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Por que a Revolução Cubana não é um processo comunista monolítico

Escritor porto-riquenho Arcadio Díaz-Quiñones, professor de Princeton, fala ao ‘Nexo’ sobre o caráter caribenho da revolução e sobre as diferentes fases de um movimento que, antes da sovietização, representava um sonho de democracia

     

    A morte de Fidel Castro, no dia 25 de novembro, reacendeu um debate que já dura pelo menos 60 anos. De um lado, estão os que veem mais logros do que danos na Revolução Cubana de 1959. De outro, os que consideram que a violência da guerrilha e o autoritarismo do regime não justificam os avanços sociais alcançados na ilha.

    Em ambos os casos Cuba aparece como um retrato estático, a respeito do qual pessoas de diferentes ideologias emitem seus juízos. Porém, ao longo de seis décadas, a Revolução Cubana passou por diferentes estágios, algumas vezes contraditórios entre si - como quando lutava pelo fim de uma ditadura, em 1959, e quando converteu a si mesma numa ditadura, que perdura até hoje.

    Fazer um saldo final dessa experiência frequentemente obriga os críticos da revolução a ignorar os avanços produzidos por ela, assim como obriga alguns de seus defensores a minimizar execuções sumárias, perseguições políticas e exílios.

    A fim de entender a Revolução Cubana - para além de sua face soviética mais caricata e para além dos anos carismáticos dos primórdios da guerrilha -, o Nexo entrevistou o escritor porto-riquenho Arcadio Díaz-Quiñones, professor da Universidade de Princeton, nos EUA. Ele é historiador cultural e especialista em literatura hispano-americana e um dos mais conhecidos intelectuais caribenhos radicados nos EUA. Publicou estudos sobre os escritores cubanos José Martí, Fernando Ortiz, Ramiro Guerra e Cintio Vitier, e publicou no Brasil uma série de ensaios de cultura e política chamada “A Memória Rota”, pela Companhia das Letras.

    Nesta entrevista, Arcadio explica a dimensão “caribenha” da revolução que, mais adiante, ganharia feições soviéticas. Ele também analisa o impacto cultural que o movimento teve na região e as consequências para o que ele tradicionalmente prefere chamar de “as esquerdas” no mundo.

    O sr. diz que, antes de ser comunista, a Revolução Cubana foi “caribenhista”. O que isso significa?

    Arcadio Díaz-Quiñones A Revolução Cubana foi, no início, um movimento plural contra a ditadura de Fulgencio Batista [1952-1959] e, portanto, uma luta democratizadora. Ela teve um impacto duradouro na América Latina e no mundo.

    Eu uso a palavra “caribenhista” por razões geopolíticas e culturais que às vezes são esquecidas, pois me refiro ao arquipélago que inclui ilhas como Haiti/República Dominicana [Ilha de Hispaniola], Trinidad-Tobago e Porto Rico, além do litoral da Venezuela e da Colômbia. É uma ampla região que tem em comum com Cuba uma longa história de dominações imperiais, da escravidão africana e do mundo açucareiro [monocultura que dominou a economia colonial na região], onde a “questão nacional” continuava muito viva.

    Eu destaco também o termo “caribenhista” porque o exemplo da Revolução Cubana deu impulso à possibilidade de que os diversos países se reconhecessem como parte do Caribe, e porque ela inspirou novas lutas contra as ditaduras terríveis de [Anastasio] Somoza [que comandou a Nicarágua de 1967 a 1972] e de [Rafael] Trujillo [ditador que governou a República Dominicana entre 1930 e 1961]. Ao mesmo tempo, [a Revolução Cubana] radicalizou várias gerações que questionavam a grande hegemonia militar e política dos EUA no Caribe.

    A Revolução Cubana é um feito que tem início em 1959 e que perdura até hoje. Quanto essa revolução mudou ao longo de 60 anos? Ela é monolítica ou foi reinventada?

    Arcadio Díaz-Quiñones Quando uma revolução termina? Essa não é uma pergunta fácil. Teríamos que falar em etapas diferentes, pois efetivamente a Revolução Cubana foi se transformando.

    Os primeiros anos representaram um movimento progressista diferente do modelo soviético, que provocava muita suspeita. Esses foram os anos das campanhas de alfabetização e de avanços muito significativos no acesso à educação e às instituições e aos programas de saúde. Isso continuou durante o inesperado alinhamento do governo revolucionário com a União Soviética, que marca outra etapa.

    A Cuba soviética deu uma guinada diferente, em grande medida para sobreviver às consequências do embargo comercial dos EUA. Essa etapa durou até a queda do Muro de Berlim [1989] e a implosão da URSS, em 1991. Então, se abriu uma outra etapa, muito dura, que o governo cubano chamou de “período especial”. Parecia o fim, pois foi um período caracterizado por uma grande escassez de alimentos e pela precariedade econômica. Nesses anos, a imagem que predominava já não era a do guerrilheiro heróico, mas a do balseiro [palavra usada para se referir aos cubanos que se lançavam ao mar em balsas improvisadas, na esperança de alcançar a costa dos EUA].

    Porém, o governo conseguiu uma saída graças, dessa vez, a uma aliança estreita com o governo de Hugo Chávez [que governou a Venezuela de 1999 a 2013, e que apostou na alta do preço do petróleo, principal produto de exportação venezuelano, para fortalecer laços comerciais e políticos na América Latina e no Caribe].

     

    A última etapa que teria de ser destacada é a que coincide com a retirada de Fidel por razões de saúde e com o início do governo de Raúl Castro [irmão de Fidel] a partir de 2006. Esse período culmina com os acordos realizados com o governo do presidente [dos EUA, Barack] Obama.

    O que Cuba era antes da revolução de 1959? E o que seria de Cuba hoje sem a revolução?

    Arcadio Díaz-Quiñones Sem dúvida, há um antes e um depois da Revolução de 1959. Antes, Cuba era uma república com uma história muito complexa, dominada pelo capital açucareiro cubano e americano, com suas próprias formas de racismo, e também com elites econômicas muito ricas, de um lado, e com classes trabalhadoras economicamente marginalizadas, de outro lado. Havana era provavelmente a cidade mais rica e moderna do Caribe. A república contava com tradições políticas muito diversas e com uma rica vida intelectual. Rafael Rojas [filósofo, historiador e ensaísta cubano, hoje residente no México] estudou isso brilhantemente.

    A Constituição de 1940 prometia um projeto democrático. Ao mesmo tempo, Cuba sofreu com governos autoritários e com a ameaça permanente de intervenção militar americana. O golpe de Estado de Batista, em 1952, terminou desatando uma verdadeira guerra civil, que terminou em 1959 com o triunfo de Fidel Castro, de Che Guevara e de outros guerrilheiros que comandaram a insurreição a partir da Sierra Maestra. Esse triunfo passou a ser o momento épico no imaginário revolucionário.

    Há uma Cuba antes e outra depois da revolução, mas é impossível para mim pensar em Cuba hoje sem a experiência da revolução, sem suas utopias e sem os seus fracassos.

    Na Guerra Fria, Nicarágua e El Salvador sofreram intervenções militares americanas. O que impediu que o mesmo acontecesse com Cuba?

    Arcadio Díaz-Quiñones A chave talvez seja o fato de a Revolução Cubana ter gozado de um apoio popular indiscutível. Ela contou ainda com um exército disciplinado e com uma pedagogia muito forte, que mobilizou mitos e identidades coletivas. A lealdade nacionalista é uma das provas de que em Cuba a revolução obteve um enraizamento profundo. Os flagrantes esforços dos EUA por intervir diretamente fracassaram. Apesar disso, os americanos conseguiram armar, subvencionar e proteger uma cultura contrarrevolucionária em cidades como Miami e San Juan de Porto Rico.

    Como é a relação dos pensadores das esquerdas da sua geração em relação a Cuba?

    Arcadio Díaz-Quiñones Parece-me boa a ideia de falar das “esquerdas”, no plural. Também em relação a isso, não podemos considerar que seja um processo monolítico. As diferenças entre as esquerdas marxistas e não marxistas, ou entre comunistas e cristão revolucionários são patentes.

    Eu falo a partir de uma experiência muito pessoal, pois a Revolução Cubana me marcou intelectual e politicamente, como a muitos porto-riquenhos da minha geração, tanto na ilha quanto nos EUA. É preciso lembrar que, nos EUA, a Revolução Cubana foi constitutiva do que se chamaria de “nova esquerda” nos anos 1960 e 1970, se identificando com a vigorosa luta contra a Guerra do Vietnã, e com a solidariedade ao movimento afro-americano pelos direitos civis. Para nós, porto-riquenhos, era atraente a ideia de uma utopia de nação moderna e democrática, livre da dominação americana. Já para outros, a luta armada exercia maior fascínio.

    Apesar disso, para muitos de nós foi uma desilusão ver como o governo revolucionário cubano assumia, com grande vontade de poder, formas autoritárias, e não apenas de culto ao líder carismático. Eu me refiro sobretudo à repressão aos homossexuais e aos dissidentes políticos, privados de legalidade e das atividades públicas, e acusados de serem “contrarrevolucionários”.

    Ficou claro que, apesar do apoio estatal à cultura, a censura aos escritores e artistas era praticada de diferentes maneiras. Um dos livros lançados recentemente mais ilustrativos a esse respeito é “La Fiesta Vigilada”, de Antonio José Ponte. Pessoalmente, fiquei muito impressionado que o grande historiador marxista do mundo açucareiro, Manuel Moreno Fraginals [1920-2001], tenha decidido se exilar no fim da vida [1994].

    Devo dizer o seguinte: as esquerdas sempre preferiram minimizar a crítica pública à revolução, como forma de evitar uma cumplicidade com a política dos EUA. Mas eu acho que isso gerou um grave erro, que foi dar a grupos conservadores e ultradireitistas o monopólio da crítica.

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