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O que está em jogo na crise do Carnaval do Rio, segundo este historiador

Para Luiz Antonio Simas, desfile de 2018 vai acontecer mesmo com redução de verba. Momento deve servir para escolas de samba se reinventarem

    O Carnaval é uma instituição da cultura carioca. É, também, o principal chamariz para o turismo no Rio de Janeiro: em 2017, 1 milhão de pessoas visitaram a cidade até 11 de fevereiro, movimentando R$ 3 bilhões, segundo dados da prefeitura.  

    Uma das principais atrações da festa, no entanto, o tradicional desfile das escolas de samba na Marquês de Sapucaí, está no centro de uma crise, sob ameaça de não ocorrer em 2018. É que, em 12 de junho, o prefeito Marcelo Crivella (PRB), anunciou oficialmente os planos de reduzir pela metade, em relação ao ano anterior, o dinheiro destinado às escolas de samba da cidade. A ideia de Crivella é redirecionar os recursos à educação municipal, para a manutenção de creches.

    A medida foi recebida com surpresa e indignação pela Liga Independente das Escolas de Samba, associação que reúne as principais agremiações cariocas e organiza o desfile de Carnaval no Sambódromo — e que havia apoiado Crivella nas eleições de 2016. Diante da medida municipal, a liga anunciou a suspensão do desfile.

    Pela proposta da prefeitura, as 13 escolas de samba do Grupo Especial — a primeira divisão do Carnaval carioca — vão receber R$ 1 milhão cada uma para ajudar na preparação do desfile de 2018. Em 2016, elas haviam recebido o dobro: R$ 2 milhões, que foram usados no desfile de 2017.

    Segundo o jornal “Folha de S.Paulo”, as escolas do Grupo Especial receberam no total R$ 6 milhões em 2017, entre subvenção da prefeitura, venda de ingressos, direitos de imagem de televisão e ainda venda de CDs e eventos nas quadras das agremiações ao longo do ano. A prestação de contas das escolas é pouco transparente e já motivou algumas ações por parte do Ministério Público do Rio.

    Mesmo após protestos organizados pela Liga Independente das Escolas de Samba, Crivella manteve, na segunda-feira (19), a decisão de reduzir a subvenção. No Facebook, o secretário municipal de Educação, Cesar Benjamin, defendeu a medida.

    Crivella é sobrinho de Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus, pela qual foi consagrado bispo. No início do ano não compareceu ao Sambódromo, quebrando uma tradição de prefeitos cariocas. Ele nega que o corte de verbas para o Carnaval tenha motivação religiosa.

    A empresa municipal de turismo havia chamado representantes das escolas de samba nesta terça-feira (20) para uma reunião a fim de discutir alternativas de patrocínio, mas o encontro foi cancelado pelas agremiações. De acordo com o jornal “O Globo”, as escolas de samba das divisões inferiores do Carnaval também vão ter corte, de valor ainda indefinido, no orçamento de 2018.

    Para entender o que está em jogo nessa discussão entre prefeitura e escolas de samba, o Nexo conversou com o professor Luiz Antonio Simas, mestre em história social pela UFRJ. Ele é coautor, com Nei Lopes, de o “Dicionário da história social do samba”, vencedor do Prêmio Jabuti de 2016 na categoria teoria e crítica literária.

    A quem exatamente o corte de verbas afeta?

    Luiz Antonio Simas Com certeza é um corte mais dramático para as escolas de samba do grupo de acesso. Porque o grupo especial tem um poder de barganha com entes privados para se financiar. Já as escolas do acesso, das outras divisões, não. Então o maior drama nessa crise é para as escolas menores, que não estão no holofote da mídia, que não têm muitas alternativas para conseguir dinheiro.

    E o desfile de 2018 está mesmo ameaçado de não acontecer?

    Luiz Antonio Simas As agremiações da Liga Independente das Escolas de Samba, ao que me parece, ao anunciar a suspensão do desfile, estão puxando o debate para  a indústria do turismo, para colocar o prefeito em xeque com os inúmeros negócios que envolvem o desfile e lucram com a festa. Elas estão tensionando a discussão para chamar a atenção da rede hoteleira e da televisão ou das cervejarias, com quem têm contrato. É uma queda de braço com a prefeitura, que é legítima. Mas, no fim, vai ter desfile, sim, claro. As escolas de samba sempre operaram nesse espaço de negociação com governos e, mais recentemente, de empresas.

    E como na história as escolas de samba se arranjaram para se financiar?

    Luiz Antonio Simas De diversas maneiras. As escolas de samba sempre estiveram ligadas às comunidades em que nasceram, mas sempre dialogaram com fatores aparentemente externos para se viabilizar, como o poder público, o setor de turismo e mesmo a contravenção. Não tem um modelo só. Desde 1935, com o prefeito Pedro Ernesto, o governo começou a subvencionar. Já nas décadas de 1990 e 2000, foi comum as escolas negociarem seus enredos para o desfile com empresas e mesmo prefeituras de outras cidades. Esse fluxo de capital sempre foi e ainda é muito nebuloso. Acho que esse momento de crise agora é uma oportunidade de abrir a caixa-preta do financiamento das escolas de samba.

    Você defende a ideia que as escolas de samba devem ser vistas como entidades ligadas mais à cultura que ao turismo. Por quê?

    Luiz Antonio Simas O deslocamento do lugar das escolas de samba da cultura para o turismo é complicado. O órgão que cuida delas, por exemplo, é a Riotur [empresa municipal de turismo], não a Secretaria de Cultura. E mesmo a imprensa não trata o desfile de Carnaval nas páginas de cultura. Assim, defendo a ideia de que você tem que encontrar um meio-termo no modo como o governo lida com a questão, que claro, movimenta o turismo.

    O fundamental é que as próprias escolas tenham a consciência cristalina de que são instituições prioritariamente culturais. Não proponho que elas se fechem em um casulo nas comunidades, as escolas não vão voltar à década de 1930. Mas o maior capital das escolas de samba é o capital simbólico. Elas estão profundamente ligadas à história e à cultura popular do Rio de Janeiro. E têm que saber resgatar isso e buscar nessa história sua reinvenção neste momento.

    Em que medida essa crise se deve à falta de organização das próprias escolas?

    Luiz Antonio Simas Em larga medida. Não podemos cair na falsa dicotomia de que criticar a prefeitura neste caso é defender os gestores do Carnaval. É bom lembrar: existem problemas muito sérios na gestão do Carnaval das escolas de samba — problemas de estrutura, de segurança, de origem e gestão das verbas. E também as agremiações apostaram no modelo elitizado e espetacular de desfile no Sambódromo. Agora, sem dinheiro, têm que se reinventar.

    Mas também não dá para aceitar os argumentos falaciosos da prefeitura de que vai dar dinheiro do Carnaval para creche. Isso é um binarismo, uma tentativa de demonizar a festa. Não tem santo nessa briga.

    O prefeito diz que o corte não tem motivação religiosa. Qual sua opinião sobre isso?

    Luiz Antonio Simas É no mínimo estranho essa decisão do prefeito não ter um substrato religioso. As coisas não se excluem: de um lado, você tem a economia do Carnaval que está sendo disputada. Do outro, tem também um campo simbólico. O prefeito está vinculado a uma parte de seu eleitorado, que tem pautas reacionárias, ligadas à Igreja Universal do Reino de Deus, um fato que precisa ser levado em consideração. Quer dizer, esta crise no Carnaval é complexa: não é só econômica, não é só simbólica.

    No Facebook, Cesar Benjamin, secretário de Educação, justificou o corte. Disse ainda que as escolas são controladas por quem pratica contravenção. Qual é o papel dos bicheiros nas agremiações?

    Luiz Antonio Simas Essa interpretação é um desconhecimento absoluto da história e do cenário das escolas de samba cariocas. Temos mais de 80 escolas de samba, e bem menos da metade, talvez umas dez estejam ligadas a algum tipo de contravenção. A maioria não está. Não dá para entender o todo pela parte. Quem fala que o samba no Rio é comandado pelo jogo do bicho não conhece o dia a dia das escolas, a história, as entranhas da coisa. Para falar tem que conhecer. E como se a política institucional tivesse moral para falar sobre contravenção neste momento… Essa visão é preconceituosa, olha para as escolas de samba como se fossem um corpo putrefato à parte da sociedade.

    Qual é o papel hoje das escolas de samba nas comunidades cariocas?

    Luiz Antonio Simas É um papel que poderia ser mais efetivo. Mas é melhor do que há 15 anos. Hoje, vejo as escolas voltando a funcionar um pouco mais como aglutinadoras de comunidade. A maioria ainda não é. Mas olho, por exemplo, para a Portela como um caso positivo. Eles têm um trabalho cotidiano de inserção cultural em Madureira, fazendo uso da quadra da escola como um equipamento cultural de ponta ao longo do ano. O Salgueiro tem feito isso também. Mas, de novo, é um quadro complexo, não dá para analisar as escolas em bloco. Elas são organismos vivos. Há peculiaridades de cada uma.

    Agora, com certeza, esse debate sobre o papel comunitário das escolas é muito mais vivo do que 15 anos atrás. Outro exemplo é a integração da Vila Isabel com o bairro. Tomara que essa crise atual desperte a consciência de que o caminho da reinvenção é um mergulho nas raízes das comunidades.

    Você afirma também que as escolas precisam se reinventar olhando para o passado. Como fazer isso?

    Luiz Antonio Simas Não é um olhar estático, da história de museu. É um olhar para entender que as escolas de samba são tributárias de uma tradição, mas que têm que apontar para frente. Elas sempre tiveram capacidade de se adaptar de acordo com a circunstância. O momento atual é de reinvenção pela crise. Espero que desperte uma consciência crítica sobre o que as escolas são hoje e elas mudem a partir de suas próprias entranhas.

    A volta do Carnaval de rua roubou espaço do Carnaval das escolas?

    Luiz Antonio Simas Não sei se roubou o espaço. Do ponto de vista midiático, talvez. Mas a realidade das escolas de samba é ainda muito pulsante e importante na cultura. Nos últimos anos, a qualidade dos enredos melhorou bastante: são mais interessantes, mais autorais. Tem um movimento de escolas de samba mirins que é muito vivo no Rio de Janeiro. E ainda acho que as escolas de samba têm uma função de trabalhar com uma certa pedagogia, de lidar com a história do Brasil em chave popular, trazendo temas importantes. Este ano, por exemplo, a Renascer de Jacarepaguá veio com um enredo lindo, falou de João Candido e Carolina Maria de Jesus. Para o ano que vem, o Salgueiro vai falar das “Senhoras do ventre do mundo”, as matriarcas negras da África. A Portela terá o enredo belíssimo sobre judeus que foram para Nova York saindo de Pernambuco. Ou seja, tem muito caldo para espremer, tem muito vigor no Carnaval, mas as escolas têm que ter consciência do papel que elas representam.

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