Foto: Nacho Doce/Reuters

Por que precisamos de uma agenda urbana do clima


Qualquer campanha eleitoral que não tenha como uma das diretrizes o combate ao racismo ambiental para propor políticas públicas está incompleta e falha ao tentar criar um plano de governo mais inclusivo

Há exatamente um ano, uma exposição sobre mudanças climáticas fazia com que nos perguntássemos sobre qual cidade queremos ter. O prenúncio da mostra “O dia seguinte”, lançada em outubro de 2019 na Cidade das Artes, no Rio de Janeiro, já nos preparava para as próximas eleições municipais, que acontecem em um contexto político que nos empregou infindáveis retrocessos. Em contagem regressiva para a maratona eleitoral, a reflexão das cidades como palco de disputas territoriais, conflitos e negligências entra em choque com um lugar de proposição, soluções e de esperança que todos desejamos. Almejamos, porém, sob quais limites e contrapartidas?

Uma das minhas principais convicções políticas é a de que a agenda do clima não se esgota unicamente em uma questão ambiental. É uma pauta de inclusão social e de economia. Isso nos impõe o desafio de repensar a construção das cidades sob um horizonte inegociável de justiça social. Ou seja, um plano de bairro que não endereça soluções para os problemas urbanos que afetam as populações mais vulneráveis é um planejamento falido. Qualquer campanha eleitoral que não tenha como uma das diretrizes o combate ao racismo ambiental — fenômeno que nos intima a compreender a cidade de acordo com as complexidades raciais e territoriais — para propor políticas públicas está incompleta, e falha ao tentar criar um plano de governo mais inclusivo.

Na contramão dessa incongruência, nasceu a Agenda Urbana do Clima. Um projeto que mapeou e propôs dez ações prioritárias, partindo dos eixos de saúde, emprego e mobilidade — todos transversais à temática da emergência climática. Em um olhar com afinco para o futuro pós-pandemia, o projeto se antecipou na reflexão dos desafios a serem enfrentados pelas próximas gestões municipais. O objetivo é qualificar o debate e a decisão dos eleitores diante das propostas apresentadas por seus candidatos e candidatas.

Se queremos sonhar com espaços públicos mais sustentáveis e eficientes, precisamos, antes, de uma participação cidadã mais ativa na governança

Fato é que o enfrentamento à crise climática e urbana precede a cena eleitoral que se aproxima. Segundo a OMM (Organização Meteorológica Mundial), enquanto o ano de 2019 encerrou a década mais quente já registrada até hoje, nossas cidades brasileiras seguem disputando a marca recorde das suas temperaturas locais. Não muito distante, o mês de setembro de 2020 foi, abruptamente, o mais quente de todos os tempos em todo o mundo. No Sudeste brasileiro, no início de outubro, São Paulo registrou a marca de 37,4ºC, que é o segundo recorde da cidade, e Belo Horizonte chegou a temperatura máxima de 37,8ºC, a maior contabilizada na capital. Já no Centro-Oeste, Cuiabá, no Mato Grosso, chegou a marca de 44ºC — a maior temperatura desde 1910. O município de Águas Claras, no Mato Grosso do Sul, atingiu 44,6ºC, segunda maior medição registrada no Brasil. Os dados são do Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia).

Para além de uma disputa do quão próximos estamos — ou vivemos? — de um colapso climático, as cidades representam o maior entrave à redução das emissões de gases de efeito estufa, sobretudo nos setores de transporte, energia, resíduos e industrial. Enquanto os espaços públicos estiverem lotados de transporte individual motorizado em detrimento do transporte público e da mobilidade sustentável, intensificamos não apenas as desigualdades sociais, como também as consequências — gravíssimas — da poluição do ar na saúde e respiração da população. Todos os dias, respiramos um inimigo invisível, que causa aproximadamente 2.500 mortes prematuras por ano.

Tudo isso reitera a urgência de priorizar o orçamento público nas áreas que possuem os piores indicadores sociais, logo, têm menor capacidade de resposta e adaptação aos eventos extremos. Nas regiões periféricas, episódios de corpos negros e marginalizados sendo soterrados e levados pelas águas das enchentes se repetem a cada ameaça pluvial. Embora a agenda climática insista que o percurso de mudanças sistêmicas é parte de uma visão de longo prazo, precisamos de novas vozes para apontar caminhos e soluções, questionando todas as possibilidades de futuro que temos. Afinal, o fortalecimento de uma agenda pública demanda não apenas recursos, mas vontade política e sensibilidade para ressignificar a infraestrutura urbana, superando as desigualdades históricas, restaurando ecossistemas destruídos e priorizando uma política de moradia popular e inclusiva nas cidades.

Assim, o conceito de justiça climática é uma advertência às autoridades, a fim de que elas racializem a agenda do clima. O debate climático pode — e deve — ter um compromisso com questões de raça, de gênero, no combate às desigualdades e sobre qual futuro deixaremos para as próximas gerações. E, hoje, nosso cenário ainda está em débito com essa realidade. Se queremos sonhar com espaços públicos mais sustentáveis e eficientes, precisamos, antes, de uma participação cidadã mais ativa na governança. Precisamos que nossos representantes no Executivo decidam “criar planos de ação climática municipais com planejamento e gestão multissetoriais, incorporando a governança regional e metropolitana, integrada e participativa, e com objetivo de mitigar as emissões de gases do efeito estufa e aumentar a resiliência das cidades”, como menciona a primeira ação proposta na Agenda Urbana pelo Clima.

Andréia Coutinho Louback é jornalista, mestra em relações étnico-raciais e especialista em justiça climática. Entre suas atuações profissionais, coordena a área comunicação e mobilização no eixo de justiça climática e socioambiental do programa Prioridade Absoluta, do Instituto Alana.

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