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‘Ler os comentários é como garimpar ouro no fundo da internet’, diz pesquisador

Autor de um livro sobre o tema, Joseph Reagle estuda o universo de quem faz questão de dar sua opinião

 

Joseph Reagle lê os comentários. Professor de comunicação na Northeastern University, nos EUA, e autor de vários livros sobre tecnologia, internet e comportamento, ele diz que, às vezes, entrar em contato com os comentaristas pode ser desesperador. Mas que, de vez em quando, encontra conteúdo valioso entre as opiniões despejadas todos os dias em redes sociais, sites de notícias, blogs e fóruns pela internet.

Em seu livro “Reading the comments” (Lendo os comentários, sem edição no Brasil), publicado pela editora do MIT (Massachusetts Institute of Technology), Reagle mergulha no universo das pessoas que fazem questão de dar sua opinião em serviços on-line.

No livro, o pesquisador mostra que os comentários atuam de diversas maneiras sobre quem os lê. Eles podem informar, aprimorar, manipular, alienar e moldar as pessoas — além, é claro, de assustar.

Os comentários afetam a autoestima e o bem-estar — para o bem e para o mal —, mas, acima de tudo, fornecem um retrato da comunicação e da sociedade.

A definição de Reagle para comentaristas é ampla. Qualquer pessoa que dá um like, por exemplo, já é classificada por ele como comentarista. Por isso, é difícil estabelecer um padrão de quem são essas pessoas — mas dá para ter uma ideia geral do mecanismo que as leva a dar sua opinião de forma pública on-line.

Para mostrar um pouco o universo dos comentaristas, Reagle menciona uma pesquisa conduzida pelo site “Fivethirtyeight” com 8.500 pessoas on-line. Embora não tenham valor científico, as respostas dos participantes forneceram recortes interessantes do perfil de quem comenta na internet:

60%

têm entre 20 e 40 anos

76%

são homens

O principal motivo que leva alguém a comentar é “corrigir um erro” (19%) e “somar na discussão” (18%). Depois, as pessoas querem “dar sua perspectiva pessoal (10%), “representar seu ponto de vista” (10%) e “ser engraçado” (8%).

Comentários podem ser, muitas vezes, bastante destrutivos. É por isso que Reagle diz que as pessoas não precisam lê-los se não quiserem — porque essa leitura pode ser realmente desesperadora. Mas entrar em contato com as opiniões dos outros é, também, uma maneira de aprender muito sobre comunicação humana.

Foto: Reprodução/Joseph Reagle
 

Em entrevista ao Nexo, o pesquisador fala sobre a sua relação com os comentaristas e como ter uma relação mais produtiva com a opinião alheia.

Por que escrever um livro sobre comentários?

Joseph Reagle A ideia do livro surgiu quando eu percebi que muito da minha vida  girava em torno de dar e receber feedback. Eu avalio estudantes, eles me avaliam, eu reviso o trabalho de outros acadêmicos, e eles fazem o mesmo comigo. O feedback é apenas um tipo de comentário que destina-se a um assunto. Nós somos como peixes na água, cercados de comentários, mas sem apreciá-los realmente.

Como foi feito o estudo?

Joseph Reagle Foi uma etnografia virtual, complementada por histórias. Isso significa que eu acompanhei conversas em blogs como Boing Boing, entre fãs de ficção científica, pessoas que revisaram produtos na Amazon e comentaristas do Youtube.

Quem são os comentaristas? Conseguimos enumerar as principais características?

Joseph Reagle Eu entendo os comentários on-line de forma bastante ampla. Se você já clicou no botão “like” ou tuitou, eu acho que você é um comentarista. Obviamente, um grupo tão grande é muito difícil de caracterizar. Mesmo se nós limitarmos a, sei lá, pessoas que comentam em sites de notícias, ainda é difícil.

O que leva alguém a comentar on-line?

Joseph Reagle Algumas pessoas têm tempo, energia e confiança para postar porque elas acham que têm algo importante a dizer, ou gostam da interação. Também há os outros que gostam de criar problemas — os trolls, por exemplo.

Às vezes temos a impressão de que todos estão bravos na internet. Por quê?

Joseph Reagle Para simplificar, algumas pessoas têm menos inibição quando elas estão bravas. Então elas têm uma tendência maior de postar um comentário inflamado. Isso disparará o gatilho em outros. Essa postagem nervosa e contagiosa é a razão de termos — por décadas — falado das “flame wars” [“guerras de chamas”, em tradução literal, ataques pessoais que existem desde os primórdios da internet].

Você fala sobre o mecanismo emocional de dar e receber feedback que se relaciona aos comentários. Como isso funciona?

Joseph Reagle Não é fácil! Tentar gerenciar as emoções associadas ao feedback é trabalhoso. Se nós quisermos dar um feedback construtivo, temos de ser cuidadosos ao não criticar a pessoa, mas misturando, de forma habilidosa, críticas positivas e negativas sobre o comportamento dela.

Receber feedback é ainda mais difícil: temos de descobrir como extrair aquilo que podemos usar, de fato, do detrito negativo. No livro, eu conto que a política do escritor Isaac Asimov era de ignorar resenhas negativas. Outros, com uma taça de vinho na mão, se “sentam” com o feedback e imediatamente destacam aquelas coisas que eles podem usar.

Muita gente evita ler os comentários. Qual é a consequência disso?

Joseph Reagle Se você escolher não ler os comentários, eu não acho que nada terrível vá acontecer. Todos enfrentamos o perigo de viver em uma câmara de eco, onde vemos apenas opiniões que confirmam as nossas próprias. Mas acho que seria melhor expor a si mesmo a pensamentos do ponto de vista oposto.

O que podemos aprender lendo comentários?

Joseph Reagle No livro, eu digo que eu leio os comentários, mas você não precisa fazer isso. Eu não acho que alguém tenha a obrigação de ler comentários. Dito isso, se você está interessado na comunicação humana, como eu estou, eu acho que tem muitas coisas que podemos aprender sobre as pessoas e suas interações. Os comentários tocam em questões de identidade, autoestima, autenticidade, comunidade e comércio (quando falamos de resenhas falsas, por exemplo).

Como podemos incentivar uma participação on-line mais produtiva?

Joseph Reagle Você não terá uma participação on-line produtiva em um fórum com milhares de pessoas sem moderação. Eu recomendo às pessoas encontrarem pequenas comunidades, nas quais há algum senso de intimidade (em algumas redes sociais ou subreddits), ou comunidades que têm histórico de produção cultural e moderação.

Você lê os comentários?

Joseph Reagle Sim! Mesmo que eu me desespere, às vezes, eu também me deleito com o que eu encontro. Eu penso que é como garimpar ouro no fundo da internet.

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