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Como as ‘fake news’ podem ser um incentivo à ‘alfabetização midiática’

Pesquisadora espanhola Nuria Fernandez fala ao ‘Nexo’ sobre as iniciativas educacionais, nas escolas e na imprensa, para melhorar o nível de discernimento dos leitores

     

    A eleição do republicano Donald Trump como presidente dos EUA, em 2016, fez crescer a níveis inéditos a preocupação com as chamadas “fake news”. A expressão, que pode ser traduzida ao pé da letra como “notícias falsas”, passou a ser usada à exaustão tanto por Trump quanto por seus opositores, como munição numa guerra sobre o que seria a verdade dos fatos na cobertura política.

    O debate em torno da veracidade não é novo no jornalismo, ou mesmo na comunicação, de maneira mais ampla. Entretanto, o alcance da internet fez explodir a abrangência das notícias falsas, dos rumores, dos boatos, das mentiras e de todos os outros nomes associados às “fake news” na política atual.

    A possibilidade de manipular os algoritmos de redes sociais, favorecendo a disseminação de determinados fatos, de versões dos fatos ou mesmo de notícias completamente inverídicas vem sendo explorada até mesmo por governos interessados em promover a instabilidade em países estrangeiros. O exemplo mais debatido hoje é o da Rússia, cujo serviço secreto é acusado de agir para influenciar debates eleitorais em várias partes do mundo.

    Aqui mesmo no Brasil, o segundo colocado nas pesquisas de intenção de voto para a Presidência, o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ), recorre com frequência à acusação de que os jornais, quando publicam notícias desfavoráveis a seu mandato parlamentar e à sua campanha, não passam de “fake news”.

    Para Nuria Fernández-García, doutora em jornalismo pela Universidade Autônoma de Barcelona, na Espanha, todo esse debate sobre as “fake news” trouxe consigo a oportunidade de impulsionar, sobretudo entre as crianças e jovens, o estudo sobre as formas de produção, de disseminação e de consumo das notícias no mundo hoje.

    É sobre esse tema que o Nexo conversou com Nuria Ferndández, por e-mail, no dia 19 de janeiro de 2018.

    Grande parte do debate sobre fake news está focada nos produtores e difusores de notícias, como os sites de conteúdo e as plataformas de redes sociais. Mas a sra. fala do papel do leitor enquanto indivíduo consumidor da informação. Como o leitor pode participar de maneira mais consciente desse processo?

    Nuria Fernandez O leitor tem de participar de maneira crítica no processo de consumo de notícias. Ele tem o direito de receber informação veraz. Ele tem de exigir uma informação verdadeira porque é responsabilidade de todos lutar contra a tolerância atual à mentira. Os cidadãos têm de se mostrar críticos diante daqueles que produzem notícias falsas.

    De acordo com um estudo produzido pela organização americana Pew Research Center, em 2016, durante as eleições presidenciais nos EUA, 64% dos americanos relataram ter tido contato com histórias inventadas que causaram grandes confusões a respeito de fatos básicos. O mais alarmante é que, de acordo com esse mesmo estudo, 23% dos americanos haviam compartilhado notícias falsas em suas redes sociais e 14% o fizeram sabendo que a notícia em questão era falsa. Isso significa que não basta oferecer apenas as ferramentas necessárias para avaliar a credibilidade da informação, mas que é preciso oferecer também uma perspectiva cívica.

    É preciso empoderar os cidadãos e facilitar que eles adquiram as competências básicas para que possam ter acesso, que possam compreender, analisar, avaliar e produzir conteúdo, e para distinguir entre notícias reais e notícias falsas. A democracia sairá reforçada de todo esse processo, ao construir uma cidadania informada, que possa tomar decisões livremente.

    A sra. acredita que a leitura e a interpretação da mídia deveria ser um tipo de matéria estudada na escola? De que maneira?

    Nuria Fernandez Mais do que nunca, a alfabetização midiática é necessária. É preciso ensinar as crianças, desde a escola, a serem críticas em relação aos meios [de comunicação].

    Um estudo realizado em 2009 por Paul Mihailidis [professor do Emerson College de Boston] mostra que estudantes que realizam cursos de alfabetização midiática aumentam sua capacidade para entender, avaliar e analisar as mensagens que são transmitidas pelos meios de comunicação.

    Portanto, é preciso oferecer às crianças e aos jovens as ferramentas necessárias para que eles saibam avaliar a qualidade da informação. Se as novas gerações se informam pelas redes sociais e por outros recursos on-line, como demonstram diferentes estudos realizados pelo Pew Research Center, é preciso que elas aprendam a decodificar o que estão lendo on-line. Por isso é preciso integrar a análise midiática ao currículo escolar.

    Já existem pesquisas desenvolvidas nesse campo. A Digipo (Digital Polarization Initiative) é um projeto que tenta conscientizar os jovens sobre o conteúdo informativo que eles encontram on-line, fazendo com que eles sejam partícipes da análise das questões relacionadas com a polarização digital. Os estudantes revisam a informação encontrada no Twitter ou no Facebook. Além de investigar a informação, os estudantes também dão contexto e sentido a notícias que vão desde a fraude eleitoral até a artigos nos quais é anunciado, por exemplo, um novo tratamento contra o câncer.

    Há ainda iniciativas como o Project Look Sharp, criado pelo Ithaca College [de Nova York], que desenvolve e provê planos de estudo, materiais, formação e apoio para a integração da alfabetização midiática no currículo escolar em todos os níveis educacionais, ou ainda o NPL (News Literacy Project), que trabalha com educadores e com jornalistas para ensinar estudantes secundaristas a distinguir fatos de ficções na era digital. Há cada vez mais iniciativas.

    Como delegar papéis tão importantes às escolas e ao Estado sem correr o risco de aumentar o controle desses atores na liberdade individual?

    Nuria Fernandez Nós já delegamos uma multiplicidade de conhecimentos e aprendizagens às nossas escolas. A alfabetização [midiática] seria mais um. E não se pode esquecer que a alfabetização midiática não é responsabilidade exclusiva das escolas. Como disse Dan Gillmor [pesquisador e escritor da área de comunicação], nas previsões do NiemanLab para o ano de 2017, os meios de comunicação e os jornalistas podem conseguir maior impacto que as instituições educacionais.

    É preciso que tenhamos também veículos mais transparentes, que permitam que a audiência participe, que conversem com seus leitores e que reconheçam os próprios erros, provendo explicações sobre o que aconteceu e sobre os passos tomados para prevenir que isso volte a acontecer no futuro. Alguns veículos começaram a realizar atividades para educar os cidadãos em questões básicas do jornalismo e para reforçar a capacidade do público para ler as notícias de maneira crítica.

    A France 24, por exemplo, utiliza sua página Les Observateurs para ensinar a metodologia do trabalho jornalístico e estimular o senso crítico de seus espectadores. A BBC Academy compartilha conteúdo que inclui diferentes conselhos sobre produção de notícias. A questão não é delegar às escolas. A questão é todos nós temos uma responsabilidade, uma responsabilidade cívica.

    Clássicos como “Ilusões Perdidas”, de Balzac, tratam exatamente do uso pérfido da imprensa para difundir boatos e notícias falsas desde o século 19. O que há de novo, realmente, nesse debate? É apenas o alcance? O potencial de difusão pela internet?

    Nuria Fernandez Efetivamente, as notícias falsas sempre existiram. Há tempos [Joseph] Stálin [que governou de maneira totalitária a hoje extinta URSS de 1922 a 1943] eliminava das fotos oficiais seus colaboradores caídos em desgraça. Entretanto, as redes sociais amplificaram o alcance. Quem escolhe as notícias na rede social? Um algoritmo. Um algoritmo decide a ordem das notícias que nós vemos nas redes sociais. Mas os algoritmos não garantem que as notícias são realmente notícias. Aliás, foram os algoritmos que enviesaram a informação a favor do [presidente dos EUA, Donald] Trump nas últimas eleições à presidência dos EUA [2016], quando então foram utilizados bots que buscavam alterar o resultado das eleições e trolls estrangeiros bombardearam as redes sociais americanas com notícias falsas. Num ecossistema midiático com informação abundante ou com sobreinformação se torna absolutamente necessário que se comprove a veracidade das notícias.

    Pode ser que a rede amplifique o alcance das notícias falsas, mas ela também oferece a oportunidade de lutar contra essas notícias falsas e de conseguir um jornalismo de qualidade, ou – o que é o mesmo – simplesmente jornalismo.

     

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