‘Dois irmãos’ é sobre o colapso de uma família. Mas também de um projeto de país

Adaptação de romance do escritor Milton Hatoum, minissérie de TV é um diagnóstico de nossas estruturas sociais, segundo a pesquisadora Ilana Feldman

    Foto: Reprodução
    A desavença entre os dois filhos é a tragédia da vida de Zana, interpretada na primeira fase da minissérie por Juliana Paes
     

    A minissérie “Dois Irmãos” estreou na TV Globo na segunda semana de janeiro, depois da novela das 21h. Dirigida por Luiz Fernando Carvalho, com roteiro adaptado por Maria Camargo da obra homônima do escritor amazonense Milton Hatoum, a série levou para a TV um drama familiar com a duração de meio século, entre os anos 1920 e 70.

    Esse drama é vivido pelos imigrantes libaneses Zana e Halim, pais dos gêmeos Yakub e Omar, que são protagonistas de uma rixa irreconciliável. No livro lançado em 2000, a história é narrada pelo filho bastardo da empregada Domingas - e a visão do narrador é temperada de ressentimento.

    O romance, segundo publicado por Hatoum, rendeu ao escritor um Prêmio Jabuti em 2001. Foi adaptado para o teatro e para os quadrinhos, mas é a primeira vez que uma obra do autor é transposta para a televisão. Milton Hatoum é arquiteto de formação, nasceu em Manaus e é um dos nomes mais reconhecidos da literatura nacional contemporânea.

    O Nexo conversou com a pesquisadora e crítica Ilana Feldman, doutora em Cinema pela Escola de Comunicações e Artes da USP e pós-doutoranda em Teoria Literária pela Unicamp, para entender qual a importância da obra chegar à TV aberta e o que ela diz sobre o Brasil, do passado e do presente.

    Feldman fez parte, em 2014, do seminário de preparação da série, que contou com a participação de pesquisadores, professores e psicanalistas, como Maria Rita Kehl, Roberto Machado e Keila Grinberg.

    Na definição da pesquisadora, mais do que um romance de formação - tipo de obra que trata do desenvolvimento de um personagem, como os dois irmãos do título -, “Dois Irmãos” é também um romance sobre o colapso de um projeto de país.

    O que a adaptação de uma obra como esta traz ao espectador?

    Ilana Feldman  A TV no Brasil tem um alcance colossal, criando uma unidade de espaço e de tempo em um país enorme e completamente diverso. Em função dessa abrangência, a TV brasileira, sobretudo a Rede Globo, tem operado como um elemento de integração nacional e cultural desde meados dos anos 70. Se, de um lado, esse poderio é muito problemático, em função dos interesses e das alianças travadas em cada momento histórico, de outro, só ele poderia oferecer ao espectador brasileiro uma série como “Dois irmãos”.

    " ‘Dois irmãos’ é isso: um encontro tão importante quanto fatal com a dissolução de uma família e o desmonte do Brasil. Nada poderia ser mais atual."

    A adaptação de “Dois irmãos”, na verdade uma transposição ou transcrição para o audiovisual de uma saga familiar de contornos míticos, oferece ao espectador brasileiro a possibilidade de alguns encontros fundamentais: encontro com cinquenta anos de história do país, através de Manaus e da região Norte, tão pouco representada e conhecida pelo Sudeste; com uma enorme diversidade humana e cultural, em que se misturam imigrantes libaneses, indígenas, judeus marroquinos, caboclos, negros e toda sorte de aventureiros que vieram povoar a região a partir do ciclo da borracha; com uma forma expressiva que investe na sensibilidade e inteligência do espectador, recusando o didatismo e o habitual naturalismo das produções televisivas; por fim, o encontro com um projeto de país, que se insinuava durante a Belle Époque amazônica, mas cuja promessa de futuro é posta abaixo pela ditadura civil-militar e sua ideia destrutiva de “progresso”.

    Não seria exagero dizer que “Dois irmãos” é isso: um encontro tão importante quanto fatal com a dissolução de uma família e o desmonte do Brasil. Nada poderia ser mais atual.

    O que significa, para a literatura contemporânea, uma obra de Milton Hatoum ser adaptada para a TV?

    Ilana Feldman  Tendo em vista que os índices de analfabetismo no país são ainda alarmantes e que nosso público leitor é tão somente uma elite, a transposição de uma obra literária para a TV, sobretudo um romance da última década e meia, confere extrema relevância à literatura brasileira contemporânea. Se “Dois irmãos”, o livro, já havia sido bastante lido e premiado, hoje, com a visibilidade adquirida através da série, ele se torna ainda mais potente como diagnóstico crítico, tanto das estruturas sociais brasileiras como de suas formações familiares, subjetivas e psíquicas. De algum mundo, por meio de sua estrutura mítica e arquetípica, “Dois irmãos” antecipa a própria polarização da sociedade brasileira nos últimos tempos.

    Mas é importante perceber que, enquanto a literatura brasileira ganha relevância e contundência ao migrar para a TV, a própria TV ganha também enorme prestígio artístico ao valorizar um produto literário nacional, ainda mais sob a marca e o estilo barroco, marcado pelo acúmulo de elementos e alta intensidade, do Luiz Fernando Carvalho. É uma via de mão dupla.

    Quais aspectos estéticos da minissérie chamam atenção?

    Ilana Feldman  Como em outras obras do diretor, como se vê em “Lavoura arcaica”, a partir do romance homônimo de Raduan Nassar, “Capitu”, a partir de Machado de Assis, ou “A Pedra do Reino”, a partir de Ariano Suassuna, estamos diante de uma envergadura mítica e de uma dicção operística, em que se encena a dissolução do mundo, dos vários mundos – histórico, político, familiar e subjetivo.

    No caso de “Dois irmãos”, a construção da série salienta o colapso tanto do domínio privado da vida da família como da esfera pública da cidade e do país. O fogo que queima a floresta amazônica começa pelos lençóis da cama do casal, Zana e Halim, como numa espécie de mau presságio. E o narrador dessa história, Nael, “o filho de ninguém”, filho bastardo de Domingas, a indígena empregada da casa, é o sobrevivente que dá seu testemunho e que nunca deixa o quarto dos fundos onde veio ao mundo e de onde assiste a tudo.

    Em comparação com as novelas, as minisséries têm uma liberdade temática ou estética maior? Qual a particularidade desse formato?

    Ilana Feldman  Diferentemente da telenovela, um formato de longo prazo, muito mais aberto às vicissitudes da audiência e escrita por uma equipe de roteiristas, a série se estrutura em um formato fechado, mais curto e muito mais coeso. Essa coesão permite, de um modo geral, maior autonomia estética e menos necessidade de negociação enquanto a série está no ar, pois na verdade toda a negociação foi feita antes. A telenovela é uma obra aberta, com todas as concessões que essa abertura implica, enquanto esse tipo de série precisa ser uma obra fechada. Aqui, a abertura que interessa é a de sentido e a liberdade em jogo é também a do próprio espectador, estimulado a sentir, pensar, refletir e imaginar.

    É inevitável a comparação entre ‘Dois Irmãos’ com [o filme] ‘Lavoura Arcaica’. Há, em ambos, a temática do drama familiar e a adaptação de obras da literatura nacional contemporânea. Que outras relações você acha que é possível fazer entre elas?

    Ilana Feldman  A mais evidente, num primeiro olhar, é a tragédia familiar que se instala no contexto da imigração libanesa ao Brasil e das relações patriarcais e fusionais – o forte apego à terra, às tradições e à família – que aí se estabelecem. Apesar de serem textos completamente distintos (“Lavoura” é um romance barroco, concentrado no universo confinado da fazenda e da família, sem uma datação histórica precisa, enquanto “Dois irmãos” é uma saga familiar e um “romance de formação” do Brasil, atravessado por cinquenta anos de história do país), é visível a forma como Carvalho salienta os aspectos míticos e trágicos de ambas as narrativas.

    "O futuro é abolido e, para quem sobra, resta um amontoado de ruínas. Mas resta também, e é por isso que essas obras existem, a possibilidade de narrar essas ruínas."

    Esse tipo de leitura possibilita, certamente, um paralelo entre André de “Lavoura” e Omar de “Dois irmãos”, ambos personagens possessos, regressivos, seres sem projeto, pré-culturais e uterinos, no sentido de que suas linguagens se dão através do corpo e de que não houve a separação necessária entre eles e suas mães. Tanto em “Lavoura” como em “Dois irmãos”, as relações fusionais, edipianas e incestuosas entre mães e filhos, irmãos e irmãs, vêm dar testemunho da falência da cultura, explicitando, no dizer de Walter Benjamin, “que todo documento da cultura é um documento da barbárie”.

    Nos dois casos, o futuro é abolido e, para quem sobra, resta um amontoado de ruínas. Mas resta também, e é por isso que essas obras, literárias e audiovisuais existem, a possibilidade de narrar essas ruínas.

    A paisagem geográfica do romance é inovadora, é um Brasil do Norte que não costuma ser representado pelas obras literárias mais conhecidas. Ao mesmo tempo, há algo de um Brasil nada novo ali, arcaico nas relações, patriarcal, que valoriza o primogênito, mima os filhos homens etc. Como essas relações foram transportadas para a tela?

    O Brasil trágico de Milton Hatoum, sustentado por uma ideia falida de progresso e de futuro (“essa falácia que persiste”), ideia dissolvida no mormaço amazônico, é personificado pela desagregação da família, pela destruição da cidade de Manaus e pela devastação da floresta ao redor. A briga entre os irmãos, Omar e Yakub – o primeiro um hedonista voraz, possuído pelos prazeres mais imediatos, violento e sem projeto, enquanto o segundo, movido pelo ressentimento, se torna um exímio calculista e arquiteto da vingança que moverá sua própria vida –, na série é antecipada, por exemplo, pelo dramático derrubar de árvores. A série, torna, portanto, mais visível o diálogo entre a decadência dos personagens e a história do Brasil, como um “álbum de fotografias do próprio país”, no dizer do diretor.

    Apesar de ter nomes como Juliana Paes e Cauã Reymond, parece ter havido a preocupação de incluir rostos locais e fenótipos representativos da região norte no elenco. Tendo em vista as críticas já sofridas pela emissora, relativas ao apagamento de etnias do elenco de suas produções, gostaria que você comentasse essa questão.

    Acho que “Dois irmãos” faz um balanço muito feliz entre o “star system” e atores menos conhecidos do grande público, alguns deles atores estreantes fora do eixo Rio-São Paulo, além das participações especiais e da presença de figurantes, todos com traços “locais”. Hoje, mais do que nunca, a construção de um elenco, com seus tipos e cores, é um trabalho exaustivo de pesquisa, envolvendo enorme responsabilidade e sérias implicações políticas em termos de representatividade. Embora, evidentemente, devamos reconhecer o mérito dessa pesquisa empreendida pela série, tendo em vista o próprio racismo da sociedade brasileira, isso deveria ser a prática corrente da emissora e não motivo de elogio. Se precisamos elogiar é porque, como bem mostra “Dois irmãos”, somos ainda uma sociedade preconceituosa, que não perde a chance de desprezar as misturas e de aniquilar indígenas sob o dissimulado mito da “democracia racial”: essa outra falácia que persiste.

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