Filósofo diz que PSDB acabou e que fracasso de políticas do PT trará guinada à direita

José Arthur Giannotti vê crise de representatividade na política e diz que Dilma cai porque não governou: "Não foi eleita para ficar ocupando dois palácios"

     

    O filósofo e professor emérito da Universidade de São Paulo José Arthur Giannotti é uma referência para políticos do PSDB desde a fundação do partido, no final dos anos 1980. A relação próxima, principalmente com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, não o impede de criticar a legenda e diagnosticar, diante da falta de diálogo entre os principais líderes do partido, que “o PSDB acabou”.

    A crise de representatividade, no entanto, não é apenas um problema dos tucanos, mas de todos os partidos, segundo Giannotti. Prova disso é a guinada na política econômica da presidente Dilma Rousseff após as eleições de 2014. “Os eleitos se mostram não representativos do seu próprio campo eleitoral”.

    Uma reforma política, na visão de Giannotti, é urgente. Mas antes o filósofo diz que é preciso concluir o impeachment de Dilma Rousseff que “cai porque não governou”. “É uma situação horrível para o país, dolorosa, mas que eu não vejo outra saída”, diz.

    Leia os principais trechos da entrevista ao Nexo.

    Como a história vai olhar para a crise política que pode culminar no impeachment da presidente Dilma Rousseff?

    José Arthur Giannotti Mostra, de um lado, como as instituições estão fortes e conseguem resolver problemas. Do outro lado, como estamos diante de uma crise de representação. A pessoa que está no poder não consegue tomar decisões que são necessárias para o desenvolvimento do país. A Dilma faz uma campanha em que promete mundos e fundos e no final das contas, logo depois, começa uma política econômica muito mais próxima do adversário do que da tradição do seu partido. Ela teve, desde o início, uma oposição de seu partido, dos sindicatos, o que criou um vácuo de poder.

    Não existe vácuo de poder, alguém ocupa o lugar. O impeachment é um processo já previsto de como você desaloja a pedra que está ocupando o lugar e não está governando. É um processo com muito sofrimento, com muita luta, mas afinal de contas o Brasil precisa continuar.

    O senhor é favorável à alternativa de nova eleição em casos como o atual?

    Giannotti  Teríamos uma eleição com 30 partidos, sem que esse processo de representação fosse realmente renovado. Teríamos uma jogada em que poderia aparecer qualquer aventureiro, um [Fernando] Collor, um Jânio [Quadros].

    O que parece solução nada mais é do que o aprofundamento da crise de representação atual. Para ouvir a voz rouca do povo, é preciso que os mecanismos de audição estejam funcionando. E não estão. Espero que possamos aguentar o Temer, com todos os problemas que isso implica, e fazermos o mais rapidamente possível uma reforma política mínima que dê representatividade a tudo que for eleito e for decidido nos três poderes.

    O Congresso não demonstra os mesmos problemas de representação do Executivo?

    Giannotti  Sim, o Congresso é muito pouco representativo, mas mais permeável a certas questões. Mesmo que a gente tenha um processo ruim, que as pessoas não sabem em quem votaram para deputado ou senador, isso não significa que o eleito não fique de olho na base. Por mais que a representação seja defasada ou comprada pelos vários grupos que atuam no Congresso, ele é mais representativo que um presidente que simplesmente se isola na sua prepotência achando que o que ele quer fazer é que é o correto. 

    O Congresso é mais representativo que os outros poderes e por isso reagiu muito rápido ao fato de que a Dilma não conseguiu governar durante um ano. Ela cai não porque as pessoas são contra ela. Ela cai porque não governou e ela não foi eleita para ficar morando em dois palácios. Das medidas econômicas que ela propôs, nada foi de fato implementado. Ela não conseguiu nem mesmo diminuir seu salário. É uma situação horrível para o país, dolorosa, mas eu não vejo outra saída.

    A presidente culpa, em parte, a oposição pela crise econômica. Qual a participação do Legislativo na crise política?

    Giannotti  Para governar, principalmente no presidencialismo atual, você tem que conquistar votos no Congresso. Nas últimas vezes isso tem sido feito da pior maneira possível, comprando voto por voto. Quando nem isso funciona, como vai governar se não consegue aprovar as medidas que a sociedade está demandando? A economia está no fosso. O problema não é que houve oposição ao governo, ela que não soube construir sua posição.

    Em que o governo Michel Temer pode ser melhor?

    Giannotti Não sei, eu tenho medo do Temer. Pode acontecer com ele o que aconteceu com o Sarney: ele ficar travado. Nós fomos lançados no poço e o Temer está no poço conosco. Então vamos esperar que esse ministério dê certo, comece a funcionar e que ele consiga pelo menos endereçar o país para fora da crise.

    Que papel deve assumir o PSDB no governo Temer? O partido tem agido bem?

    Giannotti O PSDB não existe mais. A escolha do [João] Dória [como candidato a prefeito de SP], a maneira como os caciques do PSDB se defrontaram, destruiu o partido, que já estava afundando há muito tempo. Agora os candidatos não são escolhidos em torno de uma mesa de jantar, mas não existe interlocução entre Fernando Henrique Cardoso, Geraldo Alckmin, Aécio Neves e José Serra de uma maneira construtiva.

    Isso pode colocar o PSDB em um papel secundário nos próximos anos?

    Giannotti O que importa é que haja partidos representativos. Infelizmente, depois de uma política de esquerda fracassada e errada, teremos uma ida para a direita. É inevitável. Mas ela pode ser vantajosa, reformar o Estado.  Sou totalmente favorável às privatizações. Em um capitalismo de conhecimento, a propriedade não significa nada. O que nós precisamos é de agências reguladoras fortes. Estamos em uma fase de obscuridade, tempo de lua nova. Eu não tenho capacidade de ver o outro lado da lua, vamos esperar.

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