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A guerra de Trump contra a mídia, analisada pelo diretor do museu da imprensa de Washington

Gene Policinski fala ao ‘Nexo’ sobre ‘fatos alternativos’, liberdade de imprensa e as consequências da agressividade do presidente americano contra os jornalistas

    Todo político reclama da imprensa. Mas poucos ousam levar essas críticas ao nível que Donald Trump tem levado. Desde que assumiu a Casa Branca, no dia 20 de janeiro, o presidente americano disse estar “em guerra” com os jornalistas.

    Trump aponta o dedo para repórteres em entrevistas coletivas, chamando-os de mentirosos. O presidente americano também impede que repórteres tidos como críticos ao seu governo lhe dirijam perguntas.

    A Casa Branca, sob comando do republicano, decide quem pode e quem não pode entrar nas coletivas presidenciais. E seus assessores rebatem os fatos noticiados com uma nova teoria, batizada de “fatos alternativos”, que não podem ser comprovados na realidade.

    Todo esse antagonismo pode, no entanto, estar produzindo um efeito inesperadamente positivo. É o que disse ao Nexo o jornalista americano Gene Policinski, um dos fundadores do jornal “USA Today”, nos anos 1980, e atualmente diretor operacional do Newseum, o Museu da Imprensa, em Washington.

    Ele considera que a agressividade do presidente americano termina por mostrar a importância do jornalismo como ferramenta de fiscalização do poder público. Para Policinski, os ataques de Trump farão crescer as assinaturas de jornais e o apreço que os cidadãos têm por uma imprensa independente nos EUA.

    Trump disse estar engajado numa guerra contra a imprensa. Algum outro presidente já havia dito algo similar na história americana ou estamos vendo algo completamente novo?

    Gene Policinski Antagonismo e animosidade em relação à imprensa não são coisas novas. Praticamente todos os presidentes americanos reclamaram, em algum momento, da imprensa, dizendo que ela é injusta, imprecisa ou enviesada contra eles.

    Porém, o governo Trump trouxe vários elementos novos ao atacar os jornais. Até então, nenhum presidente havia questionado, como Trump vem questionando, o valor em si de a nação possuir uma imprensa livre. Além disso, nenhum outro presidente em exercício havia caluniado individualmente um repórter, da maneira como Trump fez. Por fim, nenhum outro presidente atacou os jornais levantando um nível tão alto de desconfiança e fazendo desses ataques uma ferramenta política tão efetiva de mobilizar a opinião pública. 

    Há ainda um outro fator digno de nota: Trump tem se beneficiado grandemente do uso efetivo das redes sociais — e, particularmente, do Twitter — para contornar a imprensa e falar diretamente com o público. O único outro presidente que usou tão efetivamente um “novo” meio de maneira tão dramática foi Franklin Delano Roosevelt [1933-1945], que usou a então novidade do rádio para estabelecer o que ele chamava de “conversa ao redor do fogo”, nas quais falava diretamente com o público americano — nesse caso contornando a mídia conservadora e crítica de sua época.

    E a imprensa americana está engajada numa guerra contra Trump?

    Gene Policinski Não. Definitivamente, não. Histórias que têm sido tomadas como críticas pela Casa Branca são, na verdade, resultado da simples função natural de um jornalismo que pretende ser fiscalizador do governo. Repórteres que fazem seus trabalhos e desafiam as decisões administrativas tomadas pelos políticos não são de “oposição”.

    Esses jornalistas estão apenas fazendo as perguntas duras necessárias para balancear o que frequentemente é uma agenda positiva dos líderes do governo. E, sim, repórteres frequentemente apresentam questões tidas como descorteses ou rudes. Mas essas ações têm a intenção de produzir mais informações para o público, não são comparáveis às táticas empreendidas por adversários políticos. Como disse o editor-executivo do jornal “The Washington Post”, Martin Baron, diante das críticas de Trump, a melhor resposta dos jornalistas a essas palavras duras é simplesmente “fazer nosso trabalho”.

    Quais as diferenças entre ‘fatos alternativos’ e mentiras?

    Gene Policinski Se um “fato alternativo” é simplesmente uma declaração apresentada para se contrapor a uma reportagem negativa, sem qualquer base na verdade, então ela é simplesmente mentira.

    Se um “fato alternativo” significa uma diferença de opinião a respeito de um mesmo fato, então isso é uma opinião alternativa, não um “fato”.

    Toda essa situação parece ser um grande teste de credibilidade e de prestação de contas para a imprensa. O sr. considera que o jornalismo sairá mais forte ou mais fraco desse teste?

    Gene Policinski Até aqui, passados mais ou menos dois meses do início deste governo, parece que a atenção que foi posta sobre o jornalismo está produzindo resultados positivos: houve aumento do apoio público ao jornalismo e aumento no número de assinantes dos grandes jornais, além de maior interesse pelos programas de TV e publicações que discutem ética na mídia e táticas da mídia. De outro lado, há também uma maior atenção dentro das redações em relação à precisão e ao uso de fontes “on the record” [fontes que se identificam, não pedem ao jornalista para permanecerem anônimas], sem mencionar a maior preocupação com a ética e a transparência na hora de deixar claro como as grandes histórias são conseguidas.

    Também, até aqui, as reações à mídia parecem circunscritas a palavras duras e algumas restrições impostas aos jornalistas que cobrem a Casa Branca. Não houve ainda represálias legislativas, como, por exemplo, por meio da ameaça de empreender esforços para causar danos aos jornais por meio de leis mais duras contra difamação.

    Quanto mais a imprensa critica Trump, mais forte ele fica. Essa parece ter sido a lógica de toda a campanha eleitoral de 2016. Como cobrir um presidente que usa o antagonismo como um combustível político tão poderoso?

    Gene Policinski Os jornalistas deveriam evitar responder à raiva e ao antagonismo da administração Trump. Eles deveriam se lembrar que a proteção legal continua forte e que o público é o consumidor e o chefe, em última instância, numa democracia representativa. Se os jornalistas apresentam informação atual, veraz, justa e precisa aos cidadãos a respeito dos maiores assuntos do dia, Trump pode se engajar no quer que seja, ou pode chamar a imprensa do que ele queira chamar, mas o público permanecerá com um alto nível de confiança na mídia. Se Trump não viaja com a tradicional comitiva de jornalistas que cobrem a Casa Branca, os jornalistas simplesmente terão de encontrar formas alternativas de reportar como a Casa Branca está conduzindo os assuntos públicos.

    Finalmente, eu acredito que o público americano responderá positivamente ao bom jornalismo, que é feito de maneira enraizada na reportagem factual ou na opinião bem informada. O público vai se cansar das imprecisões e do esforço da administração por emplacar uma agenda positiva. Isso deve acontecer particularmente à medida que Trump e seus assessores se distanciarem da campanha eleitoral, passando para uma realidade política e legislativa que possa ser mensurada e julgada.

    Eu espero que os jornalistas vejam os recentes ataques de Trump contra a imprensa como eles são — distrações, cuja intenção é mover o foco da mídia e do debate público dos assuntos mais substanciosos para tentativas de explorar a insatisfação do público com os jornais.

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