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Os planos e a ideologia da Frente Favela, que luta para se tornar partido

Em entrevista ao ‘Nexo’, Anna Karla Pereira fala sobre a busca de uma maior representação para negros, moradores de comunidades e periferias no Brasil

     

    A Frente Favela deu na quarta-feira (30) o penúltimo passo para se converter oficialmente no “primeiro partido do país com o objetivo de representar os 112 milhões de negros e pardos brasileiros”.

    Representantes do grupo comunicaram ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral), em Brasília, que já dispõem de um registro de CNPJ (Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica).

    Falta agora recolher aproximadamente 500 mil assinaturas no prazo de até dois anos, para então, ter reconhecido um número de registro, um logotipo e, o principal: o direito de lançar candidatos nas eleições.

    É improvável que a Frente consiga participar das eleições presidenciais de outubro de 2018, pois, para isso, seria preciso que as 500 mil assinaturas fossem colhidas, entregues e reconhecidas pela Justiça Eleitoral até outubro de 2017.

    2%

    É o percentual de brasileiros que dizem confiar nos partidos políticos, segundo o Datafolha

    A Frente aposta no fato de um universo que corresponde a mais da metade da população brasileira não ter um partido que trate a questão racial abertamente, como prioridade.

    “A ideologia talvez não tenha cor, mas as desigualdades e suas consequências têm”, disse ao Nexo Anna Karla Pereira, presidente da Fundação Zumdara, que será responsável pela formação política dos membros do partido e dos possíveis candidatos, além de gestora dos recursos do partido.

    “Seremos um dos maiores partidos do Brasil em pouco tempo. Não se surpreendam”, ela afirmou nesta entrevista concedida por e-mail.

    A Frente Favela se apresenta como ‘partido dos negros’. Existe relação entre a cor da pele de uma pessoa e a ideologia política? Qual?

    Anna Karla Pereira Não somos um partido apenas de negros, mas também de moradores das favelas e dos pobres das periferias e subúrbios, além de todos que desejam melhorias na vida dessas pessoas.

    Todas as ideologias estão nesses territórios e, como somos milhões de eleitores, não queremos ser ingênuos em crer que pensamos da mesma forma. Seremos a soma de todas as nossas diferenças.

    A ideologia talvez não tenha cor, mas as desigualdades e suas consequências têm. Se a política trata das desigualdades, ou deveria tratar, então é chegada a hora de colorir mais a política.

    A Frente Favela é de esquerda ou de direita?

    Anna Karla Pereira Em um contexto de polarização e radicalizações como temos vivido nos últimos anos, existe uma necessidade da política tradicional nos posicionar em algum lado desta triste guerra entre “coxinhas” e “mortadelas”.

    Esses rótulos pouco contribuem para um debate mais equilibrado sobre o Brasil. Se, por exemplo, falarmos que defendemos a meritocracia, imediatamente tentarão nos colocar no campo da direita. Se por outro lado, bradarmos o que talvez seja nossa principal bandeira, que é a igualdade de oportunidades, vários militantes da direita tradicional nos acusarão de esquerdistas.

    Pois bem, existe meritocracia sem igualdade de oportunidades? Qual o mérito de um corredor que ganha uma prova de 100 metros largando 50 metros na frente? Discutir como garantir mais oportunidades para todos é muito mais importante do que entrar no Fla-Flu da política que impera hoje no país.

    Em suma, somos uma FRENTE [grifo da entrevistada] progressista ancorada nas lutas contra as desigualdades, e promoção do progresso do povo favelado e preto brasileiro que constitui a maioria da população.

    Como se deu o financiamento da iniciativa até aqui? E como o partido pretende se financiar daqui em diante?

    Anna Karla Pereira Não tivemos grandes custos até agora, quase tudo que fizemos foi através da mobilização nas redes sociais, os poucos que tivemos até aqui foram financiados por vaquinhas nas redes sociais e trabalho voluntário. 

    Hoje, dia 30, estamos abrindo nossa conta e aí passaremos a receber doações daqueles que se apaixonarem pelo projeto.  Esse movimento desperta paixões, que é a nossa moeda, sempre trabalhando com o modelo de voluntários e doações dentro da lei.

    A Frente Favela apoiará alguém nas eleições presidenciais de outubro de 2018? Lançará candidatos? Fará coligação?

    Anna Karla Pereira Estamos correndo para conseguir vencer todas as etapas e participarmos das eleições de 2018. Talvez não seja possível, pois dependemos da velocidade do TSE. De toda forma, esse debate está fervendo no partido. Os estados estão debatendo isso e a decisão será em novembro.

    Uns defendem que apoiemos candidatos de todos os partidos que tenham negros e moradores de favelas. Outros preferem ficar de fora da disputa. Eu defendo que alguns membros como [o rapper] MV Bill participem do pleito. No momento, o foco é conseguir as assinaturas as 484 mil assinaturas necessárias para participarmos do pleito.

    A cláusula de barreira, que está sendo discutida na nova reforma política, não pode barrar os planos da Frente Favela?

    Anna Karla Pereira Concordamos com a reforma política. Mas entendemos que o problema não está no modelo, mas nos políticos atuais. Vivemos mau momento político. Com os políticos atuais, acreditamos que possa mudar o modelo, mas não as práticas. 

    Concordamos com a cláusula de barreiras, ela não impede o nosso projeto, apenas cria barreiras e metas para que os partidos tenham acesso ao fundo e ao tempo de TV e rádio.  Se existe uma coisa que a Frente não teme são as urnas. Seremos um dos maiores partidos do Brasil em pouco tempo. Não se surpreendam. É a primeira vez que um partido é registrado no TSE com diretórios em todas as unidades da federação.

    Joaquim Barbosa, o primeiro ministro negro do Supremo, tem o perfil da Frente Favela?

    Anna Karla Pereira Ser ministro do Supremo é o auge do desenvolvimento profissional de quem constrói sua carreira no direito. Se houvesse igualdade de oportunidades no nosso país, seria natural que metade dos ocupantes do Supremo fossem negros. Sabemos bem que não é essa a realidade.

    Joaquim Barbosa entende como poucos os desafios e barreiras que teve que superar para se tornar ministro. O Joaquim tem nosso perfil porque ele sabe o que sentimos, inclusive sempre disse isso no Supremo. O problema é que quando falamos desse tema parece que estamos pedindo compaixão. Por isso vamos seguir sem pedir nada. Quem vai decidir o tamanho que teremos será a comunidade dos negros e favelados brasileiros. Queremos que exemplos como o dele se tornem regra, não mais exceção em uma sociedade injusta e desigual.

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