Foto: Yves Herman/Reuters - 17.set.2020

Uma recuperação verde da América Latina é necessária


Os programas de recuperação da pandemia que priorizarem a produtividade, a inclusão e a resiliência levarão à maior competitividade e inovação, e trarão confiança para governos e instituições

A crise climática na América Latina e no Caribe não vai passar. O clima, assim como a pandemia da covid-19, afeta em maior escala os mais vulneráveis da região. Apenas em termos de migração, poderia haver até 17 milhões de refugiados ambientais em nossos países até 2050, vindos de locais onde os meios de subsistência estão ficando cada vez mais comprometidos pela mudança climática. Tanto a pandemia quanto a crise climática estão exacerbando as desigualdades subjacentes e o baixo desempenho econômico. À medida que avançamos em relação à recuperação da covid-19, temos que buscar uma maneira melhor de reconstrução levando em consideração a iminente crise climática.

Atualmente, a maior parte dos países latino-americanos está enfrentando dois grandes desafios: recuperar-se de uma grave recessão econômica e promover transformações estruturais necessárias para o crescimento inclusivo e o desenvolvimento sustentável, de forma a oferecer a todos a possibilidade de sair da pobreza. Os programas de recuperação da pandemia que priorizam a produtividade, a inclusão e a resiliência levarão à maior competitividade e inovação, e construirão a confiança em governos e instituições. Isso proporcionará à América Latina e ao Caribe condições de combater a covid-19 e a mudança climática e ajudará a reconstruir o contrato social tão importante para acelerar a redução da pobreza e a prosperidade compartilhada.

Tanto a energia quanto os meios de transporte limpos são setores-chave na agenda regional para uma melhor reconstrução. Embora a América Latina já produza a maior parte de sua eletricidade a partir de fontes renováveis, a geração hídrica, que é a principal, está ficando gradualmente mais vulnerável às variações climáticas. Será cada vez mais difícil encontrar o equilíbrio e manter o ritmo devido ao aumento esperado da demanda com a redução da crise da pandemia. Energias renováveis não-tradicionais, em particular, a eólica e a solar, podem ser competitivas em termos de custo em vários países se as barreiras regulatórias e contratuais à sua integração na matriz energética forem ultrapassadas. Investimentos em eficiência energética em edifícios poderiam reduzir as pegadas de carbono e gerar muitos empregos de baixa qualificação durante suas reformas.

a mudança para uma economia sustentável e de baixo carbono poderia acrescentar US$ 535 bilhões ao PIB brasileiro até 2030

No setor de transporte, deve-se dar alta prioridade a um novo foco sobre o transporte público. Projetar cidades de forma a evitar sua expansão e incentivar o desenvolvimento urbano próximo aos centros de transporte como estações de metrô e paradas de ônibus ajudariam a reduzir a demanda pelo transporte motorizado. Essas demandas deveriam caminhar lado a lado com sistemas de transporte rápido em ônibus e metrô, que integrem cada vez mais veículos elétricos.

Quando bem feitas, a adaptação e a criação de resiliência à mudança climática podem gerar economia e benefícios sociais e ambientais significativos, estimulando o crescimento e os empregos, ao mesmo tempo em que constroem o capital natural. Investimentos em infraestrutura de adaptação como a construção de estradas e moradias mais resistentes às variações climáticas, por exemplo, podem ter efeitos positivos imediatos sobre o emprego na construção civil e melhorar a situação das famílias ao longo prazo. Para cada US$ 1 milhão investidos na construção civil, calcula-se que cerca de 200 postos de trabalho sejam criados na Bolívia, 130 na Nicarágua e 120 em Honduras. Segundo um relatório recente do World Resource Institute e New Climate Economy, a mudança para uma economia sustentável e de baixo carbono poderia acrescentar US$ 535 bilhões ao PIB brasileiro até 2030 se comparado ao cenário habitual de negócios.

As alternativas de baixo carbono não têm que comprometer os resultados do desenvolvimento, a estabilidade macroeconômica ou a sustentabilidade da dívida. Embora a difícil situação fiscal na região possa apresentar um desafio para as iniciativas climáticas, ela poderia servir de incentivo para redirecionar os programas de apoio ao uso não-sustentável dos recursos naturais ou dos modelos de carbono intensivo que mantêm os países operando com baixa produtividade e diminuem a competitividade. O redirecionamento dos US$ 240 bilhões estimados em subsídios anuais ao setor de combustíveis na região poderia abrir espaço para investimentos em energia e transporte limpos e levar os países da América Latina e do Caribe para um futuro com baixas emissões de carbono.

Essa é a razão pela qual vários países colocaram a mudança climática e o desenvolvimento inclusivo e resiliente no centro dos planos de recuperação da pandemia na região. A Colômbia incluiu o crescimento limpo (“Producir conservando y conservar produciendo”) e o apoio à sua bioeconomia. O Chile já anunciou que 30% dos recursos adicionais para investimentos públicos em seu plano de recuperação da covid-19 (“Paso a paso, Chile se recupera”) serão usados para projetos verdes e sustentáveis.

O Banco Mundial é um parceiro nesse esforço. Aprovamos US$ 6,6 milhões para financiar a resposta de emergência na Dominica, com ênfase na ampliação da capacidade do sistema de saúde e fortalecimento da segurança alimentar, tanto para a resiliência climática quanto para a recuperação imediata da economia. Apoiamos o Uruguai com US$ 40 milhões em financiamentos para mitigar o impacto econômico e social da crise da covid-19, ao tempo em que criamos as bases para uma recuperação econômica sólida e resiliente. Essa foi uma resposta crucial à pandemia que atingiu o país conjuntamente a uma estiagem severa que impactava sua produção agrícola. Em toda a nossa carteira regional, unimos o investimento na resposta e recuperação da pandemia a financiamentos que priorizam o desenvolvimento inclusivo e a resiliência no longo prazo.

Assim como a pandemia da covid-19, a mudança climática enfraqueceu a segurança pública e a prosperidade em toda a região. Combater ambas ao mesmo tempo é a chave para uma reconstrução melhor.

Carlos Felipe Jaramillo é vice-presidente do Banco Mundial para a América Latina e o Caribe.

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