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Os tipos de cidades do mundo e as políticas públicas para seu desenvolvimento

Diretor global do World Resources Institute, Aniruddha Dasgupta fala sobre como construir cidades prósperas

    Cidades são classificadas, no geral, por seu tamanho ou nível socioeconômico. Para o urbanista indiano Aniruddha Dasgupta, porém, a classificação deve ser feita de acordo com as perspectivas futuras desses locais.

    Isso porque, segundo levantamento do WRI (World Resources Institute), instituto em que atua, espera-se que até 2050 a população mundial urbana cresça 60% em relação à atual — o que corresponde a cerca de 2,5 bilhões de pessoas a mais. Grande parte desse crescimento (90%) acontecerá em centros urbanos de baixa renda da Ásia e da África e, segundo perspectivas, estima-se que boa parte dessa população permaneça na linha da pobreza. 

    Segundo Dasgupta, o grande desafio das cidades é elaborar estratégias de longo prazo hoje para reverter o ciclo negativo previsto para as próximas décadas. Seu trabalho no WRI consiste em realizar pesquisas e formas de aplicação para construir essas cidades mais sustentáveis.

    Para tanto, um recente estudo publicado pelo instituto dividiu as principais cidades do mundo segundo a produtividade e suas perspectivas de crescimento nos próximos 15 anos, criando quatro categorias: cidades em dificuldade, cidades emergentes, cidades estáveis e cidades prósperas. 

    A partir disso, a pesquisa chegou a alguns pontos fundamentais que devem ser priorizados por governos locais, em particular os das cidades em dificuldade e emergentes, para que revertam suas trajetórias de desenvolvimento, fornecendo os serviços básicos a todos os cidadãos e garantindo o bem-estar da população.

    Os quatro tipos de cidade

    Cidades em dificuldade

    Cidades com baixo PIB per capita, que nos próximos anos terão um grande crescimento populacional, não acompanhado de um crescimento econômico. Nessa categoria, estão principalmente cidades da África subsaariana, norte da África, Oriente Médio, América Latina e Caribe. Exemplos são Alexandria (Egito), Lagos (Nigéria), Nairóbi (Quênia) e Tijuana (México).

    Nairóbi (Quênia)

    Cidades emergentes

    Projeta-se que essas cidades, hoje com baixo PIB per capita, passem por um crescimento econômico maior que o crescimento populacional. Essas cidades aparentam ter uma capacidade maior de superar a falta de recursos e serviços básicos que apresentam atualmente. Elas estão no leste e sul da Ásia, Europa, América Latina e Caribe. Exemplos são Phnom Penh (Camboja), Belgrado (Sérvia), Surabaia (Indonésia), Mumbai (Índia), Lima (Peru), Quito (Equador) e Medellín (Colômbia).

    Surabaia (Indonésia)

    Cidades estáveis

    São cidades economicamente fortes hoje, com um PIB per capita elevado. No entanto, projeta-se que o crescimento econômico dessas cidades nos próximos anos seja menor que o crescimento populacional. Há cidades assim na América do Norte, América Latina e no Oriente Médio, como Toronto (Canadá), Austin (EUA), Brasília (Brasil) e Dubai (Emirados Árabes Unidos).

    Brasília (Brasil)

    Cidades prósperas

    Cidades ricas hoje e com projeção de crescimento do PIB maior do que o crescimento populacional. Elas estão no leste da Ásia, Europa, Ásia Central, América do Norte, América Latina e Caribe. Exemplos são Pequim (China), Bangcoc (Tailândia), Berlim (Alemanha), Boston (EUA), Belo Horizonte (Brasil) e Buenos Aires (Argentina).

    Cidade do México (México)

    Formado em planejamento urbano e arquitetura pelo MIT (Massachusetts Institute of Technology), Dasgupta é hoje diretor geral do WRI. Ele esteve no Brasil no final de abril para participar do Encontro dos Municípios com o Desenvolvimento Sustentável, que aconteceu em Brasília, e falou ao Nexo sobre as principais dificuldades das cidades do futuro, soluções e estratégias de desenvolvimento.

    Qual é a diferença entre as cidades em processo de urbanização agora em comparação com cidades formadas no passado?

    Aniruddha Dasgupta Nos últimos 30, 50 anos, a população mundial urbana cresceu muito. Mas historicamente vimos a urbanização muito conectada ao crescimento econômico. Essa correlação é um pouco diferente de país a país, mas é mais ou menos significante.

    O que vai acontecer é que nos próximos 20 anos, bilhões de pessoas irão para cidades, especialmente em regiões da África subsaariana e da Ásia, e muitas dessas pessoas viverão em condições de pobreza. Há, claro, pobreza nos centros urbanos de todo o mundo, mas o que vai acontecer é que haverá cidades crescendo muito em tamanho, mas sem o crescimento socioeconômico.

    O desafio fundamental de que todos nós devemos estar cientes é saber como fazer a cidade caminhar para além disso e não entrar em um ciclo negativo. Nosso trabalho e nossas pesquisas estão voltadas a aprender como mudar esse ciclo negativo para um positivo e construir espaços urbanos mais sustentáveis.

    Como você pode reproduzir estratégias usadas em cidades consideradas bem-sucedidas em um novo contexto?

    Aniruddha Dasgupta Temos trabalhado muito em tentar responder essa questão e chegamos a alguns resultados. Em primeiro lugar, encontramos pelo mundo cidades cuja economia florescente deve criar trabalhos. Bons trabalhos, não apenas ocupações por haver um monte de pessoas mudando para as cidades. Em segundo lugar, as cidades precisam ficar atentas com suas pegadas de carbono. Veja Pequim, por exemplo, que é uma cidade fantástica e bem-sucedida. A qualidade do ar na cidade custa à cidade de 10% a 12% de seu PIB, devido à poluição, que gera gastos com o sistema de saúde, que acabam por derrubar a economia local. Em terceiro lugar, deve estar o bem-estar humano.  

    Nós achamos que há três elementos fundamentais, considerados por nós a coluna dorsal das cidades. Primeiro, mobilidade, fazer as pessoas irem de um lugar para outro, de suas casas para seus empregos, para seus trabalhos, escolas, hospitais, de forma sustentável. Em segundo lugar, precisamos que as cidades tenham um planejamento que permita a elas desenvolverem uma identidade, que haja bairros centrais com misturas de renda. Há muitas pessoas de baixa renda que acabam vivendo a quilômetros e quilômetros de distância do centro onde trabalham. Isso é comum em cidades em todo o mundo, inclusive no Brasil. Por fim, é necessário também ter estratégias de utilização de energia de forma eficiente. Nossa missão é ajudar as cidades a priorizarem esses três aspectos, que estão de certa forma interconectados.

    Como podemos garantir que políticas públicas para as cidades sobrevivam à troca de governos?

    Aniruddha Dasgupta Há ciclo de eleições e mudança de prefeitos em todos os lugares e uma coisa que aprendemos com nosso trabalho é que funciona criar uma espécie de coalizão para a mudança. Isso inclui o prefeito da cidade, a assembleia legislativa, os conselhos, a sociedade civil e os empresários. Essa coalizão de fato empurra reformas para frente.

    Isso funcionou na Cidade do México para mudar o sistema de transporte, mas também em cidades desenvolvidas, como Londres e Amsterdã. Elas não eram tão sustentáveis e boas como são agora. Amsterdã é um bom exemplo. Há 30 anos eles decidiram mudar e essa não foi uma decisão apenas dos políticos, mas uma decisão que envolveu os cidadãos. Envolver a população é fundamental.

    Como as cidades brasileiras se encaixam no modelo de cidades?

    Aniruddha Dasgupta Vejo duas coisas acontecendo nas cidades brasileiras. A primeira é que há cidades de fato tentando fazer a coisa certa. Há muita conscientização no Brasil sobre como construir uma cidade mais centrada no cidadão e não em carros. A segunda questão é que o Brasil é um país bastante urbanizado e com um problema fundamental de desigualdade e isso é muito crítico para o sucesso futuro de suas cidades. Então embora haja muitas cidades fazendo a coisa certa, há ainda muito por se fazer e esperamos conectar e ajudar os governos locais com isso.

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