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MC Carol: ‘A UPP acabou com o baile funk, mas ainda tem tráfico e arma’

Autora da música ‘100% Feminista’ fala de racismo, gordofobia, questões de gênero, música e influências

    Nascida no Morro do Preventório, em Niterói, MC Carol Bandida toca em festivais e baladas com públicos de várias classes, em diversas cidades brasileiras. Mas gostaria de se apresentar nas comunidades onde começou, há cerca de 7 anos.

    Nelas, segundo a MC, os bailes funks já não acontecem mais por causa das UPPs, as Unidades de Polícia Pacificadora instaladas no Rio a partir de 2008. Ela vê o funk como uma saída para a população das comunidades e uma atividade geradora de emprego.

    Carol ouve música francesa e é fã de Racionais MC’s. Em 2016, lançou o álbum “Bandida”, do qual fazem parte as faixas “100% Feminista”, em parceria com Karol Conká, “Não Foi Cabral” e “Delação Premiada”.

    Declaradamente feminista, defende que mulheres de todas as cores e tamanhos estejam em todos os espaços e que recebam o mesmo tratamento e salário dado aos homens.

    Sobre o padrão de beleza, vai direto ao ponto: “Quando você se tranca na sua casa, não veste roupas que marquem o corpo, quando você não quer ser vista, não incomoda. Quando você é gorda e tem autoestima, consegue um trabalho legal, recebe bem, casa com um homem bonito, aí você incomoda”. 

    Em São Paulo para se apresentar no dia 17 de março na mostra “Motumbá – Memórias e Existências Negras”, que acontece até o fim do mês de março do Sesc Belenzinho, Carol falou ao Nexo por telefone, do hotel onde estava hospedada.

    Qual foi seu primeiro contato com o feminismo?

    MC CAROL Eu nasci feminista, só que eu não sabia que tinha um nome para isso. Fui uma criança de personalidade muito forte. Brincava com minhas primas e elas falavam que queriam crescer, casar, ter filho. A mais magrinha falava que queria ser modelo. Eu sempre idealizei que ia crescer, trabalhar, ter minha casa, minhas coisas. E comecei a cantar. Tem uns dois anos, um pouco menos, que descobri que era feminista. Eu já cantava ‘Meu Namorado é Maior Otário’, foi uma das primeiras músicas, e começaram a falar que eu era feminista. [As mulheres] contavam muitos casos, falavam que eu dava força para elas serem também. Aí todo mundo começou a falar e eu não sabia o que era feminismo, para mim tinha a ver com ser feminina. Aí perguntei para minha empresária e ela ficou abismada: ‘Como você não sabe?!’. Da onde eu venho ninguém sabe, na verdade. Na minha comunidade perguntei para algumas meninas e elas não sabiam responder.

    Qual o impacto que você acha que tem nessas meninas?

    MC CAROL Eu não moro mais lá, mas estou sempre lá. Só consegui conversar com as crianças da minha família sobre feminismo. Eu não sei se mais meninas da minha comunidade sabem [o que é], mas devem conhecer minhas músicas.

    Mas tem muita coisa no feminismo que eu não concordo, acho que tem muita regrinha. Eu defendo a igualdade, acho que a mulher tem que ser tratada igual o homem, receber igual. A maioria das minhas músicas falam sobre o meu cotidiano, de coisas que eu vivi, que algum vizinho viveu. E eu tenho uma música que chama “Prazer Amante do Seu Marido”, sobre uma coisa que eu vivi quando era bem mais nova. Muitas pessoas falaram “tira essa música do álbum, ainda dá tempo”. Até a minha equipe perguntou se eu tinha certeza que eu queria colocar essa música no álbum [“Bandida”, de 2016] junto com “100% Feminista”. E eu falei claro, porque eu escrevo sobre o meu cotidiano, não sobre o que tá na moda cantar. Não vou fazer música porque tá na moda.

    Até postei na minha página que se pegasse meu marido com outra mulher, mandaria a mulher colocar a roupa e ir embora. A maioria das mulheres querem agredir a mulher, acham que a causa é a mulher. A amante não é a pessoa que tem compromisso com a mulher, a mulher tem que cobrar [fidelidade] do homem.

    O funk ainda sofre preconceito? Qual a explicação que você dá para isso?

    MC CAROL Sim. O funk é o meio mais desvalorizado na música. Mas tá melhorando muito. Na época em que entrei no funk, mais ou menos 7 anos atrás, não se via funk em casamento, em festa de 15 anos, não existia isso. E hoje existe. Tem funk para criança, matinê. Mas o funk ainda é bastante discriminado, ainda dizem que ele é vinculado com bandido. Mas ele salvou a minha vida. Eu nunca sonhei em ser MC. Quando era criança eu queria ser policial. Fui crescendo e vi a trocação de tiro. Com uns 12 anos pensei em ser juíza. Com 14, fui morar sozinha e vi que não ia conseguir ser juíza.

    Na minha comunidade, não conheço ninguém que tenha faculdade. O funk chegou na minha vida em um momento em que eu tava bem sozinha e ele me salvou. Se o funk não tivesse aparecido, não sei se eu estaria viva hoje, não sei se não estaria presa. Acho que as pessoas deviam abrir um pouco a mente e ver que o funk gerou muito emprego: DJs, dançarinos, MCs, gente que faz passinho e vai pros Estados Unidos. Acho que é muito melhor estar trabalhando, ganhando dinheiro honesto tocando funk do que ficar trocando tiro, roubando.

    Como você descreve o momento atual que o gênero vive?

    MC CAROL O funk da comunidade é muito desvalorizado. O funk que vai para televisão, paras rádios, é o funk melody - o funk mais leve, falando de dançar, de balada, com os dançarinos e a banda atrás. Esse é valorizado. Agora, o funk de raiz é muito desvalorizado. Ele mexe com o governo, fala as verdades que muitas pessoas não sabem. Minha música “Delação Premiada” não vai passar na televisão, não vai tocar na novela. Eles não querem isso. Eles querem uma coisa com uma batidinha legal, mas não querem ouvir falar que a polícia mata criança.

    Qual a diferença entre o funk carioca e o paulista?

    MC CAROL Acho que o paulista é mais ostentação. Mas não sei dizer muito porque na verdade não ouço muito funk na minha casa. Sou muito eclética, ouço muitas coisas diferentes, até para poder compor coisas diferentes.

    O que você ouve?

    MC CAROL Eu gosto muito de música francesa, de forró, de brega, Nina Simone, Amy Winehouse, Roberto Carlos, Alcione, Rihanna, Simone & Simaria, Nelson Cavaquinho, Nelson Gonçalves, gosto muito de rap também. Também de MC  Vuk Vuk, Karol Conká, Racionais, sou muito fã de Racionais.

    Você já disse que pretende continuar fazendo música de forma independente. Qual o valor dessa independência para você?

    MC CAROL Eu comecei dessa forma, consegui muitas coisas assim. Morava numa casa de um cômodo e um banheiro, muito apertada, com umidade, sem porta e sem janela. Hoje moro numa casa muito confortável. Eu não vou mudar uma coisa que me ajudou. Não vou chegar agora e dizer que não sou funkeira, que nunca cantei isso. Não vou tirar meu ‘MC’ do nome mesmo que isso me custe muito dinheiro. O que eu canto não é valorizado igual a um funk melody. Mas para mim, ganhar mais e fazer uma coisa com que eu não me identifico não vale a pena.

    Como funkeiras que vieram antes de você, como a Deize Tigrona e a Tati Quebra Barraco, influenciaram seu trabalho?

    MC CAROL Quando comecei eu encontrava muito o [Mr.] Catra e ele sempre me falava da Tati, que a gente parecia mãe e filha, e eu nunca conseguia encontrar ela. No [reality show da Fox] “Lucky Ladies” eu conheci ela. Mas já conhecia o trabalho dela, ouvia no Youtube, me inspirei muito nela. E em outros MCs, como o Vuk Vuk, que morreu e não é muito conhecido. Ele cantava fantasiado e a música dele era funk cômico. Eu queria essa pegada. Queria uma pegada forte, mas que fosse cômica também. E as duas pessoas em que eu me inspirei no começo foram eles, o Vuk que era cômico e a Tati que tinha essa força.

    Você sente diferença quando se apresenta em casa, nas comunidades onde o funk nasceu, e em outros lugares, como o show que vai fazer hoje no SESC aqui em São Paulo?

    MC CAROL Não tem mais bailes nas comunidades do Rio de Janeiro. A UPP acabou com os bailes. Só com eles, porque droga e arma ainda tem, o tráfico ainda existe, não mudou. Não tem mais baile funk há uns 3 anos. Se tivesse um baile organizado, estaria gerando mais empregos. Se o baile rolasse numa quadra, com horário para começar e terminar, tudo certinho, seria uma parada legal. Mas dá mais dinheiro colocar na porta de uma boate “baile de favela”: vão cobrar entrada, vão cobrar bebida. Baile na comunidade não interessa para eles.

    Te incomoda cantar em uma boate de classe alta?

    MC CAROL É o meu trabalho. Se me contratarem para cantar em um velório, eu vou cantar. Mas queria muito que nas comunidades onde comecei, fosse organizado, que continuasse. Da forma como me salvou, pode salvar muitas pessoas. Não só o baile, como outras coisas além disso, como as escolas de teatro no Vidigal e na Cidade de Deus. Tem muitas pessoas talentosas que não têm oportunidade.

    Qual a importância das mulheres nesse cenário que já foi tão masculino?

    MC CAROL A mulher é importante em qualquer local. Em todos os lugares tem que ter mulher negra, gorda, loira, magra. A mulher é tão capaz quanto o homem. 

    Você fala bastante sobre gordofobia e empoderamento das mulheres gordas. Por que você acha que um corpo fora do padrão incomoda tanto?

    MC CAROL Acho que não é o corpo que incomoda, é a autoestima. Acho que quando você é gorda e depressiva, não incomoda. Quando você se tranca na sua casa, não veste roupas que marquem o corpo, quando você não quer ser vista, não incomoda. Quando você é gorda e tem autoestima, consegue um trabalho legal, recebe bem, casa com um homem bonito, aí você incomoda. Existem pessoas que são muito bonitas e não tem autoestima, estão sempre fazendo plástica, tratamento estético, médico, psicólogo. Quando essa pessoa que já é bonita e não tem autoestima vê uma pessoa que é gorda e feliz, isso incomoda muito. Incomoda demais.

    Você lembra do momento em que descobriu que o racismo existia?

    MC CAROL Na escola. Quando saí da creche e fui para escola. Na minha família tinha isso. Fui criada pelos meus bisavós, meu bisavô era loiro de olhos azuis e minha bisavó era negra, baiana.  Eu não enxergava diferença entre ele, não via ele como loiro e ela como negra. A maioria da minha família é loira. Eu achava que era normal, ser loiro ou negro, ter uma família com brancos e negros. No primeiro dia de escola, voltei para casa arrasada. Meu avô foi me explicando que preconceito existe. Eu fiquei abismada, como pode? As pessoas não gostarem das outras por causa da cor. Mas na minha família também tinham pessoas que me tratavam mal e eu não sabia que era preconceito racial, não sabia que era isso. Meu bisavô falou uma frase para mim que eu levo até hoje: que eu não deveria me importar com ninguém, só com o amor deles dois, de quem me criou. Com o resto do mundo eu não deveria me importar. Meu marido fala “Você se acha”. Se eu vestir uma roupa e meu marido não gostar, eu não me importo. Eu não troco, vou sair com aquela roupa. E não vou ficar pensando nisso.  

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