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Fotógrafo que registrou nomes como Pixinguinha, Clementina de Jesus e Cartola faz 80 anos e ganha exposição em São Paulo

“Ser brasileiro, viver em um país feliz, tropical, ensolarado e com pessoas soberbamente notáveis”. A frase do fotógrafo carioca Walter Firmo parece destoar do clima do Brasil no presente. Mas olhar suas fotos ajuda a reconhecer o país a que ele se refere: um Brasil solar, da realeza do samba, das cores e festas folclóricas.

Firmo despontou na carreira em 1957 como repórter fotográfico do jornal Última Hora, no Rio de Janeiro. Trabalhou também no Jornal do Brasil e fez parte da primeira equipe da prestigiosa revista Realidade, em 1965. Dois anos antes, havia conquistado o Prêmio Esso de Reportagem. A partir da década de 1970, atuou também na publicidade, principalmente para a indústria fonográfica.

Sua obra fotográfica “deu especial atenção à realidade cultural brasileira e afro-brasileira” e o fotógrafo se tornou “conhecido pelo uso virtuoso da cor, apesar de também ter realizado ensaios em preto e branco”, diz sua biografia no site do Museu Afrobrasil.

 

De 20 de outubro a 18 de novembro, a Galeria Mario Cohen, em São Paulo, apresenta a exposição “Um Passeio Pela Nobreza” com registros de artistas como Cartola, Chico Buarque, Clementina de Jesus, Dona Ivone Lara, Pixinguinha e Moreira da Silva. Na semana de abertura, Firmo falou por telefone ao Nexo sobre sua fotografia, o país, sua forma de representar a população negra e suas lembranças de figuras como Cartola e Paulinho da Viola.

Qual a primeira foto que você se lembra de ter tirado? Quando foi e como ela era?

Walter Firmo Era uma paisagem entre Rio e São Paulo, na [Rodovia Presidente] Dutra. Eu vinha do Rio de Janeiro esperar o meu pai, que era marítimo, o navio dele ia chegar em Santos e eu estava com a minha mãe. E, numa parada do ônibus da Cometa, mais ou menos em Pindamonhangaba, por ali, eu atravessei a estrada divisando uma paisagem, nuvens, um lago, e, enfim, fiz essa foto. É uma foto de que eu me lembro, já de amador, me lançando no rumo da fotografia, queria ser fotógrafo. Eu tinha uns 15 anos, por aí.    

O que foi determinante para formar seu olhar?

Walter Firmo Ser brasileiro, viver potencialmente em um país feliz, tropical, ensolarado e com umas pessoas soberbamente notáveis. 

 

O artista Emanoel Araújo disse que a brasilidade emana das suas fotos. Qual a sua definição de brasilidade, da brasilidade presente no seu trabalho?

Walter Firmo Eu venho de uma origem, não vou dizer humilde, mas de uma origem simples. Minha mãe era empregada doméstica, meu pai era militar. Filho único. Fui muito cuidado por eles na questão da educação, sempre me colocavam em bons colégios, enfim. Mas eu sempre convivi muito com essa questão social. Descobri, na simplicidade das pessoas, que ali reside o caráter. Juntando a isso a leveza, são pessoas que não têm o dinheiro como finalidade.

O que é o caráter?

Walter Firmo O caráter é o nobre que reside numa pessoa. É a questão de ser, categoricamente, uma pessoa leal, que trabalha, na simplicidade, a sua felicidade, e a nível da espiritualidade, não é que se conforme, mas que é feliz com o que tem. 

Sua obra é muito conhecida pelo uso das cores, mas você também fotografa em preto e branco. O que te faz optar por uma ou outra?

Walter Firmo Se eu morasse na Islândia, em um país que não visse o sol, ao contrário do Brasil, que vê o sol todo dia, eu certamente seria um fotógrafo de preto e branco. O que me faz exatamente trabalhar com a cor é porque sou tropicalíssimo, vivencio um país que vê o sol todo dia. Isso é básico.

Gosto do meu preto e branco em dias não ensolarados, dias nublados. É engraçada aquela música daquela gaúcha que diz que o carioca detesta dia nublado [“Cariocas”, de Adriana Calcanhoto]. [risos] Pois é. Eu, quando estou com o preto e branco, gostaria de morar em Paris, sempre nublada, “gris”. Eu acho que eu dividi bem essa questão do preto e branco e da cor. A cor tem esse caráter, está no céu azul, está no sol, numa banda de música, numa coisa lancinante, que grite alto pra todo mundo ver.

 

Em 1977, há 40 anos, você fez a foto “Estado de sítio”, na qual, ainda sob a ditadura militar, policiais aparecem correndo pelas ruas de um bairro da periferia do Rio de Janeiro, com as sombras dos moradores, em sua maioria crianças e jovens, ao fundo. O Rio enfrenta atualmente uma séria crise financeira e de segurança, e os moradores, sobretudo das periferias, convivem com o exército nas ruas. O que daquela imagem permanece no Rio e no Brasil de hoje?

Walter Firmo Não mudou muito não, porque a violência, principalmente no Rio de Janeiro, está sempre, a cada dia, maior. Ainda mais com essa questão hoje do país, com toda essa crise que a gente passa, acho que é uma situação pervertida em que, cada vez mais, essas pessoas que moram em comunidades são açoitadas pela violência. Não mudou muito esse panorama.

É interessante porque você fala de uma linhagem fotográfica jornalística, da verdade. Eu sempre fui muito “amoroso”. E aquela foto sobretudo não passa nenhuma amorosidade. Aquela foto não corresponde à poesia do Walter. Mas eu precisava levar o lanchinho dos meus filhos, e trabalhava com a folha de pagamento, eu tinha que fazer a pauta diária. E na pauta diária de um jornal, você sabe que tudo pode ocorrer. Desde um jogo de futebol, um desfile de modas, uma fala de senadores, a política, tudo. Uma pauta fotográfica é uma cidade ou um Brasil com todos os seus prós e contras.

Então, naquela foto, fui escalado para fotografar uma fuga de presos num fim de tarde em um dia de verão. E, curiosamente, quando nós chegamos lá, os presos já tinham desaparecido, já tinham fugido. Eu fiquei esperando. Tinha aquela gama de pessoas de todas as idades ali, procurando saber o que tinha acontecido e um sol de pôr do sol de verão jogava a sombra, a matéria dos corpos dessas pessoas numa sombra contra uma parede. Então era a questão da estética, que sempre dominou o meu trabalho. E aquela foto, embora se conclua que é um ato de violência, os guardas correndo, tem uma estética na foto.

A impressão que me deu é que você não gosta dessa foto, não acha que ela é representativa do seu trabalho. É o caso?

Walter Firmo Não, ela é representativa do meu trabalho sim, mas no jornalismo. Não vou cuspir no prato que comi. Mas é que o ato fotográfico em si que transpõe um jornalismo digno não é a poesia, você sabe disso. É, em si, o fato. E eu sempre me alienei ao fato, porque quando eu comecei a trabalhar no jornal como fotógrafo, eu queria na verdade transformar essa questão, colocar estética na notícia. Ponto de vista, paralelas, diagonais. Então tudo isso fazia parte do meu receituário e eu queria transformar, e consegui. [risos]

Pesquisadores observaram que boa parte das representações da população negra pela fotografia brasileira, mesmo depois da abolição, ficam entre o mundo do trabalho e o exotismo. Seu trabalho foge dessa chave. Que representação você buscou construir?

Walter Firmo A minha representação da questão do negro é [a representação de] uma sociedade que existe, não é uma sociedade invisível. E, posto assim, eu sou um delegado em representá-los na questão da sua cidadania — são pessoas de bem, são tótens do caráter, fazem parte de uma sociedade pra lá de visível, construíram esse país e merecem respeito.

Isso seja no folclore das festas que eles compõem, nas festas folclóricas e religiosas, no samba, Pixinguinha, Cartola, Ismael Silva, Clementina de Jesus, Paulinho da Viola, Candeia e tantos outros que eu esqueço agora, todos esses foram transformadores, são a elevação musical de um país como o Brasil. E foram fotografados por mim exatamente nisso, que eu mostro [na exposição] aqui na galeria Mario Cohen, na questão da nobreza dessas pessoas.

 

Há alguma história marcante das vezes em que você fotografou esse pessoal todo da música popular?

Walter Firmo Tem muitas histórias. Do Paulinho da Viola por exemplo, uma vez fui fotografá-lo na casa dele, somos amigos. Foi na época em que ele era só Paulinho, não tinha o “viola”. Conheci ele no bar Zicartola [bar de Cartola e sua esposa Dona Zica, onde havia também shows musicais]. Eu trabalhava no Jornal do Brasil, a 400 metros do Zicartola, e todo dia à noite ia pra lá. Cheguei na casa dele, na Barra da Tijuca, há uns trinta anos, pra fotografá-lo. E aí, quem abre o portão da garagem, com uma boina e um negócio assim que parecia um carregador de piano, era o Paulinho da Viola, que tem como hobby a marcenaria. Ele vestido daquela maneira, não o reconheci. Ele disse “Seu Walter, sou eu, entra, entra”. 

Tem outra do Cartola. Eu fui visitá-lo numa casa, ele tinha saído da Mangueira e ido morar em Jacarepaguá com a Dona Zica. E aí quando eu chego lá, com o Sérgio Cabral pai, o jornalista, o Cabral ficou conversando com a Dona Zica e eu fui assim tangido pelo Cartola, ele disse “Waltinho, Waltinho, desce aqui comigo, quero te mostrar uma coisa que eu comprei pra mim”. Na garagem tinha uma coisa coberta assim por um pano. Aí ele chegou lá, como se estivesse batizando um navio com uma garrafa de champagne, tirou aquele negócio e era um fusquinha novinho, todo amarelo. Ele parecia um menino falando “Aí, Waltinho, o que eu comprei pra mim. Me dei de presente”.   

Tem outras histórias que eu poderia enumerar a você mas que agora não me lembro. Que eu me lembro bem mesmo são dessas duas.

 

Fotografar o Brasil de 2017 é muito diferente de registrar o Brasil de 1957, ano em que você estreou?

Walter Firmo Há a questão da violência. Eu hoje na minha cidade querida, o Rio de Janeiro, tão bonito, não saio mais com as minhas Nikons à mostra porque fico com medo de ser assaltado. Levo uma apenas, dentro da minha mochila, nas costas, e mesmo assim vou sempre olhando se tem alguém me seguindo. Chegamos a essa consequência desastrosa. Poxa vida, é um país tão bonito. Nós fotógrafos temos que trabalhar com a máquina, não com telefone celular. Porque ali numa câmera fotográfica realmente está toda a técnica. Abrir o diafragma, trabalhar com a velocidade, enfim. 

Você não considera trabalhar com o celular?

Walter Firmo Considero, sim, e tenho fotografado muito. Mas se você for trabalhar tecnicamente uma fotografia, é muito mais viável e poderoso estar com uma câmera do que com um telefone. Porque na câmera eu posso botar uma [lente] grande angular, uma teleobjetiva. No telefone não, já começa por aí. E há uma outra questão também, no meu telefone pelo menos, entre eu apertar, fazer o clique, e a foto se fazer demora seguramente de um a dois segundos. Aí eu perco o que está ocorrendo e que eu quero flagrar, de uma forma determinada, naquele milésimo de segundo, naquele momento.

 

E no aspecto dos seus temas? Você fotografou muito festas populares, coisas assim. Ainda é possível fazer esse tipo de registro ou essas coisas estão sumindo?

Walter Firmo Tudo muda. Enquanto sobrevierem as outras modernidades que virão, sempre haverá mudança. A própria Terra, a cada milhares de anos se transforma, e bilhões de anos depois surge alguma outra coisa. Então tudo se transforma. Nesse aspecto das populações, elas deixam seus enredos, usam calça jeans.

O que eu estou traduzindo hoje, nos meus anos de sobrevivência na Terra, certamente daqui a 50 anos será diferente. Outro fotógrafo vai traduzir aquela realidade, daquela modernidade, de forma diferente, porque as coisas serão mudadas.

 

Fotos de Walter Firmo

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