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Como a Virada Cultural revela a cidade a seus habitantes, segundo este antropólogo

Longe do centro, porém, vivência do espaço público é enfraquecida, segundo o professor Heitor Frúgoli Jr., em entrevista ao ‘Nexo’

     

    Constantemente repensada ao longo dos seus 12 anos de existência, sobretudo no aspecto de sua concentração no centro da cidade, a Virada Cultural paulistana chega a mais uma edição no fim de semana de 20 e 21 de maio de 2017. É a primeira sob a gestão de João Doria (PSDB).

    No final de 2016, o prefeito recém-eleito anunciou uma mudança que levaria o evento para o Autódromo de Interlagos, na zona sul da capital. Intensamente criticada por artistas e urbanistas, a decisão foi matizada pelo secretário de cultura André Sturm, que disse que a intenção era tirar apenas os grandes palcos do centro, mantendo outras atrações.

    A promessa foi cumprida: artistas se apresentarão em 30 tablados de elevação rente à rua no centro da cidade, segundo uma reportagem do jornal “O Estado de S. Paulo”. A ideia, segundo Sturm é “evitar as zonas sombrias” e incentivar as pessoas a passearem pelo centro, em vez de se concentrarem em um grande palco.

    As atrações maiores, que antes abriam e fechavam oficialmente a Virada em shows no Palco Júlio Prestes, foram pulverizadas para outras regiões: o Sambódromo do Anhembi, na zona norte, O Parque do Carmo, à leste e o Autódromo, na zona sul.

    Em entrevista ao Nexo, Heitor Frúgoli Jr., professor do Departamento de Antropologia da FFLCH-USP e coordenador do Grupo de Estudos de Antropologia da Cidade (o Geac-USP) discute ideias como espaço público, direito à cultura e à cidade e o papel da Virada na relação entre a cidade e seus habitantes:

    A Virada Cultural terá suas maiores atrações deslocadas para espaços distantes do centro, como o Autódromo e a Chácara do Jóquei. Isso impacta o evento?

    Heitor Frúgoli Jr. Se pensarmos na Virada Cultural como uma experiência urbana assinalada pela concentração temporal e espacial de eventos culturais numa área específica da metrópole, no caso a região central (marcada por certa infraestrutura de transporte e por vários espaços públicos disponíveis), tal espraiamento tende a enfraquecer essa vivência. O ideal é que também se tenha eventos em áreas mais periféricas, mas sem o sacrifício dessa densidade já mencionada. A concentração de pessoas que ocorre na Virada permite que se perceba tendências socioculturais mais amplas, presentes nas práticas corporais, performances e manifestações políticas (mesmo que apenas implícitas). Ademais, o Autódromo e a Chácara do Jóquei são espaços fechados, sem a mesma ambiência urbana.

    Em sua história, a Virada contribuiu para ressignificar o centro de São Paulo para os paulistanos? Como?

    Heitor Frúgoli Jr. Sem dúvida. É importante frisar que milhares de pessoas acabam por circular por espaços urbanos, em horários nos quais normalmente não o fariam. Claro que os mais jovens podem fazer isso em certos casos, mas sem que tais práticas demarquem uma experiência citadina mais abrangente. Decorrem daí uma série de interações, descobertas e trocas incomuns para muitos, nas caminhadas e derivas pelas ruas. Para além da força presente nas apresentações artísticas, o próprio contexto urbano se torna um cenário de vivências, normalmente dificultadas pelo cotidiano. Numa cidade como São Paulo, marcada por tantos obstáculos para um uso mais regular e pleno das ruas, e pelo primado dos automóveis, isso não é pouco.

    A ideia de oferecer programação cultural gratuita na rua passa por reivindicações como direito à cidade e à cultura. O evento serve a esse propósito?

    Heitor Frúgoli Jr. Há sempre escolhas, com ganhos e perdas decorrentes. A concentração significativa de recursos num único evento (de 24h) ao longo do ano acaba por se tornar algo muito pontual, ainda que, como já dito, propicie uma experiência bastante peculiar. De certo modo, e guardadas as diferenças, isso se aproximaria do carnaval, evento que também só acontece uma vez por ano (vale um comentário à parte: o carnaval de rua paulistano dos últimos anos, dentre seus vários significados, traz consigo uma dimensão de ocupação festiva pedestre das ruas, fundamental para a cidade). Mas como já disse, torna-se possível uma experiência citadina assinalável, quase como se a própria cidade se revelasse a seus habitantes.

    O que a ausência de atrações semelhantes na rua ao longo do ano diz sobre a relação das pessoas com o espaço público na maior cidade do país?

    Heitor Frúgoli Jr. Evidentemente isso revela uma carência, mas é importante frisar que nos últimos anos nossa cidade vem sendo ocupada coletivamente de múltiplas formas, e com diversos fins. Deve-se, é claro, demandar do poder público uma agenda de política cultural consistente, mas há muitos agrupamentos coletivos que têm se apropriado de espaços para uma série de práticas culturais associadas a fins políticos. Nesse sentido, a própria noção de espaço público tem passado por mudanças significativas. Fiquemos, para encerrar, nos exemplos de lugares que têm se tornado “parques” aos fins de semana, como a Av. Paulista e o Minhocão, algo que resultou de demandas de coletivos com certa resposta satisfatória pelo poder público, com a ampliação de usos do espaço.

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