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Caridade é bom, mas tem de ser racional, diz filósofo

Australiano Peter Singer diz que ajudar as pessoas mais vulneráveis é um dever moral - mas os atos têm de ser pensados e calculados sem a influência da emoção

     

    O filósofo australiano Peter Singer afirma que fazer caridade é um dever moral e deveria ser um ato obrigatório. Mas também argumenta que é preciso fazê-la de maneira racional - e essa preocupação também deveria ser um dever moral.

    No livro "The Most Good You Can Do: How Effective Altruism Is Changing Ideas About Living Ethically" (O Maior Bem Que Se Pode Fazer: Como O Altruísmo Eficiente Está Mudando Ideias Sobre Como Viver Eticamente, sem tradução no Brasil), ele ataca a caridade impulsiva, que é feita para que nos sintamos bem. Para Singer, esses atos são tão ineficientes quanto não fazer nada para mudar o mundo.

    Para ele, é possível perseguir uma vida bastante ética com o altruísmo eficiente: a filantropia precisa ser feita racionalmente, levando em conta não o apelo emocional da causa, mas como e quanto exatamente nossos atos podem impactar efetivamente o mundo.

    O que é o altruísmo eficiente?

    PETER SINGER

    É a ideia de que deveríamos nos basear em evidências e na nossa habilidade em analisar evidências, e em sermos racionais [quando fazemos caridade ou ajudamos alguém] para garantir que, seja lá o que fizermos, tenha a maior possibilidade de ter efeito prático. Usar seus recursos para conseguir que o altruísmo tenha as melhores consequências.

    E essa ideia é específica para momentos em que queremos ajudar alguém ou é possível aplicar a outros campos da vida?

    PETER SINGER

    É possível, certamente. Mas uma das coisas interessantes é que as pessoas sequer aplicam a filosofia quando fazem caridade. Elas não avaliam se estão fazendo aquilo da melhor maneira, para obter os melhores resultados possíveis. E por isso o altruísmo eficiente é tão importante.

    Dar esmola é um jeito ineficiente de fazer caridade, por que é baseado em emoção?

    PETER SINGER

    Certamente. Esse é só um exemplo. Um exemplo muito maior é o do [produtor musical] David Geffen, que doou US$ 100 milhões para a renovação do Lincoln Center [complexo de edifícios em Nova York que funciona como sede de companhias artísticas]. Agora, ele se perguntou se essa era a melhor coisa que ele podia fazer com aqueles US$ 100 milhões? Eu duvido muito, porque posso pensar facilmente em coisas que trariam muito mais benefícios do que renovar uma casa de espetáculos que as pessoas já usam de maneira muito confortável.

    Daria também para aplicar o conceito nas iniciativas de crowdfunding e mobilizações de ajuda a causas humanitárias na web?

    PETER SINGER

    É necessário lembrar que essas causas mobilizam as pessoas, elas querem ajudar e isso é ótimo. Mas como elas estão de fato ajudando, para onde esse dinheiro está indo? Eu acho que pensar nisso também é importante. De maneira geral, muitas organizações que já têm uma estrutura funcionando são as que ganham mais dinheiro, enquanto as causas mais emergentes, que precisam organizar uma estrutura do nada muito rapidamente têm mais dificuldade de levantar fundos. Muitas coisas não ganham as manchetes.

    O que o livro diz: em The Most Good You Can Do, Singer defende que cada indivíduo tem a obrigação moral de viver uma vida ética e fazer caridade. A ideia não é se perguntar quais questões são mais urgentes, mas em que causa nossa caridade pode ter o maior impacto.

    E por que as pessoas não têm o costume de acompanhar a rota e a aplicação dos recursos que doam?

    PETER SINGER

    A caridade é uma decisão emocional, não racional. As pessoas doam de maneira impulsiva. Os psicólogos chamam isso de warm-glow giving, o ato de doar para se sentir bem por acreditar que está fazendo a coisa certa. Isso acontece em nível emocional, e meu argumento é que embora ajudar os outros seja ótimo e o certo a se fazer, não é o suficiente. É preciso usar a cabeça tanto quanto o coração.

    E como é possível viver uma vida mais ética em um contexto em que pequenas ações aparentemente inofensivas acabam gerando consequências sociais ruins? Por exemplo, comprar um celular pode significar explorar mão-de-obra infantil na extração de algum mineral em um país em um país em desenvolvimento.

    PETER SINGER

    É possível viver uma vida 99% ou 98% ética. Algumas pessoas conseguem chegar a 60% ou 70%, digamos. E isso já faz diferença. Se todo mundo conseguisse viver de maneira ética - em relação ao consumo de carne animal e à caridade, por exemplo - em uma parte significativa da vida, isso já teria um impacto significativo.

    Peter Singer diz que altruístas eficientes procuram fazer o bem o máximo que puderem e não se sentem culpados pelo que são incapazes de realizar. Uma maneira de atingir esse nível de ética é consumindo menos e tirando empolgação e prazer de outras coisas que não sejam consumo. “Mas ninguém está querendo ser um santo, então a ideia também não é andar usando farrapos”, disse ele em uma entrevista coletiva no Reddit.

    A ideia geral de ética começa com proibições, de que você não deveria mentir, roubar ou trair. Mas como temos um mundo muito claramente dividido entre ricos e pobres, eu acho que não é suficiente que aqueles que estão muito bem somente deixem de matar, roubar, trair e mentir. Os ricos têm obrigações em relação àqueles que vivem em uma situação extrema de pobreza.

    Quais são suas próximas sugestões e trabalhos para trazer as pessoas até esse nível de 60% ou 70% de ética no dia-a-dia?

    PETER SINGER

    O altruísmo eficiente ainda é um conceito novo, então pretendo continuar falando sobre ele. Também quero olhar mais para gerações mais recentes, que estão procurando maneiras de contribuir com organizações que precisam e fazendo isso via iniciativas tecnológicas.

     

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