‘Mudança para o Brasil depende de fatores políticos’, diz Julian Assange

Fundador do Wikileaks comemora decisão da ONU que classificou como arbitrária sua prisão na Embaixada do Equador em Londres. Nesta entrevista, ele fala sobre seu futuro

     

    “Foi uma grande vitória”, disse Julian Assange sobre a recente decisão das Nações Unidas de classificar como “arbitrária” sua prisão na Embaixada do Equador em Londres e pedir sua liberdade. O Grupo de Trabalho da ONU sobre Detenções Arbitrárias pede, além da liberdade do ativista, uma reparação pelos anos que ficou sem liberdade.

    Assange está asilado no local há três anos e meio. Se sair dali, corre o risco de ser extraditado para a Suécia, onde responde a uma acusação de abuso sexual, ou para os EUA, onde pode responder pelo vazamento de documentos confidenciais do governo americano. Os governos sueco e britânico não aceitaram o pedido da ONU, razão pela qual ele ainda permanece na Embaixada.

    O ativista é fundador, editor e porta-voz do Wikileaks, organização dedicada a tornar públicos documentos e informações confidenciais de empresas e governos. Ao longo da última década, a organização tem vazado uma série de documentos secretos de governos, entre eles o dos Estados Unidos, incluindo informações sobre o exército e correspondências confidenciais das Embaixadas norte-americanas, criando mal-estar e provocando crises internacionais.

    Figura controversa, Assange se tornou uma espécie de porta-voz de causas relacionadas à transparência e da livre circulação de informações na internet. Teve sua vida retratada em filmes. Também virou inimigo dos governos.

    Ele já demonstrou interesse em mudar-se para o Brasil após obter a liberdade, e mesmo instalar a sede de sua organização no país. Nesta entrevista ao Nexo, ele afirma que a decisão, porém, dependerá de “fatores políticos”. Entre esses fatores está a própria permanência de Dilma Rousseff na Presidência.

    Acha que já é possível vislumbrar uma vida fora da Embaixada, vivendo em outro país?

    Julian Assange

    Sem dúvidas, foi uma grande vitória [a decisão da ONU]. Um painel de especialistas, no órgão que é a grande autoridade mundial a decidir quem está preso de maneira ilegal ou não, afirmou que eu estou detido de forma arbitrária, e vem repetidamente deixando isso ainda mais claro nas últimas semanas. No entanto, o Reino Unido e a Suécia mandaram sinais de que não sentem que devem respeitar essas determinações, e ambos devem entender que existem riscos ao fazer isso. Agora está nas mãos das Nações Unidas para fazer valer a sua determinação, de uma maneira ou de outra.

    Qual o atual estado das suas negociações com o governo sueco para que seu depoimento seja enfim tomado?

    Julian Assange

    Não fomos requisitados a dar nenhum depoimento. Vamos ser claros: existe um processo em andamento nos Estados Unidos, e isso é muito sério. Chelsea Manning foi sentenciada a 35 anos de prisão. Sobre o caso da Suécia, eu já fui liberado de todas as acusações pelo procurador-chefe e a própria pessoa que havia me acusado assumiu que inventou a história. Eu não fui formalmente processado, no entanto eu venho sido mantido detido - em prisão domiciliar no Reino Unido e agora na Embaixada - por cinco anos [ao todo]. Periodicamente, o Estado sueco busca dizer que fará algo em relação ao meu caso, mas eles já se recusaram a me ouvir quando eu estava sendo mantido em prisão domiciliar no Reino Unido, recusaram-se a me ouvir por telefone, videoconferência, pessoalmente e na Embaixada.

    Por diversas vezes você já afirmou que a América do Sul poderia ser o seu destino, e já disse que poderia mudar a sede do Wikileaks para o Brasil. Ainda pensa nisso?

    Julian Assange

    O mais importante é que nós encontramos muito apoio público no Brasil. Também dentro da imprensa brasileira, com a qual colaboramos frequentemente, existe um grande apoio, o que poderia ajudar com que nossas operações funcionassem em relativa liberdade no país. Porém, tal mudança dependeria de fatores políticos. A verdade é que o Wikileaks está engajado em um processo muito sério, no qual os serviços de inteligência norte-americano e britânico e o Departamento de Estado vêm perseguindo a  mim, a organização e nossas fontes, e isso faz com que a decisão de que país seria mais seguro para nossas operações possa variar de acordo com circunstâncias políticas de cada país.

    Foto: Toby Melville /Reuters
    Julian Assange segura cópia da Declaração de Direitos da ONU em Londres
    Julian Assange segura cópia da Declaração de Direitos da ONU em Londres
    Como vê a possibilidade dessa mudança diante do enfraquecimento político do governo Dilma?

    Julian Assange

    Nós temos diversos contatos dentro da mídia brasileira, e o apoio público de que desfrutamos poderia criar o ambiente favorável para essa mudança. Mas a verdade é que o governo Dilma se encontra muito enfraquecido politicamente. E tal mudança dependeria muito de quem estará na Presidência do Brasil.

    Você vê a possibilidade de uma onda de mudança nos governos de esquerda da América do Sul e a ascensão de governos de centro-direita?

    Julian Assange

    Não, acredito que ainda é muito cedo para dizer que isso é uma tendência. As experiências políticas brasileira e venezuelana já duram muitos anos, então é natural que exista um desgaste político. Porém, o momento é complicado mais por razões econômicas, não vejo uma onda de mudança grande o suficiente para a ascensão de governos mais conservadores no continente. Pelo mundo, vamos encontrando a tendência contrária, como no caso do Canadá, que elegeu um governo mais progressista, ou mesmo quando notamos a ascensão da esquerda na Espanha, com o Podemos. No Reino Unido há a figura de Jeremy Corbyn, no Partido Trabalhista, enquanto nos Estados Unidos há a campanha do senador Bernie Sanders, que vem conseguindo resultados extraordinários contra Hillary Clinton nas primárias do Partido Democrata.

    No livro “The Wikileaks Files”, há um capítulo sobre a América do Sul, no qual é discutido como os Estados Unidos buscam desestabilizar governos de esquerda e centro-esquerda na América do Sul. Particularmente, há um documento que indica que os Estados Unidos tentaram deseastabilizar a Venezuela em parceria com o Brasil. Pode comentar a respeito disso?

    Julian Assange

    Isso é correto. No entanto, não é nada novo: os Estados Unidos e o Reino Unido já tentam influenciar a política da América Latina há centenas de anos. O livro descreve como o governo norte-americano tentou pressionar o governo da Venezuela buscando um acordo com o governo do Brasil, mas tal plano não foi posto em prática porque o governo brasileiro se negou a colaborar.

    Vazamentos, fugas e prisões: entenda o caso Julian Assange

    O Wikileaks foi fundado em 2006. A organização ganhou projeção mundial com três grandes vazamentos. O primeiro deles, em 2007, foi o vídeo que ficou conhecido como “Collateral Murder”, que mostra um helicóptero norte-americano metralhando e assassinando um grupo de doze pessoas em Bagdá, incluindo dois jornalistas da agência de notícias Reuters. Dois anos depois, foram publicados mais de 90 mil documentos secretos dos Estados Unidos referentes à Guerra do Afeganistão e cerca de 390 mil sobre o conflito no Iraque.

    Em 2010, o Wikileaks fez o seu maior vazamento: colocou na internet 250 mil documentos norte-americanos no escândalo que ficou conhecido como Cablegate, que mapeou a política externa dos Estados Unidos através de escritos dos seus embaixadores e representantes espalhados pelo mundo em missões diplomáticas.

     

    Indicada como responsável pelo vazamento, Chelsea Manning, então soldado Bradley Manning, foi julgada nos Estados Unidos e punida com uma pena de 35 anos de detenção, que por hora cumpre na prisão da Baía de Guantánamo, em Cuba. De acordo com as próprias Nações Unidas, ela estaria sujeita a tortura psicológica e sendo tratada de maneira “desumana”.

    No meio do escândalo dos vazamentos, em 2010, voltou à tona uma acusação de estupro e abuso sexual contra Julian Assange - ele teria cometido os crimes contra duas suecas nos arredores de Estocolmo. Naquele mesmo ano, ele foi submetido à prisão domiciliar no Reino Unido. Temendo ser extraditado para a Suécia e, de lá, para os EUA, ele buscou asilo na Embaixada do Equador. Assange nega as acusações e diz que elas teriam conexão com um processo interno movido nos Estados Unidos contra ele, por espionagem.

    Em 2013, o Wikileaks também contrariou o governo norte-americano ao se envolver na fuga de Edward Snowden, ex-funcionário da CIA que vazou informações sobre a Agência Nacional de Segurança dos EUA. Em  23 de junho daquele ano, Snowden embarcou para a Rússia com apoio logístico de Sarah Harrison, membro do Wikileaks.

    Parceria Transatlântica e documentos sobre refugiados são vazamentos recentes

    Apesar dos problemas jurídicos de Assange, o Wikileaks continua a operar e a tornar disponíveis documentos que considera importantes para a opinião pública. Recentemente, a organização ofereceu uma recompensa de 100 mil euros por informações e relatórios das negociações confidenciais do TTIP (Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento), um tratado de livre comércio entre os Estados Unidos e a União Europeia que vem sendo negociado em clima de secretismo e tem gerado protestos em diversos países da Europa nos últimos meses.

    O TTIP criaria a maior zona de livre comércio do mundo, abrangendo cerca de 800 milhões de consumidores, e criaria regulações compartihadas entre a UE e a América do Norte, em áreas que tangem, por exemplo, leis de segurança alimentar, regras ambientais e regulamentos bancários.

    Novo vazamento revela campanha para conter onda de refugiados

    Em outubro de 2015, uma manifestação na cidade de Berlim, na Alemanha juntou  partidos de esquerda, ambientalistas e organizações não governamentais para protestar contra a implantação do TTIP, tendo atraído entre 100 mil (de acordo com a polícia) e 250 mil manifestantes (de acordo com as organizações que organizaram a marcha). Na mesma semana, protestos menores ocorreram em Amsterdã, na Holanda, e em Londres, no Reino Unido.

    Ainda nesta semana, a organização fez outra revelação importante, por meio de um documento referente à “Operação Sophia”, que apresentou informações detalhadas de uma campanha liderada pelos militares da União Europeia para conter a onda de refugiados que vêm para a Europa fugindo de conflitos no Oriente Médio e Norte da África.

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