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Qual o peso do colonialismo para o presente e o futuro da África

Acadêmico queniano Samson Opondo fala ao ‘Nexo’ sobre a ‘artificialidade das fronteiras’ e a afirmação da identidade no mundo atual

 

O primeiro erro de quem tenta entender o peso do colonialismo na política contemporânea da África é achar que só a África teve seu passado, presente e futuro marcado pelo colonialismo. Ou que essa marca foi impressa de maneira inigualável sobre os africanos.

O segundo é achar que só a África teve suas fronteiras desenhadas de maneira artificial por potências coloniais que, nos séculos 19 e 20, não se importaram com as idiossincrasias de povos diferentes que acabaram confinados no interior de um mesmo país inventado.

Nesta entrevista ao Nexo, o cientista político queniano Samson Okoth Opondo, do Vassar College, de Nova York, diz que o colonialismo não é apenas “determinante para os destinos da África”. Ele, “sem dúvida alguma, foi e continua sendo uma força central na construção e na desconstrução do mundo como um todo”.

Opondo diz que “fronteiras – ou limites, para ser mais preciso – são tão artificialmente desenhadas na África quanto em qualquer outro lugar do mundo” e “a lição da África seria menos sobre a artificialidade de suas fronteiras do que sobre como desnaturalizar, negociar, contestar ou reinventar essas fronteiras.”

O cientista político é um dos organizadores da coletânea de ensaios “A Nova Violência Cartográfica”, na qual diversos autores tratam da tensão entre o conceito de Estado-nação e outras variáveis identitárias e aspirações políticas das pessoas que vivem dentro dos limites do que ele define nesta entrevista como “a artificialidade das fronteiras”.

Ele pesquisa “a violência, a etnicidade e a diplomacia do cotidiano”, na “cultura popular da África urbana” e esteve na PUC do Rio de Janeiro em outubro de 2017 discutindo “Racismo, razão humanitária e intervencionismo pós-colonial”, num seminário que reuniu outros cinco especialistas nos estudos de pós-colonialismo. Leia abaixo a entrevista que o cientista político concedeu ao Nexo por e-mail.

Quanto o colonialismo foi ou é determinante para o presente e para o destino da África?

Samson Okoth Opondo Eu não apresentaria o colonialismo como determinante para os destinos da África. Essa é uma posição derrotista. Mas, sem dúvida alguma, o colonialismo foi e continua sendo uma força central na construção e na desconstrução do mundo como um todo.

Trata-se de um fenômeno planetário, como demonstrado pela expropriação das terras e pela eliminação ou pelo contínuo saque aos povos indígenas, e pela consequente reorganização das políticas de maneira a fazer com que elas sirvam de base para a vida moderna e para o imaginário nacional das sociedades coloniais e pós-coloniais.

Porém, o colonialismo não é imutável. Essa é a grande lição das múltiplas resistências ao colonialismo na África e suas diásporas. Por exemplo, a Revolução Haitiana [1804], este espaço da diáspora africana, do colonialismo e da escravidão, nos oferece uma expressão mais plena da busca pela dignidade humana do que a Revolução Francesa [1789], que, apesar de suas pretensões universalistas, foi essencialmente uma revolução burguesa e racializada, baseada em uma idéia muito limitada do humano/homem.

Nós vimos recentemente uma enorme convulsão política na Espanha, provocada pelas demandas separatistas da Catalunha. Como demandas separatistas funcionam no contexto africano, onde muitas das fronteiras foram desenhadas de maneira artificial pelas potências colonizadoras?

Samson Okoth Opondo Fronteiras – ou limites, para ser mais preciso – são tão artificialmente desenhadas na África quanto em qualquer outro lugar do mundo. Então, a lição da África seria menos sobre a artificialidade de suas fronteiras do que sobre como desnaturalizar, negociar, contestar ou reinventar essas fronteiras.

‘O Ocidente, como diz Edouard Glissant: “não está no Ocidente. Isso é um projeto, não um lugar’

Assim sendo, nós podemos olhar para a demanda simultânea por liberdade e igualdade, característica do referendo catalão por independência [2017], assim como para as várias partes da África, como tendo [ambas] a ver com visões prevalecentes de política, do povo e dos ideais de Estado soberano, além das especificidades regionais.

As fronteiras reconhecidas do Estado-nação na Espanha são tão construídas quanto as da África. O que os catalães demandam, ou o que os envolvidos no debate sobre “autodeterminação nacional” em territórios em disputa na África revelam, é a violência fundacional que estabeleceu o sistema do Estado moderno e os mecanismos estruturais e as reivindicações de identidade que os perpetuam.

Sendo menos contemporâneos e olhando para trás na história da Catalunha, sob a coroa de Aragão, no século 12, ou antes da assinatura do Tratado de Westphalia [que pôs fim a uma sequência de guerras na Europa, estabelecendo as bases do moderno sistema internacional, com o reconhecimento do Estado-nação e da soberania], no século 17, quando a Catalunha estava sob proteção da França, nós percebemos rapidamente as mudanças fronteiriças e as reivindicações da Espanha e do resto da Europa. Afinal, o Ocidente, como diz [o escritor, filósofo e poeta] Edouard Glissant: “não está no Ocidente. Isso [o Ocidente] é um projeto, não um lugar.”

Muitos dos europeus que erguem a voz agora contra imigrantes africanos descendem de colonizadores europeus que em algum momento também foram à África. O sr. vê conexões entre esses dois momentos e contextos?

Samson Okoth Opondo Para termos alguma perspectiva, podemos olhar para o livro de António Lobo Antunes [escritor e psiquiatra português que atuou como militar em Angola, quando o país africano era colônia portuguesa, até 1974] Regresso das Caravelas, no qual [o navegador português] Vasco da Gama [1469-1524] e outros navegadores e exploradores portugueses retornam a Portugal após o colapso do império [português], centenas de anos depois.

‘Parte da presença dos imigrantes africanos na Europa pode ser explicada por meio do mapeamento do fluxo reverso entre colônias e metrópoles. Mas também há algo novo aqui. Tem muito a ver com as desigualdades criadas pelo neoliberalismo’

A narrativa de Antunes faz um emaranhado, colocando lado a lado práticas dos dias atuais com as caravelas para mostrar como a escravidão e as práticas coloniais moldaram o mundo moderno.

Sim, parte da presença dos imigrantes africanos na Europa pode ser explicada por meio do mapeamento do fluxo reverso entre colônias e metrópoles. Mas também há algo novo aqui. Tem muito a ver com as desigualdades criadas pelo neoliberalismo. Tem muito a ver também com as guerras das quais a Europa é cúmplice, e que deslocam milhões. A hostilidade da Europa em relação aos imigrantes tem muito de racismo e da recusa europeia de conviver com os que ela considera terem práticas incomensuráveis [de afirmação] de identidade.

Em todo caso, a Europa não é o único destino ou o destino preferido de muitos imigrantes africanos. É apenas um dos menos hospitaleiros com um controle migratório por vezes letal, em alguns casos delegado a países como a Líbia [situada no norte da África, de onde muitos imigrantes indocumentados partem na tentativa de cruzar o mar Mediterrâneo].

Quão importante é a presença chinesa na África hoje, em termos diplomático, político, econômico e militar? Trata-se de uma nova forma de colonização?

Samson Okoth Opondo O uso do termo “colonialismo” para se referir a toda relação assimétrica com a África impede que nos coloquemos novos questionamentos ou que venhamos com novos termos para perceber o que está ocorrendo no continente. Além disso, apresenta a África como um sujeito passivo, não como agente.

Há uma longa história das relações sino-africanas que não é necessariamente colonial. Vai dos engajamentos mais recentes, durante a Conferência de Bandung, em 1955 [encontro de 29 países africanos e asiáticos, na Indonésia, ocorrido há 62 anos], a encontros muito mais antigos. Poderíamos retornar à mesma costa swahili [leste da África], no Oceano Índico, que foi brutalizada por Vasco da Gama nos séculos 15 e 16, e descobrir as atividades de Zheng He [1371-1433], o navegador diplomata eunuco chinês da Dinastia Ming [1368-1644] que teve engajamentos mais afirmativos com os africanos no mesmo período.

Hoje, o Consenso de Beijing [nome dado à visão chinesa para as relações atuais com o mundo exterior] parece dar margem de manobra para os Estados africanos presos nas garras do Consenso de Washington [nome dado a partir de 1989 ao receituário neoliberal americano que pautou as relações internacionais dos EUA, sobretudo com os países em desenvolvimento]. No entanto, [o Consenso de Beijing] também amplia e aprofunda algumas das ideias consensuais mais problemáticas, tais como o capitalismo neoliberal, os projetos desenvolvimentistas, os regimes cleptocráticos e a dimensão militarista das políticas africanas. A alternativa ao Ocidente não parece ser uma alternativa para todos. Talvez um relacionamento mais duradouro entre a China e a África seja mais promissor para o futuro.

Em dois momentos diferentes, o Brasil se propôs a desenvolver uma relação sul-sul com os países africanos – primeiro, durante a ditadura militar (1964-1985) e, mais recentemente, durante o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010). Como esses movimentos foram percebidos na África? Tiveram impacto real?

Samson Okoth Opondo Vou levar sua pergunta para outra direção e apresentar uma resposta breve e talvez até evasiva. Antes de pensar nas relações África-Brasil ou sul-sul dentro da linguagem diplomática de Estado, é importante olhar mais criticamente para a história e para os futuros possíveis das relações afro-brasileiras como um todo.

Se focarmos na ideia de Lula, sobre a existência de um débito histórico do Brasil e de uma obrigação moral dos brasileiros em relação à África, com base no reconhecimento de que milhões de africanos foram enviados como escravos ao Brasil, então fica claro que a história das relações África-Brasil é uma história de desaprovação em relação a uma história mais íntima e assombrosa. Sendo esse o caso, repensar, revigorar e renegociar as relações afro-brasileiras não significa apenas fazer crescer as relações econômicas com os Estados africanos, sob os Brics [grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul], mas significará também repensar políticas de reparação e de pertencimento, [em relação aos descendentes de africanos] no Brasil, tomando a sério reivindicações das comunidades quilombolas e de outros grupos subalternos. Em resumo, vamos colocar a questão da África, do Brasil e das relações afro-brasileiras de maneira mais crítica.

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