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Socializar o trabalho doméstico e emancipar: o plano da revolução russa para as mulheres

Em entrevista ao ‘Nexo’, historiadora Wendy Goldman revisa o último século à luz dos avanços e fracassos do projeto socialista

    A revolução ocorrida na Rússia nas primeiras décadas do século 20 configura, para a americana Wendy Goldman, um daqueles raros momentos da história em que tudo parece possível.

    Esse pensamento foi o que abriu a conferência da pesquisadora na terça-feira (26), em São Paulo, apresentada no seminário internacional “1917: o ano que abalou o mundo”. O evento foi organizado pela editora Boitempo e o Sesc Pinheiros, em comemoração ao centenário da revolução bolchevique.

    Goldman é especialista em Rússia e União Soviética. Leciona atualmente na Universidade Carnegie Mellon, na cidade de Pittsburgh, nos EUA. É autora de alguns livros sobre o terror stalinista, não traduzidos para o português, e de “Mulher, Estado e Revolução: Política da família Soviética e da vida social entre 1917 e 1936”, no qual aborda especificamente a tentativa de supressão da desigualdade entre mulheres e homens ao longo das primeiras duas décadas após a revolução bolchevique de 1917.

    A historiadora falou ao Nexo pessoalmente, antes de apresentar sua conferência, sobre as gigantes transformações ocorridas na Rússia no último século, a razão pela qual o projeto de emancipação das mulheres no país não se concretizou e o que feministas de 2017 podem aproveitar do programa revolucionário de 1917.

    O que aconteceu na Rússia entre 1917 e 2017?

    Wendy Goldman Houve mudanças enormes, claro. Em 1917, quando os bolcheviques e os sovietes chegaram ao poder, o país nunca havia tido um sistema democrático de nenhum tipo. Na verdade, não havia sufrágio universal, não havia maneira de que a grande maioria das pessoas, trabalhadores e camponeses, pudessem participar do Estado. E o Estado, gerido pelo czar, sequer tinha influência sobre a legislação. A Duma [assembleia legislativa do Império Russo], que havia sido criada mais cedo, após a revolução de 1905, podia ser dissolvida pelo czar a qualquer momento.

    O país era predominantemente camponês e analfabeto, as pessoas careciam de educação, de assistência médica, de muitas das coisas mais básicas da vida moderna.

    No período entre 1917 e o início da Segunda Guerra Mundial (1939-45), sob o governo soviético, um enorme conjunto de mudanças ocorreu. Primeiramente, os soviéticos incorporaram um vasto número de pessoas no processo político. Instituíram leis de igualdade para as mulheres, tornaram o casamento um assunto da legislação civil, introduziram o divórcio, a educação universal, um serviço de saúde gratuito e também industrializaram o país.

    a União Soviética perdeu 26 milhões de pessoas na Segunda Guerra Mundial

    Nos anos 1930, adotaram a planificação e começa-se a ver a grande modernização e industrialização do país. Milhões de camponeses foram para as cidades e se tornaram operários; operários se tornaram supervisores; supervisores se tornaram diretores. Foi um período de enorme mobilidade ascendente. O desemprego foi completamente erradicado em 1930. Foi uma coisa notável. Acho que provavelmente não houve nenhum outro país no mundo no qual não haja desemprego. E isso aconteceu. As pessoas tinham o direito a ter um trabalho previsto pela Constituição.

    A União Soviética perdeu 26 milhões de pessoas lutando contra o fascismo. Sofreu perdas tremendas na Segunda Guerra Mundial. E depois, quando a guerra havia terminado, veio a Guerra Fria, os EUA se tornaram extremamente agressivos em termos de pressionar constantemente a URSS a defender os ganhos que havia obtido. O resultado foi que, mais uma vez, o país teve que reconstruir tudo.

    Todas essas perdas tornaram muito difícil que o socialismo sobrevivesse da maneira que os revolucionários haviam sonhado a princípio. Stalin foi extremamente repressor, o Grande Terror dos anos 1930 foi um fenômeno terrível. Após a Segunda Guerra Mundial, houve um novo surto de expurgos e repressão.

    Após a morte de Stalin houve alguma liberalização, mas eu diria que o país ainda estava lutando de muitas formas para tornar realidade a ideia de socialismo democrático. Depois, nos anos 1990, Gorbachev tentou novamente reviver esse sonho, mas no lugar disso acabou por engendrar um processo por meio do qual o sistema veio a se desintegrar. 

    em cem anos, assistimos à tentativa de criar um certo tipo de sistema, à mudança desse experimento, sob Stalin e a um sistema híbrido emergir e desmoronar

    Nesse momento, vemos uma espécie de capitalismo oligárquico na Rússia. Muitas das piores facetas da exploração econômica foram trazidas de volta. Grandes áreas do país, sobretudo industriais, foram empurradas para uma enorme pobreza. E, ao mesmo tempo em que há esse capitalismo exploratório, a democracia não foi trazida com ele.

    A promessa de Gorbachev de uma democracia socialista falhou. Em um certo sentido, nesse período de 1917 a 2017, nesses cem anos, assistimos à tentativa de criar um certo tipo de sistema, de realizar algumas ideias, e também assistimos à mudança desse experimento, sob Stalin, para algo que acho que não seria reconhecível pelos revolucionários do início.

    Assistimos a um sistema meio híbrido emergir e desmoronar. As mudanças foram inacreditáveis. E acho que para os russos, a velocidade dessas mudanças foi algo que marcou profundamente a vida de todas as pessoas.

    Como a revolução bolchevique abordou a desigualdade de gênero?

    Wendy Goldman A primeira coisa que fizeram foi o Código da Família de 1918. Aboliram toda desigualdade entre homens e mulheres. Do ponto de vista da lei, a igualdade estava decretada. Mas você pode decretar a igualdade na lei e não significar nada. Outras coisas precisam mudar também. E eles realmente tentaram muito instituir mudanças importantes que criariam relações mais livres e independentes no âmbito da família. Acreditavam fortemente que as mulheres precisavam ser economicamente independentes dos homens e que precisavam adentrar a esfera pública.

    Elas precisavam ser plenamente educadas, capazes de assumir todos os tipos de empregos e profissões. Esforçaram-se para que mulheres da classe trabalhadora tivessem empregos que eram mais bem pagos e que até então só aceitavam homens. Também lançaram um programa para tentar criar refeitórios públicos, creches, lavanderias, por acreditarem que o trabalho doméstico, feito de graça pelas mulheres, deveria ser socializado e realizado na esfera social por trabalhadores, mediante um bom salário. Eles tinham todo um programa para as mulheres. Foram o primeiríssimo país do mundo a legalizar o aborto, a torná-lo gratuito, legal e seguro. Isso foi revogado no regime de Stalin em 1936, durou pouco.  

    Você escreveu que seu livro “Mulher, Estado e Revolução” é um livro sobre “a difícil relação entre vida cotidiana e belos ideais”.  No que diz respeito à desigualdade de gênero, por que essa relação foi e é tão complicada, tanto na Rússia soviética quanto no mundo contemporâneo?

    Wendy Goldman Essa relação é complicada em toda parte. Vou te dar um exemplo. Na década de 1920, as taxas de desemprego eram muito altas. Se as mulheres não têm acesso a um salário independente, facilitar o divórcio e a ruptura de relacionamentos [amorosos] não as ajuda. Na verdade, pode criar condições muito difíceis.

    O que aconteceu no início do período revolucionário foi que muitos homens se aproveitaram da nova lei do divórcio, que o tornava [um processo] muito simples, para se casarem e divorciarem de mulheres várias vezes. E aí deixavam cada uma delas com um bebê ou talvez com mais de um filho. As mulheres eram deixadas sozinhas para cuidar das crianças em um período em que não conseguiam encontrar um emprego. Aqui você vê uma lei que tenta emancipar as pessoas, mas sem as condições materiais, no caso, o trabalho, que permitiriam a elas se emanciparem genuinamente.

    Vou te dar outro exemplo. Não é possível haver amor livre sem contracepção. Porque se o sexo resulta na mulher ficando grávida, no nascimento de uma criança ou na realização de um aborto, não há nada de livre nisso. A única liberdade existente, nesse caso, é para os homens.

    Você pode ter relações sexuais livres se você tem [acesso a] uma contracepção excelente; a capacidade de sustentar filhos, caso a mulher decida tê-los; o auxílio do Estado, em termos de creches e outros serviços, para que a mulher possa trabalhar; e a responsabilização dos homens por seus filhos. Se você tiver todas essas coisas, pode ter relações sexuais mais livres. Sem elas, é muito difícil para as mulheres.

    Você teve sua experiência pessoal com o amor livre enquanto era ativista nos anos 1970, e se deu conta de algo que feministas hoje também discutem: ele pode se tornar uma retórica para homens que não querem assumir responsabilidades por seus atos. Como era a liberdade sexual das mulheres, homens e outros grupos após a Revolução Russa?

    Wendy Goldman As mulheres tiveram que enfrentar muitos problemas como consequência da liberdade sexual. Hoje, temos acesso à contracepção, em alguns países, mulheres têm acesso ao aborto legal e ainda assim, o sexo tem consequências emocionais e também pode ter a consequência de um filho. Há cem anos, essas consequências eram ainda mais difíceis, acho, para as mulheres.

    Os jovens na época estavam muito interessados em como construir novos relacionamentos. Em se libertarem de formas antigas, como o casamento, que lhes pareciam muito limitantes. Como formar novas pessoas, que tivessem novas maneiras de tratar as outras. Mas essa é também uma questão de psicologia e de atitudes. É muito, muito difícil, mesmo se as condições legais existem, se a contracepção existe, e se as mulheres têm acesso a um salário independente. Ainda há questões psicológicas e emocionais que não se resolvem facilmente.

    Por que você diria que o experimento soviético de amor livre e emancipação das mulheres falhou?

    Wendy Goldman Eu acho que deu errado por duas razões. Uma foi que o país era extremamente pobre depois da revolução e precisava colocar a maior parte de seus recursos e capital em tentar reconstruir a indústria, que havia sido arruinada pela Primeira Guerra Mundial e a guerra civil. Não havia muitos recursos para investir em serviços sociais. Não há como socializar o trabalho doméstico sem um enorme investimento por parte do Estado. Esse foi um grande problema.

    O segundo foi que, do ponto de vista ideológico, no momento exato em que as mulheres passaram a compor um grande número da força de trabalho, quando [o Estado] se livrou do desemprego, lançou o primeiro plano quinquenal, Stalin chegou ao poder. E foi uma reviravolta ideológica. O governo criou, de fato, creches, refeitórios, muitos complexos como este aqui [referindo-se ao SESC], com piscinas, academia para os trabalhadores. Eram espaços maravilhosos e as pessoas se beneficiaram deles.

    Mas as mulheres assumiram uma dupla jornada. Trabalhavam e cuidavam da família. O Estado não estava disposto a instigar aquela visão revolucionária do começo, queriam que a família fosse uma influência estabilizadora. Queriam ver papéis muito tradicionais, no sentido de que as mulheres fossem as principais responsáveis pela casa e pelas crianças.

    As creches, refeitórios e outros serviços estatais não ajudaram a aliviar o fardo do trabalho doméstico?

    Wendy Goldman Ajudaram, e acho que houve muitas coisas positivas. Mas acho que eles teriam que ter ido mais longe, fazendo uma revolução de atitudes para mudar as relações dentro de casa e, também, os papéis de gênero. E isto [esses serviços] não fizeram.

    O que as feministas de hoje têm a aprender com o movimento das mulheres soviéticas?

    Wendy Goldman A Revolução Russa tinha um programa muito radical. Acho que seria interessante que todas as feministas hoje estudassem esse programa e pensassem: há algo nele que ainda faria sentido para nós hoje, que ajudaria a emancipar as mulheres? E, também, o que significaria ir além [desse programa]? Há muitas coisas hoje que tomamos como naturais, que aceitamos, em termos de papéis de gênero, com as quais as mulheres podiam apenas sonhar cem anos atrás. Temos oportunidades hoje que as mulheres naquele tempo [elas] não tinham.

    Eu ainda acho que há partes daquele programa que significam muito. Se pegarmos a questão do trabalho doméstico hoje, mulheres deixam suas próprias famílias, cruzam fronteiras, frequentemente viajam milhares de milhas, para trabalhar em países mais desenvolvidos como empregadas, camareiras, cuidadoras de idosos.

    Eu estive há pouco em Moscou. As mulheres que limpam o hotel não são russas, são do Curdistão. Essas mulheres deixaram os próprios filhos a centenas, milhares de milhas delas. Então, será que o programa de socialização do trabalho doméstico ainda diz algo às mulheres que não conseguem ver seus próprios bebês, crianças pequenas, durante anos, porque têm que enviar dinheiro para casa, será que ainda faz sentido para nós hoje? Claro que sim. O problema agora é global.

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