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Foto: Ricardo Moraes/Reuters

Por que não devemos chamar o coronavírus de democrático


Diante de todas essas carências e desigualdades, as mazelas do novo coronavírus estariam mais para uma loteria de cartas marcadas

Tem se ventilado pelos cantos do mundo virtual e nas mesas de jantar, onde as pessoas se aglomeram em quarentena, como esse novo coronavírus é assustadoramente democrático. Tal concepção é fruto de uma comparação antropomórfica escatológica, que faz juízo do mundo natural baseado no mundo humano (e vice-versa). Uma falácia naturalista em que o mundo humano é utilizado — praticamente transplantado — para explicar o mundo natural, do mesmo modo que se utiliza o raciocínio inverso (o mundo natural explicaria todas as idiossincrasias das sociedades humanas). Essa tentação pode ocultar a complexa explicação do fenômeno, motivada por uma expectativa simplista e irreal.

Devemos rejeitar essa ideia de “vírus democrático” porque supõe danos igualitários, que atingiriam a todos, sob uma régua de igualdade. Contraditoriamente e de forma hiperbólica, alguns até o comparam com o tirano do universo cinematográfico da Marvel: um Thanos democrático que sorteia as vítimas, sem preferências. Isso é problemático por dois motivos. Primeiro: democracia é um sistema político complexo e, em suas diferentes possibilidades, nunca se resume ao paradigma da igualdade de condições, presume muitas outras características, como publicidade dos atos públicos, participação popular, liberdades etc. O segundo motivo pelo qual esse argumento é frágil é o que vou destacar neste texto: o vírus não atinge a população de modo igualitário sob nenhum aspecto. Não há igualdade de condições ou resultados, nem no início, nem no fim.

O vírus não é democrático porque a probabilidade de se contaminar ou receber tratamento e, consequentemente, sobreviver, não o são. Isto é, o vírus seria democrático se a sociedade fosse democrática. Embora a falta de imunidade contra o novo coronavírus possa nos convencer de que a sociedade seja igualitária diante da pandemia, tal não passa de ilusão de ótica, que propaga o vírus de uma falsa democracia e nutre falsas esperanças. A única igualdade se resume à falta de memória imunológica, restrita ao nível molecular e ambiente vascular, subcutâneo — não passa da pele.

As chances de contaminação não são as mesmas. Pessoas adensadas em uma pequena área são bem mais eficientes em propagar partículas nanoscópicas do que pessoas vivendo em casas ou até apartamentos espaçosos, com várias medidas possíveis de mitigação e supressão. Variações nas condições sanitárias fazem diferença numa pandemia. Além disso, nesta guerra, há patentes privilegiadas e os soldados rasos: muitos trabalhadores continuam sendo requisitados nos seus postos de trabalho sob a ameaça de serem demitidos ou terem salários ainda mais cortados, no momento em que mais podem precisar de um amparo e algum suporte financeiro.

Vírus não são democráticos, sociedades podem ser, ou reproduzir uma ilusão específica de democracia. Vírus são tiranos!

Se todas as barreiras acima da pele falharem em conter o contato do vírus com o sistema imunológico, é um postulado duvidoso o de que o vírus invade células de diferentes pessoas com a mesma probabilidade (ignorando a genética). A imunidade de todos seria igualmente hábil em lidar com corpos estranhos, independentemente de suas condições biopsicossociais? Pelo que consta, qualidade de vida conta. E quem pode dizer que a qualidade de vida é igualmente distribuída entre as diferentes parcelas da sociedade? Sem qualidade de vida e alimentação adequada, a população mais vulnerável pode ter imunidade reduzida e outras comorbidades que podem agravar os riscos.

Outra desigualdade que toca o corpo é em relação aos cuidados médicos. Considerando os casos graves, os ricos mais suscetíveis teriam maior suporte para lidar com problemas de saúde. Alguém duvida? Apesar de todas as deficiências dos planos de saúde privados no Brasil, continua sendo um privilégio de poucos poder contar com essa alternativa para tratamento hospitalar, bem como o acesso a fármacos, alimentação adequada e outros meios para atenuar e tratar sintomas severos de qualquer doença. As mortes de pessoas abastadas são exceções que chamam a atenção; morte de pobres continua sendo apenas estatística. Confirmando essa triste constatação, o levantamento em cidades, como São Paulo, tem mostrado que o risco de morte pode ser até dez vezes maior em bairros mais pobres.

Portanto, ainda no nível corporal, a população de baixa renda é bastante afetada pela estrutura desigual da sociedade, mas vai muito além. Há grande ruído na comunicação e aceitação da quarentena, por exemplo. Para a população periférica, qualquer campanha pode parecer distante e coisa de outro mundo: “coisa da China”, “coisa da Europa”, ou “coisa dos ricos”. Afinal, é cínica uma campanha que pede para lavar as mãos para quem tem dificuldade para obter água potável. Nesse caso, as mãos já foram lavadas: dos governantes e de toda a sociedade que tolera tal descaso. (Considere-se também como parte da solução ou do problema!) Já que os alertas estão distante da realidade dessa parcela da população, pode ser difícil convencê-los de modo eficaz a se prevenirem. As mensagens dúbias do governo (ou desgoverno) demoram para chegar nas periferias; as ações, ainda mais. Os problemas e fontes de letalidade na periferia são muitos e podem chamar mais atenção do que um vírus recém-chegado da Europa.É difícil pensar num eventual coronavírus de amanhã quando a sua casa está sendo alagada ou se passa fome hoje.

Diante de tudo isso, é importante rejeitar a ilusão de “vírus democrático”, pois seria desconsiderar toda essa gama de vulnerabilidades da população mais pobre. Seria a reprodução de um cinismo, e seria confundir um elemento da democracia teórica com a democracia real. O vírus não iguala todos os seres humanos, sob a lente da igualdade imaginária. Pelo contrário, expõe o descaso com as condições precárias de vida (e a própria vida) e com uma desigualdade latente, pulsante e real, que determina os resultados dessa pandemia para os diferentes grupos da sociedade. As vulnerabilidades não são igualmente divididas pela população. A maior parte da população é tratada como gado a ser abatido, seja nas periferias, pelas mãos da criminalidade ou de uma polícia feroz, seja nos postos de trabalho, em situações de semiescravidão.

A ilusão de igualdade, porém, pode nos servir de inspiração e provocação para mudanças em direção a esse ideal. A ideia de que, no fundo, somos todos vulneráveis, como seres humanos, partícipes da mesma aventura da existência, poderia nos tornar mais empáticos e prudentes em relação a uma gama de vulnerabilidades que saltam aos olhos (e deveriam causar irritação). Assim, daríamos as mãos aos nossos irmãos, para garantir uma democracia real e não uma falácia.

Democracia real é um sistema de governo do povo para o povo, nunca de um vírus para o povo. Muitos acham que vivemos nesse sistema, outros seriam céticos sobre essa afirmação, e poderiam incluir a miragem do “vírus democrático” apenas como um paroxismo da nossa doença contemporânea: a reificação das aparências. Vírus não são democráticos, sociedades podem ser, ou reproduzir uma ilusão específica de democracia. Vírus são tiranos! Diante de todas essas carências e desigualdades, as mazelas do novo coronavírus estariam mais para uma loteria de cartas marcadas. Nesse caso, o vírus é um Thanos que pode vir a escolher suas vítimas a dedo, ou pior: um vírus, que diante da omissão estatal, já escolheu suas principais vítimas.

Portanto, nesta pandemia, há mais do que o vírus, e os avanços da medicina não serão o bastante. Reconhecendo a falácia, é preciso transformar a igualdade formal em igualdade real, numa lógica de justiça distributiva: todos têm direitos e deveres iguais, considerando a medida de suas desigualdades de condições. Sendo assim, é indispensável que o Estado e os demais agentes públicos, incluindo os setores produtivos e a sociedade civil, participem como atores engajados no alcance dessa igualdade, conforme esperado numa sociedade democrática.

Hermano Gomes Lopes Nunes é mestre em zoologia pela PUC-RS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul), professor de biologia e perito criminal.

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