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Lima Barreto é um bom autor para pensar o contexto brasileiro atual, diz biógrafa

Lima Barreto é um bom autor para pensar o contexto brasileiro atual, diz biógrafa

Novo trabalho da antropóloga e historiadora Lilia Schwarcz retrata a ambiguidade, relevância e atualidade do autor negro que viveu no início do século 20

“É notório que aos governos da República do Brasil faltam duas qualidades essenciais a governos: majestade e dignidade”. A frase de Lima Barreto é apenas um dos exemplos de como o escritor brasileiro e sua obra dialogam com o Brasil ao longo de sua história, o que também é verdade para o momento atual. Depois de uma biografia do Brasil, a historiadora, antropóloga e colunista do Nexo Lilia Schwarcz lança a biografia de Lima Barreto, autor de “Triste fim de Policarpo Quaresma” e “Clara dos Anjos”, entre outros.

A obra de Schwarcz, resultado de um processo de pesquisa de dez anos, traz a multiplicidade de interpretações possíveis diante de uma produção literária extensa e uma vida conturbada do autor negro que viveu entre 1881 e 1922. Ao mesmo tempo, procura fazer perguntas novas a um personagem que já havia sido amplamente estudado. “Lima Barreto tem grandes estudiosos, teve uma imensa biografia em 1952 do Francisco de Assis Barbosa e eu tinha que provar pra mim mesma que eu tinha alguma coisa nova para dizer”, afirma a pesquisadora. 

 

Lima Barreto é também o autor homenageado da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) deste ano. É a primeira vez que a festa homenageia um autor negro. Para a biógrafa, não é com a Flip que o autor vai entrar no cânone da literatura. Ele “vai entrar por méritos próprios”. Para ela, a homenagem na Flip é um reflexo de nosso tempo: “é o nosso momento que vai pedindo um autor como o Lima Barreto”.

Nesta entrevista, Lilia Schwarcz fala do personagem Lima Barreto em relação ao seu tempo e aos dias atuais, discute como a questão racial se coloca para a obra do autor e é tratada por ela, como biógrafa, e explora as ambiguidades manifestas na vida e no percurso literário de Lima Barreto. Ao longo da entrevista o leitor também encontra um material exclusivo do Nexo, com vídeos em que a autora analisa imagens que fazem parte da biografia e ajudam a recompor a trajetória do biografado.

Em vários de seus trabalhos encontramos um diálogo entre o personagem e a história do Brasil pensada na longa duração. Você vê em Lima Barreto um personagem capaz de falar de aspectos estruturais da história brasileira?

Lilia Schwarcz Eu tento indagar quais as razões para que Lima Barreto tenha ficado tanto tempo fora do nosso cânone literário. E acho que parte dessa entrada lenta se explica por conta dos temas que ele trata. Quando fui enfrentar o Lima Barreto com toda a ambiguidade que esse personagem tem — porque não acredito em biografia como um projeto elevatório, não se trata disso — vi que ele trata de temas espinhosos da nossa agenda atual. Por exemplo, é impressionante um autor que faça uma literatura afrodescendente não porque ele é negro, porque temos vários exemplos na história de autores negros que não fazem e não é obrigatório, não é pedágio obrigatório, mas faz porque a questão racial, a cor dos personagens, as situações que eles vivenciam, a pobreza, a humilhação, a desigualdade existente no Brasil são temas fundamentais para o Lima Barreto. Começo [o livro] com algumas citações nas quais ele interpela a nossa República, ele enfrenta a nossa República até os dias de hoje.

Na minha última coluna no Nexo, eu coloco uma citação na qual ele fala que nos governos da República do Brasil faltam majestade e dignidade. Ele é um autor que coloca em questão a República. A primeira República, mas qualquer República. Coloca em questão os exclusivismos sociais e problemas de homicídio feminino, por exemplo. Ele tem toda uma série de textos em que chama “Não as matem”, que pede aos maridos e amantes que não matem as suas esposas. Ele tem uma série de textos em que reclama da discriminação quando diz “a capacidade dos negros é medida anteriormente e a dos brancos a posteriori”. Então ele enfrenta temas que são da nossa República falhada, do nosso projeto democrático pouco realizado. Não me parece uma coincidência. Por outro lado, é um autor muito ambivalente. Ele é contra o assassinato das mulheres, mas contra o partido feminista. Ele é contra a Academia Brasileira de Letras, mas tentou entrar [como membro dela] por três vezes. Ele é contra o que ele chama de bovarismo, a influência das ideias estrangeiras, mas ele mesmo se diz um leitor de Gaultier, que escreveu sobre o bovarismo, e um leitor dos russos.

 

Sobre essa ambiguidade e as contradições que você aponta no livro, ligadas ao gosto, aos costumes e às posições políticas. Como você enxerga isso traduzido na obra de Lima Barreto?

Lilia Schwarcz  É impressionante porque nos cursos, ou com nossos críticos literários, citando aqui, por exemplo, Silviano Santiago, que aparece muito no livro, ou com Antonio Candido, a gente aprende que literatura não é consequência, não é arremedo da história, muitas vezes ela é causa, é produtora. E no caso do Lima isso é muito presente. Em primeiro lugar, ele está em todos os seus personagens, de Isaías Caminha a Clara dos Anjos. Mas ao mesmo tempo em que os personagens decorrem dele e da experiência de vida dele, do projeto realista que ele defende para a literatura, ele vive assombrado pelo seus personagens. Ou seja, tem um poder, uma dinâmica que é essa ideia de que a cultura é o que ela produz e a gente vê muito isso no Lima Barreto. Ao mesmo tempo, eu parto do suposto que um pouco da ideia que ficou de República Velha vem do Lima. Então ele é um testemunho tão fundamental que ele construiu de alguma forma a nossa percepção de um momento que não tinha nada de velho. O projeto estava nas ruas. Esse projeto institucional que a gente vê hoje no Brasil, o grande experimento foi no contexto do Lima Barreto.

No livro você fala da evolução do reconhecimento dele como autor. Ao que você credita essa demora?

Lilia Schwarcz  Uma das dúvidas grandes do livro foi em relação à capa e ao título. Eu queria que o título tivesse sempre ambiguidade porque se a gente pode dizer que o Lima foi, sim, uma vítima do seu tempo, ele não foi só isso. Pra mim, nunca foi suficiente ficar com o projeto mais vitimizado do Lima Barreto. Porque ele tinha uma agência, e mais que uma agência, ele tinha um projeto literário, ele construiu uma persona literária. Que personagem é esse que o Lima construiu na República? Um personagem que não deu certo. Mas nem todos os bons projetos dão certo. A gente costuma falar de agência só quando dá certo, mas tem agência que não dá certo. Qual era o projeto do Lima? Um projeto “do contra”. O triste visionário do título está lá porque triste vem de melancólico, vem de uma pessoa cujo projeto não deu certo. Mas triste é uma palavra ambivalente, porque na literatura popular, a gente fala que uma pessoa que é triste é uma pessoa que insiste, que é turrona. Então, a própria palavra triste é ambivalente. A palavra visionário também é ambivalente porque, pra mim, teoricamente, visionário é uma pessoa de visão, mas eu tirei o visionário de uma fala do Floriano Peixoto para o Policarpo Quaresma em que ele diz: “Quaresma tu és um visionário”. Mas ele fala num sentido nada positivo, quase categoria de acusação. Quer dizer uma pessoa que olha muito para frente e não consegue olhar para si, para o seu momento. Então visionário também contempla esses dois lados. Então qual foi a demora? O Lima não cabia em si, na minha opinião. E ele fez um projeto de entrada no circuito literário que era um projeto do contra. Ele até chamava Turma do Contra. Ele tinha dois romances na mão em 1909 prontos. Tinha “Isaías Caminha” e “Vida e Morte de Gonzaga de Sá”. Ele resolveu que não ia publicar o Gonzaga de Sá porque considerava um livro muito calmo, muito plácido e maduro. E que ele ia publicar o “Isaías Caminha”. Ora, o Isaías Caminha é dividido, na minha opinião, em duas partes teóricas. A primeira é uma cacetada na  sociedade brasileira e no preconceito, falando de como uma pessoa ‘de cor’ não consegue entrar na sociedade e tudo mais. Essa parte ficou totalmente esquecida pela crítica, porque a segunda parte era um romance ‘à clef’ contra o jornalismo da época. E o jornalismo fez um veto ao Lima. Tanto que o Lima Barreto publica um manifesto em 1910 onde ele diz: “o que mais me incomoda é o silêncio”.

O segundo livro do Lima Barreto, “Numa e a Ninfa”, é uma cacetada nos políticos. Ele conseguiu angariar outro grupo contra ele. Depois ele tinha uma campanha contra o Coelho Neto (ele até fala “não vamos coelhinizar a sociedade”).  E tem a famosa briga dele com a “Klaxon” [revista de arte moderna que circulou em São Paulo entre 1922 e 23].  Ele recebeu a revista do Sérgio Buarque de Holanda, que era um janota naquela época, não sou só eu que digo, Pedro Meira e eu escrevemos um artigo juntos sobre isso. E criticou o pessoal da “Klaxon” porque ele não gostava de São Paulo, porque achava que eram uns burgueses. O pessoal da “Klaxon” desautorizou o Lima totalmente. O que vai acontecer é que, na crítica literária, o modernismo paulista, que começa muito revolucionário de fato em 1922, mas depois tem um período celebratório em que eles criam  o seu próprio cânone, deslocam o Lima Barreto. Quem chama a atenção disso? Ele e todo esse grupo dele. E isso foi a régua e o compasso do modernismo paulistano.

Francisco de Assis Barbosa, além de escrever uma biografia fundamental nos anos 1950, faz uma operação de resgate do Lima Barreto, publicando todos os seus livros e pedindo para os grandes intelectuais da época comentarem. Então houve um ‘gap’ de 30 anos e nesses 30 anos o Lima Barreto quase desapareceu. Quer dizer, é muito tempo.

 

Você fala, usando uma expressão do próprio Lima Barreto, de uma literatura militante. O que significa essa ideia de literatura militante para ele e o que significa pra você?

Lilia Schwarcz  O Lima Barreto tinha essa posição do intelectual público que não é um costume no Brasil. Ou seja, um intelectual que reage às questões do seu tempo. Ele era um termômetro da primeira República. Ele chama sua literatura de militante em um texto que acabou sendo uma espécie de testamento porque ele ia apresentar esse texto em Mirassol (ele estava lá para se curar da bebedeira e não deu certo). Mas ele nunca chegou a dar essa palestra. E nesse texto ele diz o que é a literatura dele: uma literatura militante no sentido de militar pelos valores que ele considera justos. Ele evoca os russos, uma literatura realista e diz que é preciso saber sofrer com Napoleão e também com o mais pobre. E ele diz que o grande valor da literatura que ele faz é a solidariedade. É um autor que ficou muito tempo no limbo porque a crítica durante um largo tempo dizia que como autor ele tinha muito respaldo na realidade e que isso era falta de imaginação. O próprio Sérgio Buarque de Holanda diz isso na crítica a “Clara dos Anjos”. Quando não me parece falta de imaginação, me parece um projeto literário propriamente dito. E dos mais sofisticados.

 

A gente vive um momento hoje em que a ideia de lugar de fala ganhou relevância e é amplamente debatida. Qual seria seu lugar como uma historiadora e antropóloga branca ao abordar a questão racial em se tratando de um biografado negro?

Lilia Schwarcz  Essa é uma questão sobre a qual pensei e conversei muito, por exemplo, com o Flávio Gomes, que é um historiador negro ou com o João Reis. Penso que esse debate do lugar de fala é um debate importante e que vem muito a calhar. É um debate de inspiração foucaultiana que dá lugar e ensejo a uma pluralidade de vozes da maior importância. Por isso digo que esse livro não é uma biografia definitiva. Cada biógrafo pergunta ao seu objeto uma questão diferente. Eu venho trabalhando com questão racial desde que comecei a minha vida acadêmica. Em uma época, inclusive, em que isso era considerado um não-tema. Eu lembro que quando publiquei “Retrato em branco e negro” ou mesmo “Espetáculo das raças”, discutir a questão racial no Brasil era quase que falar de um não-lugar. O suposto é que não existia problema racial no Brasil e que isso não era uma questão. No momento em que este livro sai já vivemos em outro contexto. Um contexto em que a questão racial e o fato de o Brasil praticar um racismo estrutural são temas. Não digo que resolvemos o problema, muito pelo contrário, mas o tema tem maior reconhecimento. Qual é o nosso ‘gap’ Republicano no que se refere à questão racial é uma questão fundamental para o Brasil agora. E o meu lugar de fala é o lugar de uma intelectual branca mulher, que se encantou com o Lima Barreto há muito tempo. E eu parto também do suposto de que a questão racial não é uma questão só dos negros. São eles que sofrem mais, mas eu penso que ela é uma questão de todos. E acho que o meu papel é um pouco esse, mostrar que esse é um tema da nossa realidade como brasileiros. Não é um tema que faz parte de um segmento. Porque eu penso que se interessar apenas aos afrodescendentes nunca vamos conseguir transformar de fato em uma questão nacional. A sociedade brasileira tem que se organizar para lidar com isso. Quando escrevi “Brasil: uma biografia” chamei muita atenção para os dados estruturais do Brasil e que, como todo dado estrutural, é também muito silencioso porque é muito difícil de falar sobre. Faz ruído, mas é silencioso. A gente olha mas não vê. E acho que o Lima Barreto é um bom autor para esse momento. Mas não acho que [o livro] seja só sobre questão racial. É muito importante, a questão racial tem um capítulo inteiro que se chama “Clara dos anjos ou as cores do Lima” em que eu mostro como ele tem uma insistência em descrever a sua própria cor e a cor dos outros e qual é a importância de se pensar em cor como um marcador social de diferença. Mas é um livro também sobre gênero. Lima Barreto foi um solteirão, teve muitos problemas nesse departamento. É um livro sobre região, Lima Barreto traz um Rio de Janeiro mais alargado. Ele é um escritor do Rio de Janeiro capital, do centro, como se falava na época, mas é um escritor que inclui os subúrbios, e é um texto sobre geração porque Lima Barreto durante muito tempo falou de um lugar de geração: dos jovens. Então o lugar que ele assume quando publica “Isaías Caminha” e publica sua revista “Floreal” é o lugar que ele mantém. Ele se considera velho quando entra nos 40, quando ele se aposenta, e aí falta um ano para ele falecer e ele não sabia. Mas até então ele fala de um lugar de geração. Dos jovens que interpelam a Academia. Então acho que é um livro que tem muitas entradas, não só a questão racial.

 

Você vai fazer a palestra de abertura da Flip em uma Flip que homenageia pela primeira vez um autor negro depois de muitos anos de debate e cobrança nesse sentido. Você enxerga isso como um avanço ou como um sintoma de como ainda estamos presos a uma armadilha no que diz respeito ao racismo e a própria questão racial?

Lilia Schwarcz  É uma ótima pergunta. Eu digo na introdução do livro que a gente tem que justificar porque existe uma ligação profunda entre o Lima Barreto, o Luís Gama, o Zé do Patrocínio e Cruz e Souza. Mas a gente não discute o outro lado. Seria quase uma obviedade falar literatura branca, tanto que ninguém fala. A gente fala literatura negra, mas o contrário não existe. Quando o contrário não existe, quando sobra muito silêncio, é porque tem muito problema. Acho que não me perguntariam tanto se fosse um autor branco e acho que essa já é uma resposta, um sintoma. É uma causa e uma consequência de novo. Eu penso que há muito tempo que se pede para que Lima Barreto entrasse na Flip. Demorou muito e essa demora é muito significativa. E algumas pessoas me perguntam assim: então com a Flip ele vai entrar no cânone. E eu falo: não, ele vai entrar por méritos próprios. Ou seja, não é a Flip que tem essa capacidade. E acho que agora estamos conseguindo dar conta de um autor que é múltiplo. Porque ele não é só romancista, ele é sobretudo jornalista, cronista e sempre foi isso tudo ao mesmo tempo e de tal maneira que às vezes ele até ficcionaliza a sua vida, o que é muito interessante. Mas eu acho que o que está acontecendo agora é o contrário. O Lima Barreto se impôs a todos nós. Se impôs por causa desse momento que a gente vê. E acho que um outro lado do visionário é o lado do Lima Barreto com a definição que o Oliveira Lima deu na única resenha que o Lima pôde ler em vida. Ele chamou o Policarpo Quaresma de Dom Quixote brasileiro. E eu acho que o Lima está em todos os seus personagens, mas no Policarpo Quaresma é inacreditável, e ele tinha esse lado Dom Quixote. Ou seja, ao mesmo tempo em que ele era um visionário que via monstros nos moinhos, ele tinha capacidade de ver como o moinho fazia vento. Ou ele era o próprio Quaresma, no sentido de deixar brotar. Então acho que é sintoma e também é causa, ou seja, é o nosso momento que vai pedindo um autor como o Lima Barreto.

O livro traz um trabalho rigoroso e extenso de pesquisa. É um livro para pesquisadores ou para um público não especializado?

Eu acho que primeiro escrevi para mim mesma. Quando acabei “Brasil: uma biografia” eu dizia que estava grávida do livro porque Heloísa [Starling] e eu tivemos que ficar lançando, fazendo palestras, etc. Chegou um momento em que eu falei: não quero mais, quero escrever. Então eu escrevi uma primeira versão desse livro totalmente desajuízada em três meses. Quando você tem um autor que tem uma biografia e tem estudiosos tão fundamentais, como é o caso do Lima, você tem que testar primeiro. Por isso para mim mesma, para ver se tinha algo a dizer que ninguém já havia dito. Porque se você for dizer de novo já não vale a pena. Eu testei, coloquei aqueles documentos e falei: acho que tenho. Depois disso você vai trabalhando com várias perspectivas. Eu sou uma acadêmica e trabalho em um grupo, que é o Numas [Núcleo de Estudos sobre Marcadores Sociais da Diferença], e já tinha publicado alguns artigos em revistas acadêmicas [sobre o assunto], então eu tinha de um lado o desafio intelectual de fazer uma biografia com esses conceitos teóricos. Ou seja, eu tinha o desafio intelectual de que uma biografia não é um projeto só diacrônico, uma biografia tem, sim, momentos sincrônicos e mais: uma biografia não é um projeto encadeado. Na minha opinião, esse projeto tão encadeado e evolutivo, de alguma maneira, é um projeto quase ficcional. Eu não vejo problema, mas é ficcional. Aprendi a pensar no grupo do qual fiz parte com o Sérgio Miceli que a biografia não é projeto de consagração e biografia também não é uma avenida, como a gente já dizia no “Brasil: uma biografia”. Você tem muitos impasses, às vezes um personagem como Lima você pensa “ele falou tudo o que eu queria”. Às vezes você pensa: “não, o que ele está falando aqui?” Então eu tinha essa preocupação acadêmica, e tinha uma preocupação como antropóloga, achava que podia dar mais voz ao Lima do que o Francisco de Assis Barbosa tinha feito. E isso não é um problema do Francisco de novo, isso é um desafio meu como antropóloga. Quando você me pergunta o lugar de fala, um dos lugares de fala é o próprio Lima. Acho que o leitor vai reconhecer como ele está presente em todos os textos, eu embolo a minha escrita com a escrita dele, deixo ele falar e reclamar. E aí eu tenho me colocado um pouco e tenho escrito no Nexo, não só sobre temas do meu terreno seguro, mas temas do nosso cotidiano que anda tão castigado, que anda tão dolorido. Tem também uma questão quando você tenta falar para um público maior, e eu já tinha feito isso com a Heloísa no “Brasil: uma biografia” que é: como é que você consegue fazer uma biografia que alcance um público maior do que os seus especialistas sem desagradar os especialistas? Porque eles têm que estar lá também. Você não pode dizer que você descobriu [um tema] — e todo mundo tem essa visão romântica do pesquisador como se ele um dia estivesse em sua cama e tivesse dito: eureca, descobri Lima Barreto. E não é assim. Como é que você faz isso sendo, não generosa, mas correta com as pessoas que já trabalharam o seu autor e ao mesmo tempo incluindo mais gente nessa sua conversa, nessa discussão? A editora teve um papel fundamental nisso, o Luiz [Schwarcz, marido de Lilia e proprietário da Companhia das Letras] tem um papel fundamental. Toda vez que eu, como ele brinca comigo, falei demais em “academices”, ele fala: cortado, vamos falar de outro jeito. E eu fico feliz de você ter perguntado porque a minha ambição maior era fazer um livro que fosse muito legível, mas ao mesmo tempo que o leitor se sentisse interpelado, ou seja, eu começo me colocando no livro e dizendo: olha, não existe uma única biografia. E termino incluindo o Francisco de Assis Barbosa na biografia, ou seja, incluindo o grande biógrafo do Lima na biografia do Lima, porque ele é um lugar de memória, como o Lima é, ele é um colecionador e como a Biblioteca Nacional coleciona esses documentos todos e eu como biógrafa também sou uma colecionadora. Então, como é que você faz um livro legível, mas que ao mesmo tempo não permita que o seu leitor caia na mágica e na quimera em achar que a vida de um personagem como Lima é uma vida mais límpida do que a nossa? Não é. E ele também é assim. Às vezes ele dá um orgulho danado, mas às vezes você fala ‘ah Lima, como é que é?’

Colaboraram:

Vídeos por Ricardo Monteiro

Direção de arte por Guilherme Falcão

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