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Qual o papel de Marco Aurélio Garcia na política externa de Lula, segundo Celso Amorim

Em entrevista ao ‘Nexo’, ex-chanceler analisa a influência do ex-assessor da Presidência e diz que ele era o alter ego do ex-presidente

     

    Marco Aurélio Garcia foi uma das figuras mais influentes do Brasil na área internacional durante os 13 anos de governo petista. A conclusão se depreende desta entrevista que o ex-ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, concedeu ao Nexo, por telefone, seis dias após Marco Aurélio ter morrido no dia 20 de julho, vítima de um infarto, aos 76 anos.

    No início dos anos 2000, o então chanceler, Celso Amorim, e o então secretário especial da Presidência da República para Assuntos Internacionais, Marco Aurélio Garcia, encabeçaram um projeto ambicioso de inserção brasileira “ativa e altiva”, nas palavras de Amorim, nos principais temas da agenda mundial.

    Sobretudo no primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2006), o Brasil foi chamado (ou se ofereceu) para missões nas quais não costumava atuar, como intermediar um acordo nuclear com o Irã, discutir a paz entre israelenses e palestinos, reformar o Conselho de Segurança das Nações Unidas e fundar um bloco alternativo à hegemonia dos EUA, formado também por China, Rússia, Índia e África do Sul.

    Por mais altos que possam ter sido os avanços obtidos pela diplomacia brasileira no período, eles estiveram sempre aquém da pretensão manifestada pelo governo Lula, como demonstra o fato de o Conselho de Segurança não ter sido reformado e dos demais desafios permanecerem à espera de soluções duradouras.

    Para Amorim, “Marco Aurélio despertava nos outros a percepção de que se tratava do enviado especial e pessoal do presidente Lula, uma espécie de alter ego do presidente Lula nas relações internacionais”. Segundo o ex-ministro, “isso era muito importante para convencer certas pessoas”.

    ‘Quando um partido de direita está no poder, ele está fazendo, entre aspas, uma política de Estado. Se o partido que governa é mais de esquerda, então é [uma política externa] partidarizada. Total tolice’

    Marco Aurélio foi um dos fundadores do PT e do Foro de São Paulo, instância de diálogo que reunia partidos políticos, movimentos sociais e grupos armados de esquerda da América Latina. Ele também foi professor de história na Unicamp e secretário de Cultura em administrações petistas à frente das prefeituras de Campinas (1989-1990) e de São Paulo (2001-2002).

    Na esquerda, era considerado um estrategista pragmático, que colaborou para expansão deste campo ideológico na América do Sul, com os governos chamados “bolivarianos”. Para os críticos, Marco Aurélio contaminou a gestão de assuntos de Estado com uma postura excessivamente partidarista. Ambas visões são abordadas por Amorim na entrevista.

    Qual foi a importância de Marco Aurélio Garcia para a política externa brasileira?

    Celso Amorim Primeiro, ele foi um dos fundadores do PT. Desde o início ele esteve ligado à história do partido. Toda a ênfase na integração da América Latina, a visão de mundo do PT, a solidariedade com os partidos social democratas europeus, enfim, todas as grandes linhas de política internacional que o PT tinha foram traçadas com ajuda do Marco Aurélio.

    ‘Como o presidente Lula costumava dizer, dos últimos 30 anos de vida [de Lula], em 25 anos o Marco Aurélio viajou junto para o exterior’

    Como o presidente Lula costumava dizer, dos últimos 30 anos de vida [de Lula], em 25 anos o Marco Aurélio viajou junto com ele para o exterior. Só isso já é uma coisa fantástica. O presidente Lula obviamente não precisa de professor, mas Marco Aurélio tinha muito conhecimento. Ele teve, portanto, uma influência muito grande no PT e na própria percepção do presidente Lula dos grandes temas da política internacional.

    No governo, ele era um homem da confiança direta do presidente e isso era algo muito percebido internacionalmente. Às vezes havia algum contato de Estado, que eu mantinha - quando não o próprio presidente -, mas o Marco Aurélio despertava nos outros a percepção de que se tratava do enviado especial e pessoal do presidente Lula, uma espécie de alter ego do presidente Lula nas relações internacionais. E isso era muito importante para convencer certas pessoas de que não havia uma divisão entre o Itamaraty, como uma instituição de Estado, e a Presidência, como se fosse uma coisa separada, partidária.

    Foi muito importante e devo dizer que trabalhamos sempre com total harmonia. O Marco Aurélio compreendia completamente qual era a função dele e o que era uma ação de Estado, desenvolvida pelo Itamaraty e por mim, como ministro.

    Ele foi, por tudo isso, uma pessoa indispensável. Sem falar em aspectos da personalidade dele, como a afabilidade, o bom humor, a capacidade de colocar um toquezinho de ironia nas coisas, o que sempre nos ajuda também a perceber melhor a realidade.

    Tanto o sr. quanto Marco Aurélio assumiam posições na linha de frente na política externa. Como foi definida a divisão de funções? Qual era exatamente o papel dele?

    Celso Amorim Nós fomos tocando isso de ouvido. Havia coisas sobre as quais, naturalmente, era eu o negociador. Por exemplo: o Marco Aurélio jamais participou de uma negociação da OMC [Organização Mundial do Comércio], jamais participou de uma negociação sobre desarmamento, sobre uma resolução.

    Eu era também muito bem recebido não apenas pelos ministros, mas também pelos presidentes da América do Sul. Entretanto, às vezes era necessário transmitir uma mensagem mais pessoal. Aí, a figura pessoal do Marco Aurélio era muito importante. Outras vezes era necessário ter um certo contato específico com outros partidos - não só de esquerda, como as pessoas às vezes pensam - e essas funções, eu, como chanceler, não podia desempenhar, pois contaminava a minha função.

    ‘Às vezes era necessário transmitir uma mensagem mais pessoal. Aí, a figura pessoal do Marco Aurélio era muito importante’

    Outros exemplo: logo depois de as tropas brasileiras serem mandadas para o Haiti [2004], o Marco Aurélio passou 10 ou 15 dias, talvez até mais [no Haiti]. Isso era algo que eu jamais poderia fazer. Primeiro, por causa das minhas obrigações. Depois, porque nem adiantaria, porque eu também não podia ter os contatos que ele podia ter.

    Então, eu acho que se estabeleceu naturalmente algo que não era nem uma divisão de tarefas, era uma coisa muito harmoniosa. Nós trabalhávamos juntos. Quando viajávamos, por exemplo, com o presidente Lula, na hora de fazer uma revisão de discurso, fazíamos juntos. Não havia uma divisão pré-estabelecida. Ele era o assessor pessoal do presidente, o representante pessoal do presidente, e eu era o negociador - não apenas comercial, mas também nas relações de Estado -, que é a função normal da diplomacia. Porém, às vezes era necessário falar com outros partidos, convencer outros setores da sociedade civil e, nisso, o Marco Aurélio tinha primazia, evidente.

     

    Houve outros momentos na história em que o presidente do Brasil teve um assessor para questões internacionais tão ativo?

    Celso Amorim É verdade. Isso tem a ver com o próprio crescimento do Brasil na política internacional. Historicamente, os assessores internacionais eram um pouco, assim, digamos, diplomatas, que cuidavam do dia a dia. Eles até podiam dar uma ou outra opinião. Mas o Marco Aurélio era uma figura independente. Ao mesmo tempo que tínhamos essa harmonia, ele mantinha independência, ele conhecia o Lula há muitos anos.

    ‘Os partidos políticos vão progressivamente tendo mais formulações sobre a política internacional, é uma evolução natural’

    Isso é normal num país que cresce. Vamos olhar, digamos, a França, no período, do [presidente francês Nicolas] Sarkozy [2007-2012]. Eu discutia vários assuntos com o Bernard Kouchner, que era o ministro das Relações Exteriores [2007-2010]. Nós fomos ao Haiti juntos, discutimos temas ligados a clima etc, mas chegava a hora de discutir, por exemplo, a relação com o Irã [que era acusado de desenvolver secretamente um programa atômico com fins militares], eu discutia com o assessor pessoal do Sarkozy, não com Kouchner. Então, um país que cresce tem necessidade disso.

    Veja os EUA. Você tem duas figuras importantes na política internacional americana: uma é o secretário de Estado, que representa a política externa de Estado, mas você tem sempre também o assessor de Segurança Nacional, que era mais ou menos, não era exatamente, mas era um pouco o que o Marco Aurélio fazia, era o mais próximo que nós tínhamos disso.

    Tudo isso tem a ver com o crescimento do país, com o fato de que os partidos políticos vão progressivamente tendo mais formulações sobre a política internacional, é uma evolução natural.

    O atual chanceler brasileiro, Aloysio Nunes, assim como o antecessor, José Serra, ambos do PSDB, acusam as gestões petistas de promover uma política externa partidarizada. Como o sr. responde a isso? E qual o papel que o Marco Aurélio pode ter tido nessa percepção?

    Celso Amorim Essa acusação é uma bobagem. É uma bobagem absoluta. Quando um partido de direita está no poder, ele está fazendo, entre aspas, uma política de Estado. Se o partido que governa é mais de esquerda, então é [uma política externa] partidarizada. Isso é totalmente vazio.

    Não há uma decisão importante de política externa que tenha sido tomada e com a qual eu não estivesse 100% de acordo. E eu sou um diplomata de carreira. Eu fui secretário-geral do Itamaraty, fui ministro [das Relações Exteriores] no governo Itamar Franco [1992-1995]. Posições fortes tomadas pelo Brasil, como a ampliação do Conselho de Segurança, eram coisas que o Brasil sempre tinha. Isso não tinha nada a ver com o partido político. O que houve é que o Lula se interessava muito por esses temas. Ele não tinha medo de aparecer, não tinha uma certa timidez que havia se tornado meio atávica nos últimos tempos na política externa.

    Essa afirmação é, então, completamente boba. Não houve qualquer decisão importante sobre a qual o presidente Lula não tivesse me ouvido, seja a Declaração de Teerã [sobre desenvolvimento de um programa nuclear iraniano], Oriente Médio, comércio, [Rodada de] Doha, Alca [Área de Livre Comércio das Américas] ou Bolívia.

    É, portanto, uma total tolice. E vou dizer mais: isso não era percebido assim pelo Itamaraty, que teve, na época do presidente Lula, muito entusiasmo, esteve muito engajado com a política externa de modo geral.

    O Brasil se propôs a intermediar a crise nuclear entre EUA e Irã, ajudar na busca de soluções para a questão palestina e influenciar até mesmo o regime norte-coreano, mas hoje sequer tem influência na crise geograficamente mais próxima, na Venezuela. O que mudou?

    Celso Amorim Primeiro, nós tínhamos um governo que tinha uma força extraordinária. Era um partido político de esquerda e democrático. Os países da nossa região, da Europa, da África, outros país, enfim, olhavam com enorme atenção para ver se aquele modelo, de um governo de reformas sociais e, ao mesmo tempo, respeitador das normas democráticas, ia dar certo. E deu, até onde pudermos ir. Depois ocorreram outros fatos.

    Havia uma expectativa imensa naquela época. Hoje em dia, você tem um governo que nasceu de um processo, na melhor das hipóteses, discutível. É uma coisa absurda, que envolve inclusive um uso totalmente espúrio da figura do impeachment, não só porque os delitos dos quais a presidenta foi acusada não constituem causa para impeachment, mas também porque o impeachment não é para isso.

    ‘O Brasil estava presente (...) O nosso soft power era muito grande. O Brasil era chamado’

    Eu morei nos EUA duas vezes. Por coincidência, nas duas vezes houve um presidente sofrendo impeachment. Num caso, foi o Richard Nixon [1969-1974], que acabou renunciando. No outro caso, foi o Bill Clinton [1993-2001], que acabou derrotando o processo. Em nenhum dos dois casos você poderia imaginar que o sucessor deles pudesse fazer uma aliança com forças opostas. Na minha opinião - e isso é uma opinião minha -, no Brasil, o impeachment não teve fundamento suficiente. Aliás, as próprias pessoas que promoveram o impeachment reconheceram isso de certa maneira, ao falar de ‘conjunto da obra’, uma figura que não existe na Constituição nem nas leis. Foi, então, uma mudança de projeto político. O povo votou num projeto político e o governo, hoje em dia, faz o projeto político oposto.

    Tudo isso tira qualquer legitimidade internacional. Além do mais, o Brasil tinha uma política ativa. O Brasil estava presente. Mesmo pessoas que discordavam da gente - por exemplo, o senador Cristóvam Buarque, que votou a favor do impeachment - reconhecem que a diferença é que o Brasil estava presente.

    E não é que o Brasil se propôs. O Brasil aceitou uma posição que normalmente era dele, e para a qual ele era chamado. Não foi o Brasil que foi se meter com o Irã e com o Oriente Médio. O presidente dos EUA, Barack Obama, pediu ao presidente Lula que o ajudasse. No caso do Oriente Médio, o Brasil foi convidado para a Conferência de Annapolis [para resolver o conflito Israel-Palestina, em 2007], da qual participaram pouquíssimos países, porque o Brasil é um país grande, tem uma população enorme, tem uma economia grande - meio combalida agora, mas grande - e tudo isso conta no poder de um país.

    Juntando tudo isso com a figura do presidente Lula, o nosso soft power [expressão usada na política externa como poder de persuasão e de influência] era muito grande. O Brasil era chamado. Em dezembro de 2009, vieram ao Brasil, no espaço de uma semana ou dez dias, o presidente do Irã, o presidente da Autoridade Palestina e o presidente de Israel.

    Mas esse declínio não se iniciou com o impeachment de Dilma e com o início do governo Temer, como o sr. diz. No mandato da presidente Dilma já havia um declínio nessa influência brasileira.

    Celso Amorim Mas aí é muito diferente. Eu respeito muito a presidenta Dilma. Eu trabalhei com ela [como ministro da Defesa, entre 2001 e 2015]. Ela sempre foi muito correta, sempre houve muito respeito e nunca houve abuso, como uso de militares para reprimir manifestações de natureza política, como tentou se fazer agora [referência a convocação das Forças Armadas no dia 24 de maio por Temer]. Ela ajudou a fortalecer programas importantes de defesa nacional, em relação à construção do submarino nuclear, dos caças da FAB [Força Aérea Brasileira], programas de informática do Exército etc. Agora, ela foi menos ativa que o presidente Lula na área externa, por muitas razões que não me cabe julgar, como temperamento, além de que alguns sinais de crise econômica já começavam a aparecer.

    Eu costumava dizer que a política externa do Brasil era ativa e altiva. Mesmo sendo menos ativa, ela não deixou de ser altiva. Por exemplo, quando houve aquela absurda espionagem americana no Brasil, ela, - contra boa parte da imprensa brasileira, que praticamente dizia que era culpa nossa, de termos sido espionados - soube cancelar a viagem. E soube recompor em seguida.

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