Ir direto ao conteúdo

'É hora de o norte parar de achar que o mundo deve ser refeito à sua imagem'

Nesta entrevista ao 'Nexo, o americano Tom Angotti, professor de planejamento urbano da City University of New York, fala sobre o processo de transformação das metrópoles

     

    Talvez por estarem entre as maiores metrópoles do continente, ou pelo fato de que o sul se mira com frequência nos modelos de desenvolvimento do hemisfério norte, comparações entre São Paulo e Nova York não são incomuns.

    foi dito, inclusive, que a São Paulo de hoje é a Nova York do passado: tanto no que diz respeito a seus problemas – a onipresença do carro, o embate entre as forças do Estado e usuários de drogas concentrados em uma área da cidade, o crime, entre outros –, quanto no que toca suas potencialidades e caminhos apontados como solução.

    Há, ainda, uma aproximação mais direta: o atual prefeito da capital paulista, João Doria (PSDB), se declara um admirador de Michael Bloomberg, empresário bilionário que governou Nova York durante três mandatos consecutivos, entre 2002 e 2013.

    À exemplo do americano, Doria também abriu mão do salário do cargo e investe fortemente no marketing de sua gestão. 

    O Nexo entrevistou o pesquisador americano Tom Angotti, professor emérito de planejamento urbano da City University of New York, de passagem por São Paulo para o lançamento do livro “Mitos e Transformações na Metrópole”. Trata-se de sua primeira coletânea de textos publicada, embora o autor já tenha vários outros livros publicados.

    Abaixo, Angotti esclarece aproximações possíveis entre as realidades das duas cidades, frisando a desconstrução do mito de eficiência da metrópole americana, sua imagem reluzente vendida e comprada como modelo de desenvolvimento. Responde também sobre o que é, na sua concepção, o planejamento urbano, sobre o futuro das cidades, e como a América Latina se posiciona nesse cenário.

    De acordo com a ONU, 75% da população viverá em cidades até 2050. O que essa informação te diz?

    Tom Angotti Certamente, mais da metade da população mundial vive hoje em cidades, e em cidades grandes. A tendência é inequívoca. O mais preocupante é o fato de que não há questionamento sério em torno dessa tendência, sobre o que ela significa para o meio ambiente, para a saúde pública, para a sustentabilidade do planeta, especialmente levando em consideração os riscos do aquecimento global. Ele nos força a questionar o que pode ser feito por entidades públicas, governos, as Nações Unidas, as organizações internacionais para garantir que o processo de urbanização não exacerbe os perigos da mudança climática, que é o que tem acontecido até agora.

    Não podemos desconectar a maneira como o mundo se urbanizou do aumento das temperaturas globais. O uso do automóvel privado como principal meio de transporte nas cidades, de combustíveis fósseis para gerar energia para o transporte, para a agricultura, a promoção de agricultura industrial e a destruição de práticas mais sustentáveis, locais e orgânicas. Todas essas são coisas que, se deixadas à própria sorte, apenas irão piorar os efeitos da mudança climática.

    Quais as suas definições para zoneamento e planejamento urbano? O que cada um deve fazer?

    Tom Angotti Para dar um contexto histórico, o planejamento urbano moderno começou há mais de cem anos, na Europa, como uma mistura de arquitetura, engenharia e design, focada em planejar o aspecto físico da cidade. Essa tem sido a herança e a tradição do planejamento.

    O problema foi que, no geral, ele foi dominado pela especulação do mercado de terras. A propriedade privada da terra determina como uma cidade se desenvolve, e não os planejadores.

    Isso não quer dizer que os planejadores são quem deve se encarregar [sozinhos] do planejamento, que deve ser um processo aberto, público e democrático, que inclua muitas pessoas e vozes e seja igualitário e justo. Mas o conceito de se ter uma visão de longo prazo do futuro das cidades, de nos perguntarmos qual o tipo de cidade queremos como pergunta fundamental a ser feita pelo planejamento, se perdeu no mercado de terras, que decide como ela é subdividida, usada e tratada pelos governos locais.

    'As estruturas políticas não estão preparadas para planejar cidades a longo prazo'

    O zoneamento é uma ferramenta específica de planejamento, uma ferramenta regulatória que determina o tamanho e a forma das edificações, os usos – comercial, residencial, industrial – permitidos em diferentes partes da cidade. Mas é uma ferramenta muito limitada.

    Em Nova York, o zoneamento substituiu o planejamento. É a única cidade do mundo desse tamanho que nunca teve um plano abrangente. Isso é um indicativo do quanto Nova York está ligada ao capitalismo de livre mercado. O Estado está participando desse processo em uma posição de relativa passividade e sequer tenta desenvolver uma visão de longo prazo do futuro. 

    Dito isso, muitas das visões de longo prazo que planejadores desenvolveram ao longo do último século não foram seguidas e são largamente imperfeitas. E, agora que as cidades se tornaram regiões metropolitanas com milhões de pessoas, um único plano abrangente não é suficiente. Mas, de novo, é importante ter uma estratégia, visão e pensar a longo prazo. As estruturas políticas não estão preparadas para fazer isso. É por isso que temos caos, cidades insalubres, trânsito demais e má gestão.

    Como você vê a conexão entre o passado colonial e o planejamento urbano na América Latina?

    Tom Angotti Em todas as Américas, a abordagem com relação à terra foi alimentada por uma política e ideologia coloniais. Isto é, que a terra está lá para ser tomada, usada, ter seus recursos naturais explorados e que, qualquer um que esteja no caminho dessa exploração deve ser eliminado violentamente. Então tem muito a ver com essa mentalidade que vem com o assentamento colonial na América do Norte, Central e do Sul. Em toda parte, foi a mesma ideologia.

    Nos Estados Unidos, é dez vezes pior porque o território é tão imenso que se criou essa noção de que o desenvolvimento é ilimitado, que não há limites para a fronteira, e isso explica também porque os EUA são o poder mais agressivo do mundo militarmente. Tem muito a ver com a mentalidade de fronteira, de que você toma a terra a qualquer custo, a utiliza em sua capacidade máxima, independentemente das consequências de longo prazo para a terra e para as pessoas vivendo nela. 

    Como os modelos vindos da América do Norte e da Europa influenciam o planejamento urbano na América Latina? Isso é bom ou ruim?

    Tom Angotti O planejamento urbano moderno não surgiu em nações modernas, democráticas e industrializadas. Surgiu, primeiro, das ideias grandiosas da realeza francesa, que queria embelezar as cidades, criar o ambiente ideal para a realeza viver. Abordagens mais democráticas se desenvolveram depois, menos grandiosas. Muitas das quais eram baseadas em noções holísticas da cidade, como as cidades-jardim na Inglaterra.

    As ideias originais se perderam, mas são exploradas apesar de não terem funcionado muito bem. Elas produziram cidades disfuncionais, foram pensadas para cidades muito menores, não funcionam em regiões metropolitanas amplas, onde, cada vez mais, a maioria da população mundial está vivendo.

    Na América Latina, a maioria da população vive em cidades, cidades grandes, a maioria vive em regiões metropolitanas. A profissão de planejador ainda é permeada por essas noções do planejamento urbano europeu de um século atrás: de embelezar a cidade, criar cidades que sejam utopias locais.

    'Há essa mentalidade de que o terceiro mundo é um poço de pobreza esperando ser salvo pelo desenvolvimento urbano moderno vindo do norte'

    Elas não funcionam. O que elas fazem é ajudar a estabelecer e reforçar o desenvolvimento de enclaves para os pobres e para os ricos. O dos ricos está à parte do resto da cidade, são condomínios fechados, altamente protegidos. Eles são a utopia dos ricos, estão em todo lugar e, quando se olha para a arquitetura, são fortemente influenciados por ideias europeias e norte-americanas. E claro, vemos em São Paulo os shoppings, os edifícios altos e empreendimentos luxuosos que não são particularmente inovadores, só respondem à lógica da segregação social e racial que foi profundamente implantada na América do Norte.

    Você poderia falar um pouco da sua análise do livro do pesquisador Mike Davis, ‘Planeta Favela’ [de 2004]?

    Tom Angotti No geral, Mike Davis fez um ótimo trabalho divulgando os problemas do desenvolvimento urbano no capitalismo nos Estados Unidos e no mundo. Acho que ele foi infeliz quando passou a falar da urbanização global. Primeiro de tudo, discordei do uso da palavra “favela”. Talvez isso não valha para todos os países, mas nos EUA, a palavra favela evoca uma imagem negativa de comunidades negras, latinas e pobres. É um termo depreciativo. Fiquei um pouco surpreso que ele o tenha colocado no título de seu artigo e depois do livro.

    Há muitas outras designações para o que as pessoas chamam de favelas. Elas são comunidades, são bairros, muitas delas se desenvolveram ao longo de décadas e até séculos em comunidades bastante consolidadas, com vida social e política intensas, mas para quem está fora, e em particular para os americanos e europeus, são favelas. E há essa mentalidade de que o terceiro mundo é esse poço gigante de pobreza, à espera de que o desenvolvimento urbano moderno venha do norte para ser salvo.

    Não queremos gerar esse tipo de discurso outra vez, e é de se imaginar que Mike Davis também não iria querer isso. Mas, no livro, ele reforça todas as imagens negativas de comunidades pobres ao redor do mundo, enfatizando o emprego informal e habitação informal como elementos negativos. Na verdade, o que muitos de nós tentaram fazer ao longo dos anos – incluindo planejadores, mas, provavelmente, a minoria de nós –, é dizer “essas são comunidades vibrantes”. A maior parte da moradia no mundo é autoconstruída. Não é construída por arquitetos e planejadores no estilo moderno, mas se desenvolvem espontaneamente. Não se trata de idealizar a pobreza ou de dizer que estas são condições ideais de vida, mas estas são comunidades e têm um valor tremendo para as pessoas que moram e trabalham nelas.

    Já é hora das pessoas do norte pararem de olhar para baixo e dizer “o mundo inteiro tem que ser refeito à nossa imagem”. É dessa forma que planejadores têm sido mal treinados na América Latina, na Ásia e na África: na visão do século 20 de reproduzir a cidade rica como solução para a cidade pobre ou para as favelas. Isso não funcionou, mas essa ideologia tem reforçado o sistema que não funciona.

    O que os governos e as organizações precisam fazer é seguir as pessoas que estão auto-organizadas nos bairros, nas assim chamadas favelas. Parar de chamá-las de favelas e chamá-las de comunidades e encontrar maneiras de encorajar o desenvolvimento que vai ao encontro de suas necessidades, em vez de apagá-las do mapa e criar a nova cidade moderna à imagem do norte esclarecido.

    Em 2014, São Paulo aprovou uma ferramenta regulatória semelhante ao Ulurp [sigla para Procedimento Uniforme de Revisão do Uso da Terra] de Nova York. Você poderia explicar qual o propósito desse tipo de ferramenta e qual a avaliação feita por você da eficácia dela?     

    Tom Angotti O Ulurp foi criado em 1975 e é importante entender por que foi criado: por causa do movimento pelos direitos civis e dos movimentos de bairro dos anos 1960, que fizeram protestos entusiasmados contra as políticas de uso da terra do governo, exigindo que as comunidades tivessem voz sobre o futuro de seus bairros.

    Naquela época, a cidade tinha menos de 8 milhões de habitantes e havia cinco corpos de decisão, um em cada um dos boroughs que compõem a cidade, e um prefeito muito forte. Era altamente centralizado, as agências centrais tinham muito poder e resistiam à mudança vinda da base, de muitos bairros, tanto de classe média quanto pobres, negros e brancos. Isto levou à criação do Ulurp.

    No processo, entretanto, foram estabelecidos limites para o envolvimento das comunidades no processo. O problema do Ulurp hoje é que os conselhos comunitários são a parte mais fraca. O voto deles têm muito pouco peso, todo mundo diz com frequência que seus votos são apenas consultivos. [O processo] se tornou um teatro, em que as pessoas vêm e dão seus pontos de vista mas não têm uma voz definitiva em tomar aquelas decisões. Isso frustra a democracia. As pessoas se cansam e dizem “não vou mais participar porque é tudo controlado pelo poderoso prefeito, pelos tecnocratas”. E quando uma proposta de zoneamento é apresentada, eles sequer a entendem, porque isso é feito em termos técnicos que confundem as pessoas e faz com que elas se afastem.

    Isso não é verdade para todas as comunidades, porque as mais ricas, as que têm acesso a recursos privados, conseguem o que querem de qualquer maneira, por fora do processo do Ulurp. São as comunidades de baixa renda que são impossibilitadas de serem ouvidas. O Ulurp está precisando de uma grande mudança, que precisa ser uma mudança na distribuição do poder político.  

    Historicamente, como esse tipo de mudança nos usos da terra em Nova York afetou pessoas pobres e minorias?

    Tom Angotti Toda a história da cidade, como de muitas outras cidades, é uma história em que os pobres estão autorizados a ocupar terras consideradas marginais, de má qualidade, de localização não central, que não são de interesse para grandes desenvolvimentos. Essa terra foi ocupada majoritariamente por imigrantes europeus da classe trabalhadora, escravos e ex-escravos e, mais tarde, por imigrantes do Caribe, da América Latina, da Ásia e do mundo inteiro.

    'Conforme a cidade cresceu, o setor imobiliário viu, nos bairros marginais, oportunidades para novos empreendimentos'

    Quando essas pessoas chegaram aqui, não receberam moradia. Eles foram para as periferias, para qualquer lugar onde pudessem encontrar moradia, e, normalmente, eram bairros onde o valor da terra e da moradia não eram altos, porque é o que podiam pagar. Com muita frequência, havia estas casas subdivididas, em que famílias numerosas podiam arcar com os custos.

    Mas conforme a cidade cresceu, o interesse imobiliário viu, nesses bairros marginais, oportunidades para novos empreendimentos. Compraram a terra, prédios, expulsaram as pessoas e criaram novas oportunidades para novos empreendimentos. E o governo contribuiu com esse processo, o setor privado recebeu subsídios.

    Esse tem sido um padrão contínuo. É a mesma coisa na América Latina, onde pessoas instaladas em favelas, “barrios”, que não interessavam ao mercado imobiliário. Mas que, quando passaram a interessar, foram visados para remoções, as terras foram compradas e as pessoas foram e ainda são expulsas.

    Esse processo não está integrando as cidades. Não está melhorando as cidades. Está apenas ocultando as desigualdades e exacerbando-as ao forçar as pessoas a viverem em localidades ainda mais marginais, ainda mais afastadas do centro, dos empregos, e os ricos continuam a ocupar as terras mais caras, vivendo em seus enclaves segregados. Tem sido um processo constante, de centenas de anos de segregação e remoções.

    Como incluir de fato a participação das comunidades afetadas pelas mudanças no zoneamento no debate?

    Tom Angotti Não precisamos nos preocupar com isso, porque elas participam. Nosso livro “Zoned Out”, que saiu no ano passado, é um reflexo da oposição de base às mudanças no zoneamento.

    Houve bastante oposição ao [prefeito da cidade de Nova York entre 2002 e 2013, Michael] Bloomberg e às mudanças no zoneamento propostas por ele. Ele organizou a campanha de zoneamento como uma operação profissional de vendas. Usou recursos visuais, publicidade e até barganhou. Ele conseguiu criar grandes oportunidades para empreendimentos de muitos pisos [em áreas] para onde o grande capital investidor queria ir, e fazer concessões em áreas de edificações baixas e médias, áreas de classe média que não queriam o desenvolvimento.

    Ele jogou muito bem o jogo político, exceto pelo fato de que houve oposição significativa em locais como o Harlem, a alguns zoneamentos. Ele não conseguiu entrar nas comunidades pobres, negras. E nas que entrou, enfrentou problemas.

    O novo prefeito, Bill DeBlasio, que afirma ter ganho com uma plataforma política de combate à desigualdade, propôs 15 mudanças de zoneamento na cidade, todas menos uma em comunidades pobres e negras. Ele agora completa quatro anos como prefeito e só conseguiu levar adiante uma dessas mudanças  – por causa da oposição severa de comunidades altamente organizadas, que disseram não, tinham muitas perguntas e exigiram que houvesse garantia de que pessoas não fossem desalojadas. A cidade tem um longo histórico de segregação e desalojamento de comunidades negras.

    O governo não podia dar essa garantia, mas disse que ofereceria habitação acessível que, como ficou muito claro, não seria acessível para as pessoas que moravam naqueles bairros. O mercado nunca produziu habitação de baixa renda, isso precisa ser subsidiado.

    Você disse uma vez que quando as pessoas olham para Nova York, veem eficiência, enquanto você enxerga todas as deficiências da cidade. O que você vê?

    Tom Angotti Um dos mitos do norte é que nossas cidades são muito eficientes. Elas não são. Eficientes para quem? São eficientes porque pessoas com dinheiro podem contornar situações com muita facilidade, porque corporações ganham muito dinheiro usando mão de obra barata que vive nas margens das cidades. É um sentido muito estreito de eficiência econômica. Mas há algo mais que acontece com Nova York. Ela é um dos bons exemplos de marketing urbano, de um “branding” da cidade, o que cria o que é chamado de “best practices” que são difundidas pelo mundo.

    Você é otimista ou pessimista com relação ao futuro das cidades?

    Tom Angotti  Sou otimista por natureza, mas o futuro parece nefasto para muitas delas. Particularmente para aquelas que estão à beira mar, por conta da mudança climática e do aumento do nível do mar. Os problemas de poluição do ar e da água não estão sendo resolvidos, mas multiplicados. Eu que fui um defensor do desenvolvimento urbano, cheguei ao ponto de dizer: é hora de parar e pensar a longo prazo sobre a melhor maneira de tratar a terra e se desenvolver em harmonia com ela, em vez de desenvolver cidades que a estão destruindo, criando ambientes indesejáveis, insalubres e que, a longo prazo, ameaçam eliminar a espécie. 

    Acho que é hora de repensar tudo. E tem que começar com um olhar para a terra, rural e urbana, e qual a relação que as pessoas vão ter com ela. Porque esse pode ser o fim do antropoceno, o período na história do mundo em que os humanos dominaram o planeta e podem chegar a destruir o habitat para eles mesmos.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

    Já é assinante?

    Entre aqui

    Continue sua leitura

    Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: