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Como armas químicas são usadas na Síria e ao longo da hist��ria, segundo esta especialista

Suspeita é de uso de gás sarin em ação que matou dezenas de civis. Episódio é classificado como ‘crime de guerra’. Bioquímica Camilla Colasso fala das propriedades desses armamentos e de seu uso desde a pré-história

     

    Pelo menos 70 pessoas morreram e outras 100 foram hospitalizadas depois que uma série de bombardeios aéreos conduzidos por forças do governo sírio liberaram uma nuvem química sobre a população civil, atingindo sobretudo crianças, na cidade de Khan Sheikhun, localizada na Província de Idlib, no noroeste da Síria, fronteira com a Turquia, na terça-feira (4).

    Mapa do ataque
     

    A ação foi classificada como um ataque deliberado com armas químicas - e, portanto, um “crime de guerra”, atribuído ao governo sírio - pela maior parte dos membros do Conselho de Segurança das Nações Unidas: EUA, Reino Unido e França.

    Já o governo sírio culpou grupos rebeldes pela ação. E a Rússia, que também é membro do Conselho de Segurança, além de aliada do presidente sírio, Bashar al-Assad, levantou a hipótese de que os bombardeios aéreos tenham atingido um depósito de substâncias químicas que pertenciam a grupos rebeldes em Idlib.

    O choque de versões reproduz a dinâmica que mantém a Síria imersa num conflito armado que vem de 2011, com grupos rebeldes e forças do governo se enfrentando no conflito mais sangrento da atualidade, enquanto potências globais e regionais subvencionam as partes com apoio logístico, informação, armas, munição e respaldo político.

    Essa não foi a única vez em que se falou no uso de armas químicas na Síria. Desde o início do conflito, governo e oposição trocam acusações sobre ataques semelhantes. As vítimas, no entanto, estão sempre situadas nas áreas controladas pelos rebeldes.

    Abaixo, o Nexo traz uma entrevista com a bioquímica Camilla Colasso, especialista em gerenciamento de risco químico e toxicológico e em armas químicas de guerra, da consultoria Intertox.

    As imagens e relatos disponíveis permitem afirmar com precisão que se trata de ataque químico?

    Camilla Colasso De acordo com as imagens e vídeos disponibilizados, é muito provável que tenha sido empregadas armas químicas, devido aos sintomas e efeitos apresentados pelas vítimas, pois armas convencionais e biológicas não apresentam tais efeitos.​

    Quais os efeitos desse tipo de armas no corpo humano?

    Camilla Colasso Depende da arma química utilizada. Temos as seguintes classes de armas químicas: neurotóxicos (sarin, tabun, VX), sufocantes (cloro, fosgênio, clorpicrina), sanguíneos (​cloreto de cianogênio e cianeto de hidrogênio), vesicantes (mostardas e levisita) e as toxinas (ricina e saxitoxina). Cada arma química apresenta um mecanismo de ação e efeitos específicos.

    ​Suspeita-se que tenha sido utilizado o sarin na Síria. Esse agente age no sistema nervoso central e inibe a ação de uma enzima chamada acetilcolinesterase, o que provoca o quadro de intoxicação. Sarin é um composto organofosforado empregado somente como arma química. Ele ​foi sintetizado em 1937, na Alemanha. É uma substância com alta letalidade. A exposição ao ​agente provoca diversos efeitos​,​ e​ dependerá de sua concentração no ar.

    O sarin é um líquid​o​ incolor e inodoro, extremamente volátil, e empregado na forma de gás. Em doses elevadas, provoca espasmos musculares, sudoreses, salivação excessiva, dificuldade de respiração, convulsão, depressão do centro respiratório e morte.

    A sra. poderia nos ajudar a entender o alcance dessas armas, em termos de metros ou quilômetros quadrados? Pessoas podem se proteger dentro das casas, fechando portas e janelas? Ou é impossível escapar?

    Camilla Colasso Trata-se de uso de uma substância química​​ com o intuito de provocar a morte. O composto, ​apesar de ​ser tratado como g​á​s, ​é​ líquido à temperatura​ ambiente e bastante volát​il. Quando empregado em ataques terroristas ficam na forma de ​​gás. E​sse gás se dispersa no meio ambiente, e se espalha facilmente devido a alta volatilidade. Não é possível estimar o alcance, porque dependerá da quantidade ​do sarin ​utilizad​o, para fazer os cálculos. Outra dificuldade para a percepção da exposição ao ​sarin é o fato de ​ser incolor e inodoro. As pessoas inala​m e co​meçam a ​sentir-se mal.

    Há um debate agora sobre a autoria do ataque. Alguns analistas dizem que só uma força armada estruturada como a força síria poderia ter acesso a esse tipo de arma. Trata-se, de fato, de um tipo de recurso sofisticado e caro? Ou é algo acessível a qualquer grupo armado?

    Camilla Colasso ​Alguns compostos químicos empregados em ataques terroristas são amplamente utilizados industrialmente, como por exemplo, o cloro. E​xiste uma certa facilidade para obtenção de substâncias químicas e precursores para síntese de armas químicas.

    O valor agregado não é elevado, e a infraestrutura para sua síntese é relativamente simples, assim, infelizmente, essas armas tornam-se acessíveis e têm sido empregadas ao longo da história. 

    Quando o ser humano passou a usar essas armas? E quais os momentos históricos mais marcantes em que elas foram usadas?

    ENTREVISTADO ​Falar das armas químicas é falar da história da humanidade, pois desde a pré-história o homem utilizava compostos químicos ​extraídos de animais e plantas para caçar, guerrear e assassinar. O uso de substâncias químicas naturais em guerras é registrado há mais de dois milênios. Em 600 a.C., os atenienses envenenavam as águas de um rio com raiz de Heléboro, e os inimigos consumiam essa água, apresentando intensa diarréia, pois a raiz é um drástico laxante.

    Em 429 a.C., os espartanos queimavam enxofre para produzir fumos tóxicos durante a Guerra do Peloponeso. Em 200 a.C., Cartago derrota os inimigos após contaminar tonéis de vinho com Mandrágora, uma raiz que provoca sono narcótico. Depois do consumo do vinho pelos soldados inimigos, os cartagineses voltaram e os mataram. Com o decorrer do tempo as armas químicas foram se modernizando. No último século, os compostos químicos industriais começaram a ser empregados como armas químicas. O pico do uso dos agentes foi na Primeira Guerra Mundial, quando os alemães utilizaram em ataques contra os inimigos. Desde então, os agentes químicos foram intermitentemente utilizados em guerras e em atos terroristas.

    Dentre os usos com fins bélicos ou em atentados mais recentes envolvendo o sarin, vale lembrar que ele foi empregado em junho de 1994 em Matsumoto, Japão, num ataque terrorista organizado por um grupo religioso conhecido como Aum Shinrikyo (Verdade Suprema). A ação provocou a morte de oito pessoas, com mais de 200 feridos. Em 20 de março de 1995, ocorreu outro ataque terrorista no metrô de Tóquio, Japão, com gás sarin. O ataque foi de autoria da mesma seita religiosa Aum Shinrikyo e provocou a morte de 11 pessoas. Mais de 5 mil ficaram feridas.

    Em agosto de 2013 foi comprovado pela ONU que o sarin foi empregado na Síria. Segundo relatos, mais de 1.429 pessoas foram mortas, incluindo 426 crianças e diversos feridos. Há relatos de uso de gás cloro, napalm (agente incendiário) também na Síria.

    Tal prática é condenável seja sob o aspecto filosófico, religioso, político, humano, moral ou ético.​ O esforço toxicológico é para a geração de conhecimento, na predição da toxicidade de produtos químicos e gerenciamento do risco toxicológico, jamais com o intuito ensandecido de usar conscientemente produtos tóxicos contra seres humanos.

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