Como a América Latina pode superar a inflação, segundo este economista do MIT

Alberto Cavallo ajudou a elaborar uma pesquisa de preços on-line e criou portal que mede as variações na Argentina e Venezuela

    Para calcular a inflação ao consumidor, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) pesquisa, todo mês, o preço de mais de 500 produtos em onze capitais do Brasil. Quase manualmente, com visitas a mercados e preenchimentos de longas tabelas.

    Do preço do inhame ao das telhas, passando pela fotocópia, excursão e conserto de máquina de lavar, tudo entra no índice oficial de inflação do país. A complexidade do processo faz com que a divulgação do índice aconteça apenas duas vezes por mês. É assim que geralmente são construídos os índices de preços nas maiores economias do mundo.

    Com o crescimento do varejo on-line, pesquisadores do MIT Sloan School of Management (escola de negócios do Instituto de Tecnologia de Massachusetts) viram a oportunidade de calcular, de maneira rápida, a inflação desses produtos usando “bilhões de preços”. Assim foi criado o “Billion Prices Project”, que tem como um de seus fundadores o economista argentino Alberto Cavallo.

    Cavallo é especialista em inflação e pesquisa, no MIT, o processo de aumento de preços na América Latina. Para apontar erros e fraudes nos índices de inflação da Argentina e da Venezuela pelos órgãos kirchneristas e chavistas, ajudou na criação do Inflacion Verdadera.

    O professor é filho do ex-ministro da economia da Argentina Domingo Cavallo, responsável por dois dos mais importantes planos econômicos do país na década de 1990. Primeiro, a lei da conversibilidade, em 1991, acabou com a inflação ao equiparar o peso ao dólar. Em 1999, foi o responsável pela implantação do chamado “corralito”, que limitava os saques nos bancos para evitar que ocorresse uma corrida pelo dólar. A medida causou protestos que culminaram na renúncia do presidente Fernando De La Rua.

    Alberto é economista pela Universidade de San Andrés, na Argentina, tem MBA pelo próprio MIT e doutorado em Harvard. Além dos projetos acadêmicos, é sócio de uma empresa que coleta dados on-line para medição de inflação, a PriceStats.

    Ao Nexo, por e-mail, ele falou sobre a importância do controle das expectativas no combate à inflação e por que acredita que o aumento de juros não é sempre o remédio adequado. Crítico da política econômica de Néstor e Cristina Kirchner, ele apontou o que considera erros também na gestão do atual presidente argentino, Maurício Macri, e deu sua opinião sobre as políticas de bloqueio de saques usadas na América Latina no passado.

    Qual o ganho e as limitações de um cálculo de inflação em tempo real, com base em preços na internet?

    Alberto Cavallo A principal vantagem é a capacidade de antecipar mudanças de tendências de inflação, que são extremamente importantes para os formuladores de políticas e banco centrais.

    Por exemplo: nosso índice de inflação nos Estados Unidos mostrou uma grande queda de preços depois que o Lehman Brothers faliu, em setembro de 2008. Isso era, obviamente, um grande choque na economia dos Estados Unidos e os grandes varejistas reagiram imediatamente baixando seus preços. Demorou mais de dois meses para que a nova tendência aparecesse nas estatísticas oficiais. Esse episódio motivou um artigo discutindo as vantagens de preços on-line.

    Esse tipo de monitoramento vai substituir os levantamentos tradicionais?

    Alberto Cavallo Eu vejo mais como um complemento. Eventualmente irá substituir o método atual de coleta de dados em algumas categorias, como eletrônicos, vestuário, bebidas, combustíveis e todo tipo de produto que tem preços mostrados on-line. Mas há muitos preços de serviços que ainda não estão na internet, e provavelmente vão continuar não estando ainda por muitos anos. Então, por enquanto, a coleta de dados on-line continua como um complemento aos métodos tradicionais.

    No Brasil, uma empresa privada PriceStats publica um índice diário de inflação usando preços on-line. Esse índice tende a se mover de maneira parecida com a inflação oficial no país, com a vantagem de mostrar tendências de inflação antes de elas aparecerem nos dados oficiais. Desde janeiro de 2016 a tendência geral era de desaceleração da inflação, o que apareceu com um ligeiro atraso no índice oficial.

    O quanto a inflação é culpada pelo baixo desenvolvimento das economias dos países da América Latina?

    Alberto Cavallo Inflação é um dos piores problemas que temos na América Latina. Ela aumenta a pobreza, distorce preços e é muito difícil de ser controlada quando atinge certos níveis. Mas inflação é também só um sintoma de uma má política econômica. Na América Latina, em particular, políticas populistas tendem a criar déficits fiscais que eventualmente são sustentados com impressão de dinheiro e desvalorização da moeda.

    O aumento de preços será sempre um problema a ser combatido com juros altos?

    Alberto Cavallo O canal da taxa de juros é importante em países com inflação relativamente baixa. Mas em muitos países da América Latina, onde há inflação alta e inercial, é mais importante controlar a expectativa de inflação. As expectativas são chave nas decisões de preços de empresas e trabalhadores nas negociações de salários.

    Economistas sabem muito pouco sobre como as expectativas são formadas, mas sabemos que as percepções sobre a inflação passada influenciam muito nossa visão sobre o futuro. Isso é o que faz a inflação tão inercial e tão difícil de ser reduzida. Governos com inflação alta precisam convencer as pessoas de que a inflação vai cair.

    Até onde é possível subir juros?

    Alberto Cavallo Há limites para aumentar taxas de juros e causar recessão. Principalmente se as pessoas não acreditam que essa política vai durar, que a recessão vai ser politicamente insustentável. Para realmente diminuir as expectativas de inflação, os governos têm que apresentar planos compreensíveis, com reformas estruturais que deixem claro que as coisas mudaram.

    Por exemplo: a Argentina passou por uma série de planos de estabilização “ortodoxos” nos anos 1970 e 1980. E todos falharam porque o governo fez pouco para convencer as pessoas de que a estrutura da economia havia mudado.

    O plano de conversibilidade, em 1991, era completamente diferente. Tinha uma série de reformas estruturais combinada com o currency board (agência de conversão de moedas que equiparava o peso ao dólar e só emitia moeda argentina na medida em que entravam dólares). Ficou claro para todos que as coisas eram diferentes e a inflação caiu, ficou perto de zero por uma década.

    A Argentina permanece com inflação alta mesmo com juros altos.

    Alberto Cavallo O Banco Central está fazendo um bom trabalho, mas não importa quanto tempo eles mantenham os juros perto dos 20%, a inflação permanece em torno de 22% ao ano.

    O problema é que não há clareza ou uma mensagem convincente do governo sobre como o plano de controle de despesas realmente é. Para piorar, o presidente escolheu não ter um ministro de finanças, mas um grupo de conselheiros, que cuidam cada um de uma parte da economia, sem um plano simples e claro. Isso cria incerteza e a inflação não cai.

    Como o senhor avalia as políticas de combate à inflação baseadas em confisco de poupança no Brasil e na Argentina em décadas passadas?

    Alberto Cavallo Os confiscos, como o da Argentina em 2002, não tinham a intenção de combater a inflação. O governo Duhalde [Eduardo Duhalde substituiu Fernando De La Rua, que renunciou em dezembro de 2001 após o fracasso do “corralito”] congelou depósitos ,“pesificou” as operações (converteu em pesos) para favorecer empresas e pessoas que tinham grandes dívidas.

    Direitos de propriedade foram destruídos e a economia entrou em colapso. Eventos como esse não apenas causam uma dor no curto prazo, mas também criam incentivos errados para o futuro. Não é surpresa que poucas pessoas na Argentina confiem no sistema bancário e na moeda local. Eles “correm” para o dólar toda vez que há alguma incerteza sobre o futuro.

    Se os países da América Latina querem realmente seguir em frente, temos que aprender com os erros do passado e criar regras com credibilidade para que as pessoas que fazem planos de longo prazo confiem. As novas “regras do jogo” requerem reformas estruturais e uma mensagem clara e uma comunicação por parte do governo. Em particular no caso da inflação, esse é o único jeito de convencer as pessoas a reduzir suas expectativas de inflação no longo prazo.

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