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Como se dá a influência da China sobre os países em desenvolvimento

Cientista política da Universidade de Oslo, na Noruega, Benedicte Bull fala ao ‘Nexo’ sobre as estratégias de expansão internacional da segunda maior economia do mundo

     

    Depois de fazer sua economia crescer a taxas próximas de 10% ao ano ao longo da primeira década do século 21, a China vem mudando de estratégia. Desde 2010, os índices de expansão do PIB caíram de 10,6% para 6,7% — índice registrado em 2016. Se antes o país focava em produção industrial a preços mais baixos para exportação, agora passa a desenvolver o mercado interno, com salários mais altos para seus trabalhadores.

    Ao mesmo tempo, a China também se coloca como um ator cada vez mais poderoso no cenário internacional, a ponto de fazer os americanos temerem a perda da hegemonia global que detêm desde o fim da Guerra Fria, no início da década de 1990.

    A eleição de Donald Trump e seu discurso isolacionista contribui para o sentimento de que os EUA perdem espaço para os chineses. Um dos maiores exemplos dessa movimentação é a manifesta intenção da China em liderar as tentativas de frear o aquecimento global com o Acordo de Paris — do qual Trump retirou os EUA.

    Se a China expande sua influência em todo o mundo, os países em desenvolvimento — sobretudo na América Latina e na África subsaariana — já convivem com o poder da segunda maior economia global há algum tempo. E, por isso, essas regiões se transformam em objetos únicos de estudo para entender quais as características da estratégia chinesa de influência internacional.

    A professora Benedicte Bull, cientista política na Universidade de Oslo, da Noruega, veio ao Brasil neste mês de novembro para falar sobre sua pesquisa que, em tradução livre do inglês, tem o seguinte nome: “O crescimento da China e o desenvolvimento da capacidade estatal na África e na América Latina”.

    A pesquisadora busca entender como a China exerce influência na capacidade de desenvolvimento dos Estados nessas regiões, por meio de seus investimentos.

    Bull ministrou sua palestra, na terça-feira (28), à convite da PUC do Rio, no think tank BPC (Brics Policy Center), ligado à universidade. Antes, falou por telefone com o Nexo sobre a ascensão chinesa, a estratégia de política externa do país e como isso afeta a América do Sul e o Brasil.

    Como a capacidade de influência externa da China se relaciona com as dinâmicas internas do país?

    Benedicte Bull A política externa é derivada de suas necessidades internas. É por isso também que eles têm focado em matérias-primas, em estabelecer infraestrutura em outras regiões, para que elas tenham capacidade de transportar essas matérias-primas para a própria indústria [chinesa].

    Mas agora a estratégia de desenvolvimento da China atingiu um ponto de necessidades críticas. Primeiro, há a necessidade de importação de comida para a própria população; e eles estão em um momento de transição a um modelo industrial que é mais focado no consumo interno, e não apenas em produzir bens industriais para mercados estrangeiros. Você vê que eles estão claramente mudando padrões de investimento na América Latina, onde eles costumavam estar focados apenas em energia, petróleo, minerais — em matérias-primas — e soja, claro. Mas agora é mais focado em uma variedade de indústrias manufatureiras, porque eles buscam também participar de outras partes da cadeia de produção global.

    Como a China planeja sua influência internacional?

    Benedicte Bull Há muitas faces para essa questão, porque a política da China não é de criar influência. É sobre relações “win-win”, é sobre trabalhar amigavelmente na direção das mesmas metas, então eles têm uma maneira bastante diferente de agir nesse sentido se comparado aos EUA. E, na verdade, as pesquisas mais recentes mostram que o engajamento chinês em outros países levou, em geral, ao crescimento econômico desses outros países. E isso é bastante diferente do que a ajuda, por exemplo, do Banco Mundial e de doadores ocidentais.

    Mas, ao mesmo tempo, é bastante claro que esse engajamento gera influência. E o que a nossa pesquisa aponta é que essa relação ajuda a elite que está no poder [dos outros países]. E isso pode ser bom em alguns casos, mas também pode fortalecer regimes que são corruptos e autoritários, porque [os chineses] não fazem muitas perguntas sobre como o país é governado antes de se engajar em uma relação com ele.

    Qual a estratégia do país especificamente para América Latina e África?

    Benedicte Bull  A China é bastante engajada na África e na América Latina, e isso acontece de diversas formas. Na África eles têm um orçamento bem menor, que não é tão grande em termos de investimento — ele é grande, mas não é o mesmo tipo de empréstimo que eles dão à América Latina. Tem sido muito mais ajuda à África e muito mais empréstimos à América Latina. E o impacto também é diferente.

    Os países africanos sempre foram muito mais dependentes de ajuda externa, e redirecionar suas políticas na direção dos chineses deu a eles mais espaço político. Então eles são mais livres para investir no que eles querem, e não no que os doadores ocidentais querem — ou seja, EUA, União Europeia e o meu próprio país, a Noruega.

    Na América Latina é muito mais empréstimo e comércio. Essas são as duas grandes categorias. E eu diria que isso ajudou a América Latina a ficar mais independente do Banco Mundial e do FMI [Fundo Monetário Internacional]. Mas você vê que há grandes mudanças [de governança] acontecendo agora [na região], e há também diferenças entre os países latino-americanos. Equador e Venezuela ficaram mais com os empréstimos, enquanto o Brasil ficou mais com os investimentos, e essas são duas relações bastantes diferentes que se desenvolveram em cada país, dependendo de que tipo de fluxo financeiro foi direcionado para cada um.

    Manter as elites no poder se dá independentemente da ideologia do governante?

    Benedicte Bull Não é uma meta declarada do governo chinês manter as elites e governos locais no poder, mas isso acontece porque elas conseguem se apegar ao poder por mais tempo. Dois exemplos são a Venezuela e a Nicarágua.

    A Venezuela recebeu em torno de US$ 65 bilhões em empréstimos da China, e agora deve aos chineses cerca de metade disso, porque parte já foi pago. Mas isso contribuiu para a habilidade do governo de Nicolás Maduro se manter no poder por mais tempo do que ele conseguiria de outra forma. Teria sido muito mais difícil para ele continuar no poder se não fosse pela China. A China recentemente começou a ser mais restrita nos empréstimos para a Venezuela, mas agora os russos estão indo ajudá-los.

    O outro exemplo é a Nicarágua, onde não o governo chinês, mas os empresários chineses estão dando concessões para a construção do canal da Nicarágua, que deve competir — de acordo com o plano — com o canal do Panamá. E embora o governo chinês não esteja diretamente relacionado com isso, há uma série de rumores de que ele aprovou e apoiou a ideia nos bastidores. E embora eu tenha muito pouca fé de que algum dia exista um canal, há muitos projetos diferentes de desenvolvimento que estão em construção, como portos por exemplo, e isso beneficiou claramente o governo de Daniel Ortega e de seus aliados próximos.

    Eu acho que o cenário vai mudar bastante na América Latina. O envolvimento chinês tem sido bastante popular em alguns círculos mais à esquerda porque ele tem apoiado projetos de desenvolvimento no Equador e em outros regimes progressistas. Mas agora há muitas mudanças políticas na região, e eu acho que veremos o engajamento chinês contribuindo também com regimes de direita, e então as pessoas vão passar a ver [esse engajamento] de outra forma.

    Em que momentos esse apoio se retrai?

    Benedicte Bull Há rumores que o presidente do Zimbábue se encontrou com militares chineses de alta patente no dia anterior de sua renúncia semana passada [21 de novembro, uma semana depois de ser deposto por um golpe militar]. Mas eu acho que são basicamente rumores.

    Até agora, os chineses têm sido bastante cautelosos com sua influência direta, mas nós vemos que, com relação à Venezuela, houve vários debates internos na China, até onde eu sei, sobre o que fazer com a Venezuela. Porque a China sempre espera que seus empréstimos sejam pagos. Eles não pedem muito mais do que a implementação dos projetos e o pagamento dos empréstimos. E essa foi a primeira vez que eles emprestaram tanto dinheiro a um país em desenvolvimento — nós podemos chamar assim — e há questionamentos se eles serão realmente pagos.

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