Os homens insistem em explicar coisas que a escritora Rebecca Solnit já sabe

O ‘Nexo’ fez 6 perguntas à autora feminista americana que teve dois de seus livros traduzidos e publicados no Brasil recentemente

     

    Em 2003, a historiadora, escritora e militante feminista americana Rebecca Solnit foi a uma festa com uma amiga em um chalé luxuoso próximo a Aspen, cidade americana famosa por suas estações de esqui.

    Conversando com o dono da casa, ela foi questionada sobre qual era o assunto dos dois livros que ela havia escrito – àquela altura Solnit já havia, na realidade, publicado seis ou sete títulos.

    Quando começou a dizer que o mais recente tratava do pioneiro da fotografia Eadweard Muybridge, foi interrompida pelo anfitrião, que começou a discorrer sobre um livro muito importante sobre Muybridge que havia saído naquele ano. 

    “Tão mergulhada estava eu no papel de ingênua que me fora atribuído que me senti perfeitamente disposta a aceitar a possibilidade de que outro livro sobre o mesmo assunto tivesse sido publicado ao mesmo tempo que o meu, sem eu me dar conta. Ele já estava me contando sobre aquele livro superimportante – com aquele olhar presunçoso que eu conheço tão bem nos homens quando começam a falar e falar, com os olhos fixos no horizonte nebuloso e distante da sua própria autoridade” escreve Solnit, quando sua amiga teve que intervir (mais de uma vez) para dizer que era do livro dela que ele estava falando.

    A anedota tragicômica motivou o ensaio “Os homens explicam tudo para mim”, que abre o livro de mesmo nome da autora, uma coletânea lançada no Brasil em agosto pela editora Cultrix. Outra reunião de ensaios de Solnit, “A Mãe de Todas as Perguntas” foi publicado pela Companhia das Letras e lançado no mesmo mês.

    O ensaio sobre o episódio de 2003 foi escrito alguns anos depois e teve grande repercussão on-line. Viralizou tanto que Solnit levou o crédito pela criação do termo “mansplaining”, usado para caracterizar o comportamento de alguns homens que dão explicações às mulheres sobre coisas que elas já sabem, de maneira paternalista e não solicitada.

    Em ambos os livros recém-publicados no Brasil, Solnit trata do silêncio e do silenciamento, das diversas formas de violência que acometem as mulheres por conta do machismo, das conquistas do feminismo contemporâneo, esforçando-se voluntariamente para incluir também os homens na conversa.

    Seu sobrevoo por diversos temas e episódios conecta agressões que parecem menores, como um homem subestimando uma mulher em um evento social, aos problemas estruturais e a acontecimentos de projeção internacional, como a acusação de assédio sexual feita por uma camareira de hotel contra o ex-diretor do Fundo Monetário Internacional, Dominique Strauss-Khan, em 2011.

    Se o mansplaining é a ponta do iceberg, todo tipo de violência a que as mulheres estão sujeitas em seu cotidiano, em todas as esferas da vida, é o restante dele e na base está o feminicídio: os ensaios de Solnit explicitam “o contínuo que se estende de um pequeno incidente social desagradável até o silenciamento violento e a morte violenta” de mulheres, nas palavras dela mesma. 

    Nas seis perguntas a seguir, o Nexo procurou captar as visões da autora sobre o feminismo contemporâneo, os avanços feitos desde o século 20 e outros temas presentes em seus dois livros publicados no Brasil.

    Você é uma feminista experiente, que escreve e fala sobre o tema há décadas. Qual característica você vê como o ponto forte do feminismo de hoje?

    Rebecca Solnit Estamos em um mundo completamente novo para o feminismo. Uma revolta global entre 2012 e 2014 mudou o debate sobre a violência contra as mulheres (que poderíamos chamar de violência dos homens contra as mulheres), com fortes protestos [que ocorreram] de Nova Délhi a Nova York.

    Muitos homens embarcaram e assumiram a responsabilidade de atentar para a misoginia e a igualdade. Uma nova geração de jovens mulheres está fazendo um trabalho brilhante, nas ruas, nos livros, no debate público, e os jovens estão, em geral, repensando como iremos imaginar o gênero e os papéis de gênero, se afastando de ideias compartimentadas sobre orientação sexual, masculinidade e feminilidade.

    Nos ensaios dos livros “Os Homens Explicam Tudo para Mim” e “A Mãe de Todas as Perguntas”, o silêncio é um dos seus temas mais recorrentes. Qual a relação entre as mulheres e o silêncio ao longo da história?

    Rebecca Solnit Há muitos tipos diferentes de silêncio, com muitas causas. Acho que cada um de nós lida com formas de silêncio que surgem dentro de nós e ao nosso redor.

    Uma das coisas sobre a qual escrevo em “A Mãe de Todas as Perguntas” é o silêncio masculino: “O silêncio está presente em toda parte no patriarcado, embora sejam exigidos silêncios diferentes de homens e de mulheres. Pode-se imaginar o policiamento do gênero como a criação de silêncios recíprocos, e começar a reconhecer o silêncio masculino como uma troca por poder e pertencimento”.

    Mas as mulheres foram silenciadas ao serem excluídas das arenas de poder nas quais as palavras importam: desde serem as juízas que decidem a lei até legisladoras que criam as leis. Não fomos o gênero dominante e nem mesmo, mais recentemente, um gênero com participação igualitária na economia, na mídia, na política, na educação.

    Temos uma história, ou muitas histórias, de mulheres serem silenciadas ao serem desacreditadas, ao serem treinadas para ser, acima de tudo, agradáveis. E esses são apenas alguns tipos de silêncio: precisei de 10.000 palavras para explorar alguns dos aspectos do silêncio ligado às mulheres. 

    Nessa perspectiva, de que forma nomear diferentes tipos de violência de gênero pode ajudar as mulheres a superar esse tipo de problema?

    Rebecca Solnit Retomando a última pergunta, houve muito silêncio em torno na violência doméstica, do estupro e do assédio na rua. [Essas formas de violência] foram ignoradas, banalizadas, desculpadas, tratadas como se a culpa fosse da vítima. Também tivemos homicídios descritos como “crimes de honra”, como se para justificá-los. A própria linguagem é uma justificativa: diz que a honra dele é importante – talvez mais importante que a vida dela?

    Nos Estados Unidos, nós também não tínhamos a linguagem [necessária] para descrever o assédio sexual no local de trabalho, o estupro conjugal, o “date rape” [cometido por alguém com quem a mulher tenha um envolvimento amoroso ou sexual], o estupro cometido por uma pessoa conhecida; até que uma coisa seja nomeada, é difícil falar sobre ela.

    As feministas falantes de língua inglesa inventaram esses termos, principalmente nos anos 1970, para se referir ao abuso terrível que as mulheres estavam enfrentando. Os primeiros abrigos para mulheres em situação de violência doméstica surgiram por essa época – e o antigo termo “wife beating” [espancamento de esposa, em uma tradução livre] foi substituído por violência doméstica, já que a violência não é necessariamente um espancamento, e as vítimas não são só as esposas.

    Penso muito no meu próprio trabalho como escritora como um trabalho de chamar as coisas por seus nomes verdadeiros, seja a violência da mudança climática, ou o problema – às vezes cômico, às vezes letal – do “mansplaining”, ou a monstruosidade do atual presidente [americano] e a misoginia que o ajudou a chegar ao poder. É difícil lidar com um problema que não tenha um nome ou qualquer coisa que não tenha nome.

    Qual papel os homens devem desempenhar na luta pela igualdade de gênero?

    Rebecca Solnit Há momentos em que eles precisam se colocar e outros em que precisam recuar como todos nós – por exemplo, pessoas brancas falando sobre racismo, pessoas heterossexuais combatendo a homofobia. O que legitima especialmente os homens que odeiam e maltratam mulheres são os outros homens; não tomar parte nessa cultura no clube esportivo, no bar ou no local de trabalho, intervir contra ela, é uma forma simples de decência que todo homem pode ofertar. E há momentos para deixar outros falarem e serem ouvidos, apoiá-los ao não ocupar mais espaço do que você merece como alguém que não é menos nem “mais igual”. 

    Você escreveu que direitos podem ser concedidos e tirados, mas uma vez que ideias de igualdade e liberdade estão “soltas por aí”, não é tão fácil revogá-las. Você pode explicar essa teoria?

    Rebecca Solnit Quando olho para a vida das mulheres há 60 anos, vejo que o tanto que elas eram discriminadas era invisível tanto para elas quanto para os homens. Elas não tinham acesso igualitário a quase nenhuma instituição no mundo, do banco à medicina; o casamento era essencialmente uma relação entre senhor e servo codificada na lei, e a expectativa de que sua vida deveria e iria girar em torno de um marido e filhos era raramente desafiada.

    A natureza dessa desigualdade – a própria ideia de que tratava-se de desigualdade em vez de apenas diferenças inerentes entre homens e mulheres – os papéis separados que ocupamos, não era algo amplamente reconhecido. Quando se olha para as feministas dos anos 1960 e 70, o que se vê é um entusiasmo tremendo ao falar sobre a realidade de suas vidas, ao descobrir que podem discutir o que Betty Friedan chamou de “o problema sem nome”, que elas podem ter esperança e reivindicar uma vida melhor para elas mesmas e para aquelas que ainda estão por vir.

    As mulheres não tinham direitos reprodutivos, e muito do abuso que sofreram, como disse anteriormente, sequer era nomeado. Elas não tinham voz. Elas abriram espaço para ter voz, para ouvir umas às outras, abriram espaço para outras falarem depois delas. É uma revolução grandiosa – inacabada, porque está mudando algo que é tão antigo quanto a Bíblia, tão difundido quanto leis e legislações de todos os países do mundo, mas não vai parar.

    As leis podem retroceder; as mulheres podem perder poder; mas uma vez que uma ideia está no mundo não é fácil fazê-la ir embora. Está nos livros, nos filmes, nas leis, nos sistemas educacionais.

    Estamos vivendo a quarta onda do feminismo? Se sim, quais especificidades você reconhece nessa nova onda?

    Rebecca Solnit Eu não amo a ideia de ondas, como se pertencêssemos a uma geração e fosse isso que nos define e nos separa! Tenho tanto em comum com as jovens feministas brilhantes e com as mães fundadoras do feminismo, como minha amiga Susan Griffin. Estamos todas no mesmo oceano, e as mulheres que se manifestaram há 40 anos ainda estão, em muitos casos, fazendo um bom trabalho e aprendendo com os jovens. Se a primeira onda do feminismo foi no século 19, então talvez, se temos que falar em ondas, essa é uma longa segunda onda que inclui a nós todas.

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