‘Todo brasileiro gosta de capoeira, mas tem um pé atrás com o passado dela’

Um dos maiores capoeiristas do Brasil, Mestre Suassuna conversou com o ‘Nexo’ no aniversário de 50 anos do seu grupo, Cordão de Ouro

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    Mestre Suassuna é um dos maiores nomes da capoeira hoje. Nascido em 1938 em Itabuna, no interior da Bahia, começou a praticar o jogo — que é também dança e luta, como ele mesmo entende — na infância para fortalecer as pernas. Na sua formação, foi influenciado diretamente por alguns dos grandes mestres históricos da capoeira, como Bimba e Canjiquinha.

    O mestre é adepto da capoeira regional, que, ao lado da angola, constitui as duas grandes vertentes do jogo. A regional, criada pelo Mestre Bimba e com movimentos e cadência mais ligeiros, nasceu da angola, mais tradicional e lenta.

    Nos anos 1960, quis se mudar para o Rio de Janeiro. Na hora de comprar a passagem na rodoviária, reencontrou um antigo amigo que morava em São Paulo e foi convencido a mudar de destino. Ao chegar à capital paulista, perdeu o endereço do amigo e, sem ter aonde ir, passou dois meses morando na rodoviária.

    Aos poucos, foi se estabelecendo na cidade e começou a dar aulas de capoeira em escolas de luta. Insatisfeito com o espaço pequeno que tinha, junto com o companheiro Mestre Brasília, não demorou para fundar o grupo Cordão de Ouro. Conta que a ideia do nome veio de “Lapinha”, música cantada por Elis Regina: “Adeus Bahia, zum zum zum/ Cordão de Ouro/ Eu vou partir porque mataram meu Besouro”. Besouro Cordão de Ouro ou Besouro Mangangá é o nome de um dos capoeiristas mais famosos da história, que viveu no início do século 20 em Salvador e no Recôncavo Baiano.

    Gravou em 1975 o disco “Capoeira Cordão de Ouro”, um dos pioneiros de capoeira no país, com muitas músicas e toques tradicionais. E seguiu gravando e compondo nas décadas seguintes.

    Mestre Suassuna é reconhecido como um dos principais difusores da capoeira em São Paulo e criador do miudinho, uma brincadeira de capoeira que faz os participantes jogarem num espaço pequeno e bem próximos entre si e, como diz uma de suas músicas, não é angola e nem regional.

    Nesta sexta-feira, 1º de setembro de 2017, a Cordão de Ouro completa 50 anos, e o Mestre Suassuna falou com o Nexo sobre sua trajetória e sobre a capoeira. Depois da entrevista, confira a playlist que o Nexo preparou com músicas tocadas pelo Mestre Suassuna e pelo grupo de capoeira Cordão de Ouro.

    O que mudou na capoeira em 50 anos?

    Mestre Suassuna Mudou muita coisa para melhor e mudou muita coisa para pior. No lado esportivo, ela cresceu muito. No lado cultural, ela perdeu um bocado também. Esse negócio de federações, confederações, competições, a capoeira perde seu aspecto cultural. Mas tem mestres que estão preservando — no Rio de Janeiro, na Bahia, aqui em São Paulo — algumas raízes da capoeira. Ela melhorou muito, a penetração social foi muito bem aceita em São Paulo, que abraçou a capoeira. Já estou há 50 anos aqui [em São Paulo] fazendo esse trabalho e em 80 países [a Cordão de Ouro possui diversas academias no exterior e já se apresentou em vários países].

    ‘Muita gente quer saber de jogar perna e falta o sentimento pela arte’

    Muita gente está pensando na capoeira esportiva, a capoeira para as Olimpíadas, na luta, no ringue. E os capoeiristas vão se formando nessa linha de competição, em vez de se formar na linha cultural da capoeira para conhecer o valor real da capoeira, da cultura do povo, esse presente dos nossos antepassados negros. Tem gente que se forma em capoeira e nunca ouviu falar no Mestre Bimba, Mestre Pastinha, Mestre Canjiquinha, Mestre Traíra. Muita gente quer saber de jogar perna e falta o sentimento pela arte, trocada por um medalhão. É irreversível esse progresso da capoeira ir para as Olimpíadas, tem muita gente querendo ela nas Olimpíadas e vai ter posto uma pedra em cima da cultura da capoeira. Aí você vai ver e a pessoa que é credenciada pelas confederações [de capoeira] não sabe nem pegar num berimbau, a expressão, o jeito de entrar e sair da roda.

    Você gravou um dos primeiros discos com músicas de capoeira, em 1975. Como surgiu essa oportunidade?

    Mestre Suassuna Essa oportunidade nasceu de um aluno meu, que era capoeirista e era baterista, um dos maiores bateristas da época, o Dirceu. Ele tocava muito na [gravadora] Continental e me convidou para gravar o primeiro LP. Eu gravei o primeiro, o segundo e o terceiro LP por volta de 1970. E hoje já gravamos mais ou menos uns 20 CDs, com sucessos para o mundo todo. Agora esse primeiro LP que eu gravei, foi no sentido de ser futurista, que vai tocar como está tocando há 50 anos, as mesmas músicas, os mesmos balanços, as mesmas palavras sobre capoeira.

    E como anda a música da capoeira hoje?

    Mestre Suassuna Evoluiu muito. Se toca muito as mais modernas também, é que nem grupo de pagode, todo ano aparece uma leva de cantorias novas de capoeira, bonitas até. Eu estou gravando [atualmente], o pessoal me mandou muita música nova agora, de Fortaleza, de Natal, que canta sobre a terra deles. Música de capoeira qualquer uma pode ser, desde que seja no ritmo da capoeira. Mas as antigas falavam mais da tradição dos negros, do sofrimento. Hoje, as pessoas falam do bem-estar da capoeira, da caderneta de poupança de saúde que a capoeira traz, que muita gente está fazendo capoeira mais por exigência de manter o físico bem. Outros treinam porque gostam da cultura da capoeira, da música, do gingado.

    O senhor já disse que antigamente o sonho de todo capoeirista era ir a Salvador. Por quê?

    Mestre Suassuna Era a mesma coisa que os lutadores de caratê no Brasil que tinham o sonho de ir para o Japão. Os capoeiristas praticantes aqui do Sul, o sonho deles era conhecer Salvador, os grandes mestres, a tradição. Até hoje acontece isso, é uma tradição que não se pode perder, esse desejo de conhecer Salvador, “o que é que a baiana tem”, como diz Dorival Caymmi. Permanece esse desejo de todo capoeirista, antes de se formar, passar por Salvador e sentir o clima do povo.

    O que levou a capoeira e a Cordão de Ouro a se internacionalizar tanto?

    Mestre Suassuna Eu também estou perguntando a mim mesmo. Tem gente que pratica a capoeira muito pela luta. Eu parti mais pela arte, de todo mundo sentir uma espécie de camaradagem forte na Cordão de Ouro. Os europeus, os americanos gostam muito desse estilo, porque é uma camaradagem familiar, parece que tem dez anos que conhece o outro, sem agressões, sem brigas. Nós começamos assim e vamos permanecer assim.

    ‘As universidades dos Estados Unidos pedem muita capoeira, ao contrário daqui, que estão repudiando a capoeira’

    Essa história de sair do Brasil começou com Mestre Jelon e Mestre Acordeon, que foram para os Estados Unidos em 1980, por aí. Começaram a me convidar, levar uns alunos, o Jelon levando muitos grupos da Bahia. Os americanos começaram a se interessar muito por capoeira, nós começamos a plantar uns capoeiristas lá, dar apoio nas universidades. As universidades dos Estados Unidos pedem muita capoeira, ao contrário daqui, que estão repudiando a capoeira. Lá estão pedindo professores e mestres todos os anos, [querem] conhecer mais a fundo a capoeira. Teve a formatura agora e já tem uma lista de solicitação de dez professores para a Rússia e Alemanha. Ela vai crescendo e eu francamente não sei te explicar, é o desejo do povo em buscar culturas no mundo todo. O ser humano está sempre olhando o lado do outro.

    No exterior, a capoeira é vista como algo exótico ou com reverência? E no Brasil?

    Mestre Suassuna Como tudo isso. A capoeira é indescritível, o pessoal ouve as músicas, olha o jeito do capoeirista, gingado, a força, a energia, essa coisa toda que a capoeira traz, numa roda bem feita. Muita gente adora essa movimentação toda, não olha nem pelo lado da luta. Eu recebo aqui [na Cordão de Ouro] 20, 30, 50 pessoas por mês que vêm da Europa, dos Estados Unidos, de todo canto para aprender música, tocar instrumentos, ritmos. O brasileiro é especial em ritmo.

    No Brasil, todo brasileiro gosta de capoeira, mas tem um pouco de pé atrás com o passado dela. Essa discriminação… A capoeira vem dos negros, vem do Brasil. Aí você põe lá a prática de um esporte americano e “ah, isso aqui é que é bom”. Nós temos um rabo preso com essas coisas alheias.

    Já a gente tem muita dificuldade para arrumar um ginásio, enquanto as outras modalidades têm uma facilidade para conquistar patrocínio. Nós [capoeiristas] temos muita dificuldade com patrocínio. E aí dizem que “o Brasil é assim mesmo”.

     

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