990 à produção de eventos culturais.

    Décadas depois, no entanto, suas obras se tornaram alvo de DJs e colecionadores europeus e asiáticos interessados por música brasileira obscura. Na música eletrônica, em parcerias com DJs e apresentações em festivais, a carreira de Stumpf vem sendo relançada.

    Em 2016 seu single “Cântico Brasileiro No. 3 (Kamaiurá)” foi relançado na coletânea organizada por Gómez “Outro Tempo: Electronic and Contemporary Music from Brazil, 1978-1992”, pelo selo Music From Memory. A canção havia sido apresentada por Stumpf no Festival Musicanto, em 1984, e denuncia a falta de terras demarcadas onde indígenas do povo Kaingang poderiam viver.

    Em um episódio famoso na época, famílias inteiras foram empurradas para a beira de uma estrada de terra próximo ao município de Nonoai (RS), expostas ao frio e à chuva. Em entrevista ao Nexo, Stumpf avalia que pouco mudou, a “pinimba” dos indígenas continua a mesma, “se não pior”.

    Na segunda-feira (18), o Cimi (Conselho Indígena Missionário) denunciou ações da Brigada Militar e do Batalhões de Operações Especiais com uso de bombas de gás e balas de borracha contra famílias kaingang no município de Passo Fundo, a menos de duas horas de carro de Nonoai. Entre os atingidos estão idosos e crianças.

     

    "Kamaiurá" está no álbum “Brasileira”, lançado por Stumpf em 1988. Alvo de colecionadores, o original é negociado por centenas de euros na internet, e foi relançado pelo selo brasileiro Selva em 2017.

    Em fevereiro daquele ano, Stumpf regravou a canção com seu antigo parceiro, Paulo Santos. A versão foi remixada por DJs brasileiros do duo Selvagem em parceria com Carrot Green, lançada também pelo Selva. Uma versão de “Lamento Africano/Rictus” remixada pelo DJ francês Joakim foi lançada pelo mesmo selo em 2017.

    A cantora tem se apresentado em festivais de música contemporânea e eletrônica no Brasil. Em novembro, Stumpf participou do Kino Beat Festival, em Porto Alegre. E no início de março ela toca em São Paulo no festival Dekmantel, ao lado de nomes da música eletrônica como os DJs Floating Points e Stingray, pioneiro do techno.

    O Nexo conversou com Stumpf sobre sua trajetória e o interesse renovado pela sua música.

     

    Como você começou a produzir música?

    Maria Rita Stumpf Eu nasci no município de São Francisco de Paula, nos Aparados da Serra, perto do cânion de Itaimbezinho. Eu passei meus primeiros anos em uma propriedade rural pequena, familiar. Fui morar em Caxias do Sul mais ou menos em 1967, 1968.

    Meu pai tinha estudado filosofia e minha mãe era uma devoradora de livros, leu Shakespeare etc. A leitura sempre foi para mim uma coisa normal, e a palavra era um elemento que podia ser falado e cantado.

    Meus pais ouviam muita música clássica, me levavam a concertos desde os 4 anos de idade. Mas ao mesmo tempo me atraia imediatamente qualquer coisa que fosse batuque, percussão, pés batendo no chão.

    Sempre fui uma pessoa muito intuitiva, me encaminhei para aquilo que me chamava atenção, me dizia alguma coisa, e comecei a ouvir música de tudo o que é lugar do mundo, Bali, Irã, Índia.

    Quando eu tinha mais ou menos 14 anos, comecei a escrever textos, poemas, às vezes com cara de letra de música.

    Comecei a compor em qualquer lugar, no meio da rua andando, na viagem de ônibus. Eu ia decorando na cabeça [a ideia], depois escrevia a letra, já sabia qual era a melodia, tinha insights de arranjos.

    Quando eu tinha uns 16 anos e ainda morava em Caxias do Sul (RS) eu e meu amigo Luís Paulo Faccioli inventamos um festival de música, chamado a Balada da Canção do Estudante Caxiense, em 1974 ou 1975, em um momento em que tinha muitos festivais por todo o estado.

     

    A gente organizava, mas também cantava, tocava e fazia de tudo junto. Começou por aí. Depois de eu ir embora, esse festival continuou por muitos e muitos anos.

    Na maioria das vezes, eu compunha com a voz, porque achava que me limitaria muito menos do que com qualquer instrumento. O Ricardo Bordini foi a pessoa que eu conheci com 18 ou 19 anos e que traduzia minhas músicas para o instrumental. Uma vez ou outra compus com violão.

    Começamos a colocar as músicas nos festivais e shows de secretarias de Cultura no Rio Grande do Sul, e com isso comecei a trabalhar também com produção cultural.

    Conheci o Luiz Eça produzindo o espetáculo em que ele ia tocar em um bar de música em Porto Alegre. Ele me convenceu a ir para o Rio estudar com ele, e já me arrumou um trabalho com produção cultural para eu não ter que ficar louca com a história de depender de música.

    Na Sala Sidney Miller no Rio de Janeiro tinha uma programação da Funarte em que um artista consagrado apresentava um artista novo. Eu me mudei para o Rio em 1985 com 15 dias de show marcados com o João de Aquino.

    Continuei fazendo produção e conheci o pessoal do Uaktí em um evento que organizei em Porto Alegre, em 1988. É um grupo emblemático de música instrumental nessa estética de criar uma sonoridade totalmente sua, em que o pessoal de música eletrônica é absolutamente fissurado. Gravaram com Deus e o mundo, Paul Simon, Milton Nascimento etc.

    Como foi a composição e produção de Kamaiurá?

    Maria Rita Stumpf Quando se pensa na situação dos índios no Brasil se pensa sempre no Amazonas, talvez no Mato Grosso. Mas indígenas de São Paulo, Bahia, outros estados ficam na base da mendicância onde puderem, acampando onde der para acampar. Como acontece até hoje, a discriminação com negros e com índios, a falta de igualdade e Justiça era um tema que era muito relevante para mim.

    Sou formada em jornalismo, e trabalhei com noticiário diário quando ainda estava na universidade em Porto Alegre, na TV Bandeirantes, na Rádio Gaúcha, na Folha da Manhã e na TV Guaíba, entre 1977 e 1982.

    Tinha poucas coisas estabelecidas em relação a reservas indígenas. No final da década de 1970, os Kaingang foram expulsos do lugar onde estavam, colocaram uma quantidade absurda de indígenas no meio de uma estrada de terra, com muita chuva e frio perto de uma cidadezinha chamada Nonoai.

    Essa é uma etnia muito grande e articulada no Brasil, e eram muito conhecidos até pela conexão com o [cacique caiapó] Raoni [Metuktire]. Foi uma balbúrdia no Rio Grande do Sul, com notícias a toda hora, foi uma situação muito séria.

    Foto: Divulgação
    Foto de divulgalção da cantora Maria Rita Stumpf
    Foto de divulgalção da cantora Maria Rita Stumpf

    Estava rodando na minha cabeça essa história e a música  do Marcos Pereira, que fez uma coletânea com músicas do Sul, Sudeste, Norte etc. Compus Kamaiurá sentada numa cama, percutindo em duas flautas de bambu.

    Muito tempo depois, vi que tem semelhança com canções indígenas do norte, como a Canção do Veado. Deve ter alguma semente em mim que tem a ver com a estética negra, indígena.

    Eu fiz uma conexão, dizendo “Kamaiurá no Xingu quer falar que os Kamaiurá são lá do Norte”, da área da Amazônia; os Kaingang em Nonoai querem falar porque eles estavam na mesma situação. Então [a música diz que] de Norte a Sul os indígenas estão nessa pinimba que, por sinal, continua a mesma até hoje, se não pior.

    E, felizmente, conheci artistas que entendiam o que eu estava fazendo, entendiam minha linguagem e que estavam dispostos a esse tipo de desafio.

    Surgiu um festival mais aberto, que era o Musicanto [no Rio Grande do Sul], e inscrevemos o “Kamaiurá” [em 1984] em uma gravação com Mauro Podolak, Negendre, Dmitri, que eram o Quintal de Clorofila, e Zé Caradipia.

    Inscrevemos meio que para provocar, porque os caras diziam que o festival era de "música nativista", e a gente entendia, na nossa cabeça, que nativista tinha a ver com os primeiros povos que estiveram por aqui.

    Foi uma folia total porque entrou uma música indígena no meio das músicas de gaúcho, que beiram a tradição espanhola misturada com as coisas dos países da Bacia Cisplatina, Argentina, Uruguai. Candombe, milonga, valerão, esses tipos eram muito mais a música do Rio Grande do Sul.

    Desde aquela época, “Kamaiurá” já causava muita empatia. Quando ficamos em terceiro, o público foi embora do teatro, não ficaram nem esperando para ver quem era o primeiro e o segundo.

    Depois, gravei “Kamaiurá” e o LP “Brasileira” de forma independente, com Marco Antônio Guimarães, do Uaktí, que fazia os arranjos e criava instrumentos, o Luís Eça, o Ricardo Bordini  e o Paulo Santos, que também foi fundador e criava os instrumentos Uaktí e toca comigo até hoje. O Paulo e o Ricardo, que hoje é professor universitário, vão tocar comigo nesse show do Dekmantel.

     

    Tem coisas [no álbum] que hoje pensam que é eletrônico, mas é instrumento natural, tem coisa que pensam que é instrumento natural, mas é eletrônico. O Uaktí era um grupo que fazia coisas batendo palmas, batendo no corpo etc que não se consegue escrever em uma ficha técnica.

    Em 1993, gravei um CD, Mapa das Nuvens, com o Danilo Caymmi, Marcos Suzano, Luís Coimbra, que eram parte do Aquarela Carioca ainda. Mas, economicamente, era muito difícil para sobreviver. Eu comecei a trabalhar com a produção de eventos internacionais e parei com a música.

    E como tem sido a retomada?

    Maria Rita Stumpf Os DJs e colecionadores de vinil começaram a se alinhar em um mesmo tipo de busca louca por coisas estranhas e diferentes. Há um cansaço de uma estética batida e rebatida. Foram buscar lá atrás e chegaram em algum lugar em que o pedido estético deles foi  atendido.

    E os trabalhos que viraram cult total foram "Lamento Africano", que é meu cantando em kimbundu, "Rictus", que é música minha, "Kamaiurá", e "Kiuá" da Andréa Daltro.

    Em 1977, a gente misturava os tambores, os instrumentos de fava, de vidro, cabaça com os sintetizadores. Acabamos indo para o gosto da música eletrônica também.

    Esse alinhamento de um gosto estético de uma camada de DJs e colecionadores de vinil fez surgir esse movimento que ainda está bastante forte.

    Em 2015, um dos músicos que tinham tocado comigo me convidou e fiz um show na Alemanha, em Munique, com o Farley Derze, que colaborou comigo no "Mapa das Nuvens".

    E com as coincidências e sincronicidades da vida, recebi um e-mail do John Gomez, que tinha encontrado meu LP no Japão.

    Ele viu que essa sonoridade estava sendo tocada em tudo o que é lugar e quis fazer uma coletânea de música brasileira que não tinha “acontecido”, que não teve na época o espaço’  que ele julgava que deveria ter tido naquele período. A partir do meu LP -ele é que diz isso- surgiu a coletânea "Outro Tempo" [que resgata músicas de artistas brasileiros experimentais relativamente pouco conhecidos entre as décadas de 1970 e 1990].

     

    Ele demorou para me achar porque no meu LP não tinha meu sobrenome, e ele ficava dando com a filha da Elis Regina, mas no e-mail ele disse que queria fazer a coletânea e me pediu para ajudá-lo.

    Ele veio em março de 2016, coloquei ele em contato com outros artistas, com o grupo Uaktí. Ele falou com Priscila Hermes, Mulheres Negras e vários artistas que não fizeram parte da coletânea. Eles lançaram na Europa com 2.000 cópias físicas e venderam todas em dez dias.

    Logo após John Gómez ter ido embora, encontrei um amigo que trabalhava comigo na empresa que eu tenho, a Antares Produções, Carlos Alberto Kaiser, que é o pai do Millos Kaiser [que participa do duo Selvagem e do selo Selva] e sempre foi diretor técnico das companhias de dança que eu trazia para o Brasil.

    O Millos que me conhecia desde pequenininho, muito louco, tocava minhas músicas e não se ligava que eu era a mesma pessoa que ele conhecia.

    Um dia o pai dele me encontrou em um espetáculo e foi para casa. No dia seguinte ele me liga e me conta que quando entrou em casa e falou “encontrei a Maria Rita”, deu um "tróin" nele [Millos]. Ele disse “não vai me dizer que a Maria Rita que você encontrou é a mesma que eu estou pensando? A Maria Rita canta? Ela é compositora?”. Ele me colocou em contato.

    Fizeram uma pesquisa com os colecionadores de vinil que sugeriram que eles relançassem o LP inteiro, normal, com o mesmo design. Depois, me apontaram três DJs para eu escolher um e fazer o remix de “Kamaiurá”.

    Então, depois de eu parar 30 anos, em um ano saiu a coletânea do Outro Tempo, da Music From Memory, meu LP relançado pela Selva Discos, e o single para os DJs.

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