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Seu povo quase foi exterminado pelo Império Alemão. Agora, ele luta pela reparação histórica

Genocídio contra os Ovaherero e Nama na região onde fica a Namíbia, no início do século 20, começa a ser reconhecido pela Alemanha. Para militante, negociações de reparação não estão incluindo povos afetados

     

    Veraa Katuuo nasceu em 1954 na porção africana onde hoje é a Namíbia. Passou a infância e a juventude ouvindo seus antepassados contarem a história sobre como seu povo, chamado Ovaherero, quase foi dizimado pela colonização alemã no início do século 20.

    Apesar de bem documentado, esse massacre começou a ser reconhecido apenas recentemente pelo governo alemão. Katuo, que hoje mora nos EUA, é fundador da Associação do Genocídio Ovaherero, que busca chamar atenção para o evento.

    “A educação que eu obtive por meio dessa história oral dos meus pais e avós está sendo validada em livros e artigos de pesquisa escritos por estudantes e historiadores ao redor do mundo”, diz Katuo, que durante a militância juvenil na Namíbia foi perseguido e preso. Nos anos 70, foi morar nos EUA.

    Mais de 75 mil membros dos povos Ovaherero e Nama foram mortos por forças coloniais alemãs entre 1904 e 1908. Estima-se que cerca de 80% dos Ovaherero e 50% dos Nama foram aniquilados em um processo que envolveu práticas como envenenamento de fontes de água, corte de rotas para envio de alimentos e envio de famílias para campos de concentração e extermínio.

    Até hoje os Ovaherero e Nama são negligenciados pelo governo da Namíbia, um país com 2,3 milhões de habitantes. A Alemanha também jamais fez qualquer tipo de reparação. O massacre histórico, no entanto, tem despertado a atenção de estudiosos e dos governos dos dois países.

    O governo alemão reconhece desde 2015 o massacre como um genocídio, ou seja, um assassinato em massa motivado por diferenças étnicas. Os dois países estão negociando, e, segundo o jornal britânico “The Guardian”, um pedido oficial de desculpas é esperado até junho de 2017.

    Militantes Ovaherero e Nama elogiam esse processo, mas fazem ressalvas. Alguns deles afirmam que não estão sendo incluídos nas negociações entre os governos de Namíbia e Alemanha. O Nexo conversou com Veraa Katuuo para entender como a população Ovaherero vê a recuperação de sua história. Leia a entrevista completa:

     

    Quando você ficou ciente da violência contra o seu povo?

    Veraa Katuuo Todos nos tornamos cientes das atrocidades contra nossos ancestrais nas mãos dos soldados alemães desde muito novos. Durante minha criação, toda noite antes da hora de dormir nós costumávamos sentar ao redor de uma fogueira com nossos pais e avós. Era ali que as histórias eram contadas.

    Os Ovaherero são contadores de histórias muito bons, e nossa história oral foi transferida de uma geração a outra durante esses eventos antes da hora de dormir.

    Agora a educação que eu obtive por meio dessa história oral dos meus pais e avós está sendo validada em livros e artigos de pesquisa escritos por estudantes e historiadores ao redor do mundo.

    Eu me sinto mais do que intrigado pelos livros publicados por autores alemães, que contêm indícios incriminatórios contra o governo alemão daquele tempo. O fato de que nenhum desses artigos foi escrito pelos povos Ovaherero ou Nama significa muito para mim.

    Como você passou a atuar como ativista para a causa Ovaherero e por que passou a fazer isso a partir dos Estados Unidos?

    Veraa Katuuo Eu nasci no Sudoeste Africano em 1954, atualmente chamado de Namíbia [o território passou a ter esse nome reconhecido pela ONU em 1968] durante a ocupação ilegal pelo regime de apartheid da África do Sul [que teve início em 1920 e foi encerrada em 1988].

    Embora eu estivesse ciente das políticas discriminatórias do regime de apartheid, meu ativismo se iniciou durante minha educação no colégio Augustineum, em Windhoek, capital da Namíbia.

    Ali, eu participei de inúmeras manifestações durante o governo de apartheid e a implementação do sistema de educação Bantu [por meio do Ato de Educação Bantu, de 1953, a África do Sul instituiu legalmente a separação racial no ensino].

    Isso levou à minha prisão e espancamento. Em dado momento [em 1979], eu parti para os Estados Unidos para continuar meus estudos, como muitos outros durante aquele tempo.

    Os Ovaherero e Nama ainda são uma parte particularmente prejudicada da população da Namíbia?

    Veraa Katuuo Os Ovaherero e Nama não são desprivilegiados, mas marginalizados pelo governo namíbio. Por exemplo: os Ovaherero e Nama são os únicos povos da Namíbia que foram retirados de suas terras pelos governos alemão e, mais tarde, sul-africano.

    O programa de reassentamento atualmente em curso na Namíbia está favorecendo os Ovambo, que dominam o partido no governo e que nunca foram retirados de suas terras ancestrais, enquanto os Ovaherero ainda vivem em centros de concentração modernos superpovoados e com pastoreio excessivo, chamados de reservas pelo governo sul-africano que as estabeleceu.

    Medidas de desenvolvimento na área ocupada pelos Ovaherero e Nama são mínimas para dizer o máximo, quando comparados com o de Ovamboland [terras ocupadas pelo povo Ovambo, no norte da Namíbia]. Todos os contratos governamentais lucrativos são concedidos aos Ovambo.

    A exigência de que o governo alemão concedesse reparações foi realizada pelos povos Ovaherero e Nama enquanto o governo namíbio ainda era negligente.

    Em 2006, o governo namíbio adaptou uma moção que havia sido introduzida pelo falecido soberano dos Ovaherero, Kuaima Riruako, que é o pai do movimento pela reparação.

    A moção adotada pedia negociações diretas dos Ovaherero e Nama contra o governo alemão, com o governo namíbio como mediador. Mas o governo namíbio marginalizou os povos ovaherero e nama ao ignorar a moção adotada e dar continuidade a negociações de reparação com o alemão sem nosso envolvimento.

    “O governo namíbio não tem legitimidade para negociar reparações com o governo alemão em nome de todo o povo Ovaherero e Nama ao redor do mundo”

    O governo namíbio perdeu a credibilidade com os povos Ovaherero e Nama na Namíbia ao abandonar as diretrizes da moção de reparação adotada em 2006. Isso viola a Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas, adotada na Assembleia Geral da ONU em 13 de setembro de 2007.

     

    Você acredita que há um interesse internacional maior pela violência sofrida pelo seu povo no início do século 20? Por quê?

    Veraa Katuuo  Sim, definitivamente há interesse e ele está crescendo. Em outubro deste ano [2016], realizamos uma conferência sobre genocídio pela segunda vez na Alemanha, e ela teve boa frequência e foi bem coberta, especialmente por veículos de mídia alemães e namíbios.

    Ao final da conferência realizamos um enorme protesto nas ruas de Berlim, com escolta da polícia alemã. Com base em teses de mestrado e doutorado que estão sendo entregues, pode-se dizer que o interesse é enorme entre estudantes alemães.

    É uma história fascinante devido à bravura dos povos Ovaherero e Nama em enfrentar o poderoso Império Alemão e exigir de volta suas terras e gado confiscados. E à resposta militar bárbara que levou ao quase extermínio de nossos ancestrais, e que se tornou o primeiro genocídio do século 20.

    Infelizmente para os alemães, essa história foi bem documentada por eles mesmos, e agora está voltando para assombrá-los.

    O governo alemão está articulando o reconhecimento desses crimes e um pedido formal de desculpas, mas nenhuma reparação monetária. Qual é o seu posicionamento sobre isso?

    Veraa Katuuo  Isso é uma ilusão por parte dos alemães. Desde quando um criminoso condenado decide a própria punição? Isso é uma atitude racista e arrogante dos alemães contra suas vítimas de ascendência africana, e que eles nunca exibiram contra as vítimas do Holocausto.

    Os governos da Alemanha e da Namíbia são signatários da Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas, que diz explicitamente no artigo 11:  “Os Estados proporcionarão reparação por meio de mecanismos eficazes, que poderão incluir a restituição estabelecida conjuntamente com os povos indígenas, respeito dos bens culturais, intelectuais, religiosas e espirituais, de que tenham sido privados sem seu consentimento livre, e informação prévia, ou na violação de suas leis, tradições e costumes”.

    O governo namíbio deve abandonar as negociações de reparação em curso e implementar diretrizes estabelecidas na moção adotada em 2006. Do contrário, tomaremos os passos necessários para torná-las irrelevantes no processo de reparação.

     

    De acordo com o jornal ‘The Guardian’, uma reunião entre líderes Ovaherero e Nama em Windhoek em novembro terminou com representantes do comitê Nama 'abandonando a embaixada alemã após [o negociador-chefe Rupert] Polenz ter dito que o massacre no sudeste da África era ‘incomparável’ com o Holocausto'. Por que esse é um ponto sensível?

    Veraa Katuuo  Essa é uma pergunta muito interessante. Aos olhos do governo alemão, as vidas de Ovaherero e Nama são menos importantes do que aquelas das vítimas do Holocausto.

    Eu acho que o ponto principal para esse argumento é o fato de que eles não querem pagar aos povos Ovaherero e Nama a quantidade de dinheiro que pagaram e continuam a pagar para as vítimas do Holocausto.

    Após o fim da insurgência Ovaherero/Nama alguns fazendeiros receberam reparação monetária da Alemanha por todo o gado perdido durante a guerra. A Alemanha não precisa inventar a roda. O precedente já foi estabelecido. Simplesmente sigam-no.

    Nós vamos determinar a punição apropriada para o crime que eles cometeram. Quaisquer acordos entre os dois governos sem a participação integral dos povos Ovaherero e Nama são nulos e vazios.

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