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Marcello Quintanilha e a tensão social das cidades nos quadrinhos

Quadrinista residente e premiado na Europa aposta em personagens periféricos, baseados na realidade nacional, para chegar a leitores do mundo inteiro

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    Nascido em 1971, em Niterói, o quadrinista Marcello Quintanilha exibe um portfólio de três décadas de publicação, um prêmio em Angoulême - festival internacional de maior prestígio dos quadrinhos - e a aceitação nacional e internacional por crítica e leitores.

    Através da crônica visual da realidade brasileira, com texto coloquial e traço realista influenciado pelo fotojornalismo, conta histórias que acredita ter apelo para qualquer um, mesmo quem nunca leu um quadrinho.

    Vindo de Barcelona (onde reside há mais de uma década) a São Paulo para a edição de 2016 do evento de quadrinhos Fest Comix, realizada em junho, ele diz não se sentir “nem 10 centímetros longe do Brasil”.

    Experiente e afastado geograficamente - e só nesse aspecto - do país, Quintanilha avalia o momento interessante vivido aqui: celebra a possibilidade de autopublicação e divulgação pela internet das obras autorais, apesar de ir com cautela nas previsões.

    Quintanilha é autor de “Hinário Nacional” (2016), “Talco de Vidro” (2015), “Tungstênio” (2014), “Sábado dos Meus Amores” (2009), de uma edição do projeto Cidades Ilustradas em que transformou em livro as ruas de Salvador, e de outras sete, em co-autoria, da série policial “Sept Balles pour Oxford”, publicada na Bélgica.

    O quadrinista falou ao Nexo sobre o momento atual dos quadrinhos, sua admiração por Machado de Assis e sobre como as cidades são retratadas nos seus trabalhos.

    Como as paisagens das cidades moldam as histórias que você conta?

    Marcello Quintanilha As cidades são muito importantes pra mim por uma razão muito precisa. Eu nasci em um antigo bairro operário de Niterói chamado Barreto.

     

    Foi um lugar que teve um apogeu econômico nos anos 50 e depois dessa época tudo passou a ser decadência. As fábricas fecharam, os times de futebol deixaram de existir, as vilas operárias foram se descaracterizando, as lojas foram fechando, tudo foi se perdendo. Então tudo que eu via na minha infância e adolescência dizia adeus o tempo todo. Não tenho nenhuma referência do local onde eu nasci, acho que isso me fez ficar muito apegado à perspectiva da cidade como um elemento quase pessoal, quase corporificado. Também, o fato de eu ter tido a felicidade de conhecer o universo no qual escritores como Lima Barreto, Machado de Assis e Nelson Rodrigues transitaram. Ter conhecido esse local transcrito por eles nos romances me afetou muito, foi muito importante pra mim. Você passa a encontrar uma correlação em você mesmo, a partir da literatura, do que você viu, dos locais que você conhece. Acho que essa importância [da cidade] vem daí.

    Você lia e identificava aquela paisagem passando por um lugar e isso te marcava?

    Marcello Quintanilha   Sim, claro. Eu tive a felicidade de poder presenciar isso. Machado de Assis foi muito importante pra mim, foi um escritor pelo qual fui praticamente obcecado durante muito tempo. Não só pelo que ele escreveu, mas pela forma como ele foi capaz de escrever, pela forma como ele lutou contra a pobreza, como ele lutou pra se projetar na sociedade da época, pelas limitações físicas que a própria vida impunha a ele.

    Fazendo uma relação com o que você contou sobre o lugar onde nasceu, isso era inspirador?

    Marcello Quintanilha Não em relação à minha vivência, mas inspirador no sentido da admiração pura e simples. Eu realmente admiro muito alguns artistas a esse ponto. A impressão que eu tenho quando leio Machado de Assis é que eu tô escutando música. Pela forma como as palavras se encadeiam, por exemplo. E essa maneira escorreita de se tratar a prosa é algo muito fundamental pra mim, na minha maneira de escrever. Eu acredito muito na força disso.

    Isso é uma coisa que você busca fazendo quadrinho?

    Marcello Quintanilha Eu busco a comunicação acima de tudo. E eu trabalho pra que essa comunicação ocorra da maneira mais direta e escorreita possível.

    O que é exatamente essa comunicação de que você fala? É chegar ao leitor?

    Marcello Quintanilha Sim, é chegar ao leitor de uma maneira que eu considero honesta. Porque pra que você consiga chegar aos leitores da maneira como eu acho que consigo, pelo menos gosto de pensar que sim, é preciso haver uma relação de absoluta confiança entre o autor e o leitor. E eu parto do princípio de que as pessoas são realmente capazes de compreender e apreender absolutamente tudo que eu tô colocando pra elas. Acho que isso pra mim é chegar ao leitor. É o que é mais importante pra mim.

    Você mora em Barcelona, cidade que foi sede olímpica e sofreu transformações profundas. Como você enxerga o impacto que sediar essas Olimpíadas vai ter no Rio?

    Marcello Quintanilha Qualquer impacto que se sofra vai ser sentido especialmente durante o período do evento mas depois disso, no meu ponto de vista, a infraestrutura da cidade vai permanecer essencialmente a mesma. Toda a infraestrutura que supostamente poderia advir do evento é um argumento muito utilizado por políticos. Temos um déficit de infraestrutura que vai muito além de simplesmente reestruturar a mobilidade da cidade, vai ao nível do saneamento básico.

    Não me parece um argumento realmente válido que os políticos lancem mão dos jogos pra a partir daí passar a investir em determinados pontos da infraestrutura, que já deviam estar sendo saneados dentro da administração pública regular.

    No caso de Barcelona é preciso levar em conta que ela já era [antes das Olimpíadas de 1992] uma cidade estruturada, já tinha toda a mobilidade, a infraestrutura construída independente dos Jogos. A cidade não se tornou infraestruturada a partir dos Jogos Olímpicos, ela se reorganizou a partir deles, essa é uma diferença substancial.

    Como você faz quadrinhos sobre o Brasil estando há mais de uma década fora dele?

    Marcello Quintanilha  O Brasil que está nas minhas histórias não é o Brasil que eu vejo. Não é o que eu observo porque eu não acredito no poder da observação, pura e simplesmente, porque isso implica uma distância entre o observador e aquilo que é observado, e eu nunca trabalhei a partir da distância. Sempre parto do que sou como pessoa, e isso inevitavelmente está ligado ao que eu vivi no Brasil. O Brasil que eu retrato é o que tá comigo, simples assim. E não, não me sinto nem 10 centímetros longe do Brasil. Simples assim também.

    Você tem medo da perda da materialidade do livro? Você usa e-book, qual a sua relação com esse tipo de tecnologia?

    Marcello Quintanilha Não, eu não tenho nenhum medo disso. Porque não penso que os quadrinhos devessem estar circunscritos, eminentemente, a uma mídia como a impressa. Eu entendo os quadrinhos como uma linguagem que pode transcender a impressão e a dinâmica das páginas. Nunca trabalhei a partir do entendimento da página como unidade narrativa, eu sempre tentei transcender essa dinâmica. Sempre tentei trabalhar a linguagem em estado puro. Então não, não tenho nenhum tipo de problema com isso.

    Qual foi exatamente o impacto do fotojornalismo na construção do seu traço, da sua estética realista?

    Marcello Quintanilha Foi total, porque, através do fotojornalismo o que é muito claro pra mim é que você é capaz de observar o ser humano. Independente de qualquer intencionalidade que ele pudesse ter. Independente de qualquer preparação, colocação de luzes. Você tem o ser humano em estado puro, em posições muito comprometidas, muitas vezes. Posições às vezes quase impossíveis. Você diz “não é possível que esse ser humano se expresse dessa forma”, mas sim, ele se expressa. Aquele é o exato frame em que o ser humano se expressa exatamente daquela forma. Isso foi muito fascinante pra mim sempre. E eu sempre digo que aprendi sobre anatomia e movimento observando fotos de futebol da imprensa dos anos 1970. Foi exatamente assim que aprendi.

     

     

    Você gosta de futebol?

    Marcello Quintanilha Eu não suporto futebol (risos).

    É mesmo?

    Marcello Quintanilha Não, é mentira (risos). Eu assisto ocasionalmente.

    Você torce para o Barcelona?

    Marcello Quintanilha Qual será meu time em Barcelona? (risos)

    E aqui no Brasil?

    Marcello Quintanilha Aqui no Brasil meu time não existe mais. O único time com o qual eu tive alguma identificação - porque sou de Niterói, não sou carioca, nunca me identifiquei com os times do Rio - foi o time do meu bairro, que se chamava Manufatora. É o único time que me representou em algum momento.

    Falando ainda do prêmio em Angoulême, te surpreendeu que a coloquialidade de “Tungstênio” pudesse não só ser traduzida para o francês mas também entendida?

    Marcello Quintanilha Eu não sei se foi uma surpresa, mas eu realmente nunca acreditei na dinâmica de que uma coisa essencialmente brasileira seja impossível de ser compreendida por alguém que não tem contato com essa realidade. O fato de ele ter sido tão bem recebido pra mim foi muito gratificante, mas eu não me atreveria a dizer que foi uma surpresa pra mim. Porque seria pensar que as pessoas que se interessam por quadrinhos ou consomem quadrinhos, na França ou em qualquer lugar, seriam pessoas incapazes de entender coisas que pra mim são básicas. Eu não parto dessa premissa, não parto do princípio de que as pessoas são incapazes de entender o que quer que seja. As pessoas são capazes de entender absolutamente tudo.

    Atualmente existe uma demanda ou aceitação maiores para os quadrinhos?

    Marcello Quintanilha O momento em que a gente vive é muito interessante. Mas vivemos fases interessantes no quadrinho em momentos pontuais da história também.

    Você vê isso se renovar?

    Marcello Quintanilha Sim, vejo como uma coisa cíclica. A grande diferença seria saber se vamos ser capazes de manter a estrutura desse momento por mais algum tempo a ponto de que sejamos capazes de realmente ampliar o público de uma maneira substancial. Como eu falei em outras ocasiões sobre isso, precisamos de alguns anos ainda. Vivemos esse processo de renovação do quadrinho há pouco mais de uma década. O que, em termos editoriais, é muito muito pouco tempo.

    Você diz mundialmente ou aqui no Brasil?

    Marcello Quintanilha Mundialmente, editorialmente, dez anos é muito pouco tempo. Então vamos ter que esperar um pouco pra ver.

    Quando você foi morar fora, você sentia que não tinha espaço pra fazer quadrinho autoral no Brasil? Como você sentiu esse espaço lá, quando saiu [do país]?

    Marcello Quintanilha Não, não existia nenhum problema como esse, eu simplesmente gostava de Barcelona. E até hoje gosto, é uma cidade onde eu me sinto muito à vontade. O fato de morar na Europa não diminuiu a minha produção aqui no Brasil. Eu continuei publicando aqui. Os livros são publicados fundamentalmente no Brasil primeiro, antes de serem publicados na Europa. Nunca foi uma questão de espaço, nunca se tratou disso. Comecei a trabalhar com uma editora europeia, na época era um trabalho grande, a produção de sete álbuns para o mercado franco-belga. São alguns anos de produção.

    E o que você pode dizer, em termos de comparação, sobre como funciona o mercado europeu de quadrinho em relação ao brasileiro?

    Marcello Quintanilha O que eu posso dizer é que a Europa francófona vive muito o quadrinho. Existe um interesse muito grande das pessoas pelo quadrinho, em todos os níveis. Mas na forma como se estruturou o mercado franco-belga, não é uma coisa que esteja tão distante da realidade brasileira, porque está baseado fundamentalmente na produção de álbuns de periodicidade anual, vendidos em espaços como esse [a Gibiteria, na Praça Benedito Calixto, em São Paulo]. Existem muitos e muitos pontos de venda de quadrinho na França e na Bélgica.

    De onde você acha que isso vem, culturalmente? Por que é um cenário diferente?

    Marcello Quintanilha Isso vem de um processo histórico, vem da formação de uma demanda por um determinado tipo de trabalho. Vem de um interesse, de isso ser mantido ao longo dos anos através dos projetos educacionais. Nas escolas de base francesas é muito natural que a biblioteca de cada sala de aula tenha livros e quadrinhos em igual medida. O contato com quadrinhos se faz desde muito cedo na França. E é incentivado como uma…

    Como algo que não é diferente de ler um romance para escola.

    Marcello Quintanilha Exato. Vem de um processo histórico que implica muitos fatores. Vem da explosão de um tipo de gênero que acaba alavancando a produção de outros. Como “Asterix”, por exemplo. Vem de tudo isso.

    Você gostaria de ver isso sendo feito no Brasil? De ver quadrinhos serem mais lidos desde a infância?

    Marcello Quintanilha  Eu vejo muitas coisas acontecendo nesse sentido hoje em dia, muito diferentes do que acontecia quando eu comecei a fazer quadrinho. Eu acho que, veja, a gente tá em um processo muito interessante, e a possibilidade de que isso aconteça realmente está em formação no Brasil. Eu tenho muito cuidado quando falo do momento atual porque entendo esse momento como a colocação de alguns tijolos na construção dessa estrutura que é o entendimento da linguagem do quadrinho no Brasil. E aí não vou usar a palavra “mercado”. Mas acho que estamos nesse processo. Não sei o futuro disso, não tenho como prever. Mas que esse processo existe nos dias atuais, ele existe.

    Você saberia enumerar algumas das coisas que, como você disse, são muito diferentes hoje por aqui do que, digamos, há uma década atrás?

    Marcello Quintanilha Claro. Hoje você pode lançar um quadrinho independentemente, você tem ferramentas de financiamento coletivo, a própria internet é uma alavanca maravilhosa pra se começar a divulgar.

    Você acha que os quadrinhos chegam mais às pessoas que um romance? Que existe um bloqueio maior quando uma pessoa nunca leu um livro, que o quadrinho tem um apelo diferente?

    Marcello Quintanilha Existe uma teoria nesse sentido com a qual eu nunca estive totalmente de acordo, eu não sei se isso é totalmente verdade. Porque o fato de o quadrinho estar fundamentado em texto e imagem pode induzir a um pensamento como esse. Mas eu não tenho certeza de que isso seja totalmente verdade. Porque existem muitos tipos de livros, também.

    Qual você diria que atualmente é o perfil do leitor brasileiro de quadrinhos?

    Marcello Quintanilha Ah, eu não faço a menor ideia. Eu gosto de pensar que faço quadrinhos pra qualquer pessoa. Não só pessoas interessadas em quadrinho mas, sobretudo, pra pessoas que não são. Eu realmente não tenho uma ideia clara de quem pode se interessar pelo quadrinho que eu faço. Porque, de alguma maneira, o público se ampliou muito. E é muito difícil falar sobre isso. Gosto de pensar que o público de quadrinhos pode ser essencialmente qualquer pessoa, independente de ter tido contato com quadrinhos.

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