Brasileiros deveriam se orgulhar do 'jeitinho', diz pesquisadora

Economia informal pode trazer grandes lições de inovação e ideias para subverter o sistema

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Você não precisa ter uma grande empresa e aparecer na capa de uma revista de negócios para ser um grande inovador. Na verdade, muitas das pessoas que estão mudando a economia estão fora do nosso radar: são desde vendedores de leite de camelo nos EUA, traficantes no México, piratas na Somália a engenheiros que tentam subverter o sistema dentro de uma grande companhia.

O que todos essas pessoas têm em comum é o fato de elas não se adequarem aos padrões. Por isso, são consideradas “desajustadas”. No entanto, seja atuando no mercado ilícito, informal ou nos espaços mais tradicionais, os supostos desajustados estão mudando o mundo. E têm muito a ensinar.

É por isso que as pesquisadoras Alexa Clay e Kyra Maya Phillips foram estudar os “desajustados". Elas conversaram com mais de mil indivíduos dentro da economia informal ao redor do mundo” para entender quais lições eles podem nos dar sobre como inovar no mundo de hoje. O resultado foi organizado em um livro, a  “Economia dos Desajustados”, lançado no final de 2015 no Brasil.

Desajustados e empreendedores são parecidos: correm riscos e perseguem a liberdade

Um desajustado, segundo elas, é qualquer um que se recuse a aceitar as coisas do jeito que são. "Verdadeiros desajustados não procuram prover uma mera substituição para um serviço existente; eles questionam, antes de tudo, se esse serviço é necessário”, escrevem as autoras.

No entanto, isso não impede que eles copiem algo que já existe. Muitas vezes empreendedores copiam um serviço que não existe em seu país, ou simplesmente oferecem uma versão mais barata. Essas cópias, também conhecidas como “copycat”, também fazem parte da "Economia dos Desajustados”.

Desajustados e empreendedores são parecidos. Ambos correm riscos e perseguem liberdade e autonomia por meio de suas paixões e necessidades. No entanto, um desajustado vai na contracultura, é questionado, desafio o sistema e, muitas vezes, é mais vulnerável.

Alexa Clay, uma das autoras, que também se considera uma desajustada, esteve no Brasil no início de dezembro para lançar o livro. Filha de dois antropólogos, ela conta que sua mãe pesquisava abdução alienígena e o pai estudava culturas indígenas, incluindo brasileiras.

Ela contou sua história e o quanto se considera uma desajustada em uma palestra na House of Learning, uma casa de compartilhamento de conhecimento, em São Paulo. O Nexo assistiu à apresentação. Nela, Alexa defendeu que há cinco elementos essenciais que podem ajudar a qualquer um liberar seu desajustado interior: hustle (termo que significa algo como o “instinto de correr atrás do que se quer"), copiar, hackear, provocar, e pivot (outro termo que não tem uma tradução exata, mas é usado no sentido de “mudar e ir em outra direção”.).

Após a apresentação, conversamos com a pesquisadora que vê no “jeitinho brasileiro”, uma virtude da “Economia dos Desajustados”. Leia abaixo a entrevista: 

 

A "Economia dos Desajustados” surge quando o governo falha?

Alexa Clay

Não, sempre houve essa economia, inclusive antes do capitalismo. As próprias pessoas que fazem as regras do jogo também realizam coisas ilegais, mas elas têm mais poder.

Que tipo de sistema faz a “Economia dos Desajustados" surgir?

Alexa Clay

Depende de qual setor dessa economia você está falando. Se estamos falando da máfia, ela pode ser fruto de um sistema com pobreza, racismo, um meio onde as pessoas precisam sofrer. Se você está referindo a desajustados dentro do sistema, então podemos falar de pessoas que desenvolveram sua autoconfiança, sua unicidade, que perceberam que a educação não é uma fábrica.

E a tecnologia é essencial para o desenvolvimento dessa economia?

Alexa Clay

Às vezes sim. Às vezes não. Terroristas usam tecnologia. Eles usam alguns aplicativos como Telegram ou WhatsApp. Cartéis mexicanos usam o Twitter... A deep web também dialoga com a economia dos desajustados. Silk Road, um dos maiores sites de vendas de drogas, era um bom exemplo dessa economia se desenvolvendo.

Tecnologias como bitcoin impulsionam a "Economia dos Desajustados"?

Alexa Clay

Sim. Muitos criminosos, terroristas e anarquistas fazem uso do bitcoin. Esse é um sistema que pode ser usado para o bem e para o mal.

O “jeitinho brasileiro” é muito diferente dos outros exemplos da economia dos desajustados? Há algo especial nos brasileiros?

Alexa Clay

Vejo essa personalidade do brasileiro, do "jeitinho”, como uma forma de driblar o sistema e encontrar uma forma de fazer as coisas acontecerem. É o “hustle”. Os brasileiros se sentem meio envergonhados por isso, mas podem se orgulhar.

No Brasil, estamos em um momento que se discute muito sobre crise. A “economia dos desajustados” pode ajudar o país sair da crise?

Alexa Clay

Sim, como esse tipo de economia não depende de grandes instituições, as pessoas desenvolvem resiliência. Mas, às vezes,  contextos de crise podem deixar as pessoas com medo, fazendo-as se apegarem ainda mais ao modelo tradicional. No entanto, é um momento de reinvenção em que as pessoas veem que o sistema tradicional está falindo. Daí surgem novas possibilidades e ideias, fazendo com que haja uma evolução.

Você vê a criatividade necessária para isso no Brasil?

Alexa Clay

Com certeza. As pessoas estão questionando e se transformando mais, vendo como podem viver agora, como se adaptar. Em países como a Alemanha, Inglaterra e EUA, os indivíduos são mais racionalistas e é difícil propiciar mudanças.

É importante perceber que a criatividade pode se manifestar de maneiras diferentes. Não se trata apenas de criar novos negócios, mas criar uma comunidade, mudar uma política pública. Veja essa incrível campanha feminista que começou quando eu estava aqui no Brasil, a do #meuamigosecreto e a história do primeiro assédio. São todas ações da “economia dos desajustados”. Tratam de provocação e confronto, não de negócios. São pessoas que querem hackear o sistema.

Em seu livro você fala muito de exclusão e violência. Qual a relação entre violência e essa a necessidade dos desajustados mudarem o sistema?

Alexa Clay

A questão da violência não pode ser entendida como bem versus mal. A violência é um comportamento aprendido. Ela se espalha como doença. Como se combate isso? Tenho trabalhado com muita gente que acredita que o segredo é levar o amor (à comunidade, à humanidade). Precisamos de uma revolução no coração, pois vivemos momentos muito racionalistas.

Esse senso de comunidade pode alimentar a "economia dos desajustados"? Ou ela é mais individualista?

Alexa Clay

As motivações dentro dessa economia são as mais distintas. Podem ser pela comunidade, como também podem ser sobre dinheiro, ego e reputação.

E o desenvolvimento dessa economia é uma resposta à desigualdade do mundo?

Alexa Clay

Muitas vezes sim. Em algumas situações a necessidade de sair da burocracia tem a ver com entrar em contato com a comunidade, propiciar o autogoverno, dar poder à população. A maior parte dos problemas do mundo vêm da necessidade de subjugar os outros — por meio de um sistema econômico ou militar.

Hoje se discute conceitos como “pós-capitalismo” e “economia colaborativa”. Essas ideias dialogam com a “economia dos desajustados"?

Alexa Clay

Talvez. Mas, muitas vezes, a economia colaborativa é construída em cima de poderes já estabelecidos — não existe um compartilhamento real. Está acontecendo uma guerra cultural. Por isso, é importante discutir-se diferentes modelos de empreendedorismo e é válido que essa discussão aconteça. Do contrário, os empreendedores acabam recorrendo a investidores e meios tradicionais de poder.

 

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