Foto: Ricardo Moraes/Reuters

Quarentena brasileira: a responsabilização individual


Ausente na coordenação de medidas unificadas de combate ao novo coronavírus, o Estado brasileiro tem delegado ao indivíduo a responsabilidade pela sobrevivência

“Fique em casa”, “fique em casa se puder”, “fique em casa se puder e se não puder nós estaremos orando por você”. Esses lemas — de modo desproporcional no tempo e nas práticas — têm sido os hits de campanhas que demonstram bem as teses que têm guiado a quarentena no Brasil desde o início da pandemia de covid-19, em março de 2020. Ausente na coordenação de medidas unificadas de combate ao novo coronavírus, o Estado brasileiro tem delegado ao indivíduo a responsabilidade pela sobrevivência.

Salvo resguardados, em um momento inicial, por medidas rigorosas adotadas de modo descompassado pelos governos estaduais em truncados diálogos com as prefeituras municipais, o que vimos durante o “fique em casa” foi uma população com muito medo. Medo do vírus, medo da morte, medo por si e pelo outro, medo da fome que mataria antes do vírus, medo de perder o emprego, ou de não encontrá-lo, medo de perder aquele “bico” que estava arranjado, medo de ficar sem renda...

O “fique em casa” foi decisão séria, incontestável, que acompanhava o fluxo mundial de medidas de combate ao novo coronavírus, mas que requeria pulso firme, um passo adiante, apoio e protagonismo do Estado.

No “fique em casa se puder”, vimos uma redução do rigor das medidas de distanciamento social — até então encabeçadas pelos governos estaduais e municipais — e expressa na reabertura do comércio, marcada pelo fatídico tapete vermelho em shopping center na cidade de Blumenau, estado de Santa Catarina. O comércio voltava a funcionar sem nunca ter fechado de fato.

E a população? Dividida, vê seus medos fortalecidos por um sentimento de desamparo. Jörg Friedrichs e Niklas Stoehr dizem que, quando as pessoas têm muito medo, elas tendem a seguir seus líderes em vez de expressar discordância, e que elas assumem as partes que mais lhes convêm do discurso deles, justamente aquelas que fundamentam suas crenças e seus desejos.

E é buscando amparo na esperança do “não é bem assim”, “pode ser que a covid-19 seja só uma gripezinha mesmo” que a quarentena à brasileira eclode. Forjada no autoritarismo, no medo e no desamparo.

A pandemia da covid-19 foi capaz de colocar uma camada a mais de problemas à despedaçada democracia brasileira

Eclode, mas não sem crítica, não sem resistência, não sem marcha pela vida e plano nacional de enfrentamento à pandemia da covid-19, não sem manifesto de fóruns, redes, articulações, movimentos e organizações da sociedade civil, não sem histórias edificantes de solidariedade e inovação em abastecimento de alimentos em todo o país, proveniente de redes alimentares localizadas.

A quarentena no Brasil vem mesclando, sobretudo, teses rigorosas sustentadas pela ciência e outras mais flexíveis — apoiadas em adaptação metodológica de protocolos sanitários, e de anti-isolamento — assentadas no negacionismo científico que, em seu conjunto, dão origem a uma quarentena bem particular, “à brasileira”.

Permeada de aflições — mais de 2,2 milhões de casos confirmados e mais de 84 mil mortos até a tarde desta sexta-feira (24) — a fase do “fique em casa se puder e se não puder nós estaremos orando por você” é consequência de uma política anti-isolamento adotada pelo Planalto.

O resultado dessa política é visível nas ruas. As pessoas estão circulando, afirmam Frédéric Vandenberghe e Jean-François Véran: “a grande maioria circula sem dúvida por absoluta necessidade, porque, fora o auxílio emergencial de R$ 600 para os mais pobres, o Estado prefere deixar sua população ser contaminada a protegê-la por meio de um verdadeiro plano de ajuda financeira”. Continuam os autores: “não nos enganemos: se parte dos setores populares hoje segue o seu líder, acreditando no anti-isolamento, é por não ter as condições de permanecer em casa”. E, acrescento, por ser inadmissível acreditar que está desamparado. É “melhor para o país” acreditar que os números não são esses, conforme expresso pelo líder no processo de escalada do apagamento dos dados de covid-19 no início do mês de junho.

Ausente na coordenação de medidas unificadas de combate ao coronavírus, o Estado brasileiro tem delegado a cada um a responsabilidade pela sua própria sobrevivência quando deixa de planejar o isolamento social, não disponibiliza testes em massa, não garante renda mínima, confere a cada um a confecção de sua própria máscara apostando que por meio dela estaremos salvos, quando desautoriza médicos e equipes de saúde ou impõe a eles protocolos arriscados, quando deixa os seus povos tradicionais (quilombolas e indígenas) serem dizimados pelo vírus, quando declara estado de calamidade pública e não justifica o uso do recurso público, ou quando retarda o fechamento das fronteiras, se indispõe com a Organização Mundial de Saúde, com a China, ou se esquiva em estabelecer parcerias internacionais. E a lista segue...

Nestes meses, a pandemia da covid-19 foi capaz de colocar uma camada a mais de problemas à despedaçada democracia brasileira. E acompanhando o restante do mundo, o Brasil segue afrouxando o isolamento social, com uma particularidade, a quarentena por aqui tem sido no mínimo controversa. Estamos há meses retomando as atividades sem ter atingido o pico da curva de contágio, com sistema de saúde sobrecarregado, sem medidas preventivas unificadas para os locais de trabalho. A que preço? O que já estamos pagando.

Daniela Aparecida Pacífico é socióloga, coordenadora do Grupo de Estudos Sociais em Ciência e Tecnologia, da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).

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