Ir direto ao conteúdo

5 perguntas para Marilia Rocha, diretora de ‘A Cidade Onde Envelheço’

Cineasta fala de seu filme mais recente, vencedor do Festival de Brasília de 2016. E indica suas diretoras favoritas

    Temas
     

    Francisca desocupa um cômodo de seu apartamento no centro de Belo Horizonte para receber Teresa, conterrânea que agora faz o mesmo percurso de Portugal ao Brasil que ela havia feito anos antes. A chegada de Teresa recepcionada pela amiga - que dá a entender que gosta de viver sozinha e que é melhor que a estadia seja temporária - inaugura um período de partilha, entre ambas, da experiência de ser estrangeira.

     

    É esse, em linhas gerais, o enredo de “A Cidade Onde Envelheço”, quarto longa-metragem e primeiro trabalho ficcional da diretora Marilia Rocha, que venceu quatro prêmios no Festival de Cinema de Brasília em setembro de 2016, incluindo o Candango de Melhor Longa-metragem, prêmio principal da competição.

    O filme entrou em circuito em salas de todo país no dia 9 de fevereiro, inaugurando a Sessão Vitrine Petrobrás, criada para reservar espaço cativo nas salas de exibição de 21 cidades brasileiras para filmes autorais brasileiros ou coproduzidos com o Brasil. 

    O Nexo falou à diretora sobre suas escolhas cinematográficas, a representação e representatividade femininas no cinema, e suas recomendações de filmes e diretoras:

    Belo Horizonte não é São Paulo nem Rio, dois dos cenários dominantes do cinema brasileiro. O que você diria que a cidade traz ao seu filme?

    Marilia Rocha Belo Horizonte é uma cidade muito particular. Seu interesse, ao menos para mim, vem mais de uma atmosfera, do jeito das pessoas, de uma forma de acolher quem vem de fora, uma maneira de lidar com a iminência dos acontecimentos. Como diz o escritor Marcílio França Castro, é um lugar em que as coisas estão prestes a acontecer – mas nunca acontecem. Acho que tudo isso impregnou o filme.

    Em ‘Terra Estrangeira’, filme do Walter Salles de 1996, começo da retomada [do cinema brasileiro], o personagem vai embora do Brasil para tentar a vida em Portugal. Vinte anos depois, seu filme fala de duas portuguesas tentando a vida no Brasil. É um fechamento de ciclo (para os dois países, para o nosso cinema)?

    Marilia Rocha Filmei num momento de inversão mesmo daquele cenário do “Terra Estrangeira”. “A cidade onde envelheço” se passou no auge da crise financeira que abateu Portugal recentemente. Nesta altura, o primeiro-ministro português chegou a recomendar que os jovens emigrassem à procura de oportunidades fora de lá. Esse contexto gerou uma debandada da juventude portuguesa, foi quando o Brasil se tornou um destino idealizado e por um período breve inverteu-se a corrente de imigração de lá para cá. Francisca Manuel, uma das protagonistas do filme, viveu ela própria essa experiência. No casting para encontrar a segunda personagem em Portugal, filmamos dezenas de meninas que procuravam uma maneira de sair do país, e que tinham também muitas fantasias com relação ao Brasil. O filme deve muito a elas, à suas conversas e aos seus sentimentos. Será um fechamento de ciclo?

    Vários filmes brasileiros foram selecionados este ano para Roterdã e Berlim, os festivais que acontecem logo no começo do ano. Como você vê o momento atual do cinema brasileiro?

    Marilia Rocha  Vivemos um momento muito particular do cinema brasileiro, fruto direto das políticas públicas iniciadas há pouco mais de uma década. O que veio à tona foi uma produção diversificada em todos os sentidos, com uma multiplicidade de autores e filmes. Esses festivais são alguns dos que reconhecem a riqueza desse momento e estão atentos ao nosso cinema.

    Mulheres diretoras ainda ocupam um lugar marginalizado no cinema nacional? Por quê?

    Marilia Rocha  Porque as mulheres continuam a ocupar um lugar marginalizado em geral. No cinema, há muitas mulheres que exercem papéis secundários nas equipes, mas é surpreendente como temos poucas nas posições de chefes de equipe, na direção, direção de fotografia, direção de arte, produção executiva. Temos um mercado bastante machista e sexista, e certamente não se reflete apenas na produção, mas também na forma como mulheres são representadas nos filmes.

    Quais diretoras são suas referências, cujo trabalho você recomenda conhecer?

    Marilia Rocha  Algumas diretoras cujo trabalho vale muito a pena conhecer: Yasmin Thayná, Pascale Ferran, Lizzie Borden, Chantal Akerman.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

    Já é assinante?

    Entre aqui

    Continue sua leitura

    Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: