Foto: Jose Cabezas/Reuters

Os impactos da pandemia para a agricultura e a alimentação


Uma gripe local se transformou em uma pandemia planetária e reforçou novamente a centralidade e a importância da conexão natureza-comida-saúde para a humanidade

A principal hipótese para o surgimento do novo coronavírus é o contato entre animais selvagens e humanos em um mercado de alimentos na China. A partir de uma situação rotineira, uma gripe local se transformou em uma pandemia planetária e reforçou novamente a centralidade e a importância da conexão natureza-comida-saúde para a humanidade. Tudo indica que a crise terá impactos enormes para a alimentação e a consequente produção e processamento de alimentos em todo o planeta.

Na mesma China, em 2019, uma doença dizimou uma grande parte do maior rebanho de porcos do mundo e ameaçou a segurança alimentar da sua população. Para enfrentar a crise, o país passou a importar carne suína do Brasil, criando grandes oportunidades comerciais, mas desequilibrando o preço da carne para os brasileiros. O aumento do consumo de carne exige maior produção de grãos. Ambos pressionam o desmatamento, que impacta a biodiversidade e o clima. A redução da biodiversidade causa desequilíbrios ecológicos, aumenta o risco biológico e o surgimento de doenças. Enfim, somente mais um exemplo de que essa espiral em que a economia se imbrica na ligação natureza-agricultura-alimentação-saúde somente se acentua.

Além de continuar enfrentando a fome, temos muito mais a fazer no campo da sustentabilidade e da segurança alimentar. Há dois grandes pontos de atenção nessa arena. Primeiro, a forma como cultivamos plantas e criamos animais impacta a natureza. Segundo, os alimentos que produzimos com resíduos de agrotóxicos e manipulados pela indústria causam doenças crônicas, como o câncer e as resultantes da obesidade e da desnutrição. Esse fenômeno é bem conhecido e é o lado silencioso do impacto do sistema agroalimentar na saúde, mas que tem se tornado um dos principais causadores de mortes em todo o mundo. A não tão nova novidade e que tende a se acentuar e nos impactar mais fortemente é a transferência de doenças de animais usados na alimentação (selvagens ou domésticos) para os humanos, matando de maneira mais aguda e visível que as doenças crônicas.

O consumo de carne é chave nesse jogo e é possível pensar em impactos da covid-19 nos hábitos alimentares e seus desdobramentos para a indústria de alimentos e a agricultura. O primeiro e mais óbvio é a intensificação do vegetarianismo, agora em um novo contexto, e a consequente diminuição do consumo e da produção de carne.

Uma mudança mais radical é uma aceleração da preferência pela carne e comida artificial. Essa implica no rompimento da conexão comida-natureza, alimento-agricultura, e elimina a figura do agricultor e produtor rural. Cria uma nova geopolítica global e desloca o poder entre e dentro dos países. Vem com a promessa de longo prazo de entregar alimentos seguros, saudáveis, saborosos, baratos e sem impacto ambiental. Como agrônomo, essa opção não me agrada. O meu ideal é continuar comendo algo natural, que resulte do plantio de uma semente na terra e da fotossíntese, mas concordo que a promessa da comida industrial é tentadora.

No curto prazo é certo que o rigor sobre a origem, a qualidade e a sanidade dos alimentos vai aumentar substancialmente, especialmente no comércio internacional. Novas regulações públicas e privadas devem surgir, exigindo altos controles sanitários.

aproveitar a enorme oportunidade à nossa frente exige uma guinada brusca

A comida artificial pode deslocar a produção de alimentos dos países que têm terra e recursos naturais para os industriais, deixando os países em desenvolvimento e produtores de commodities agrícolas, como o Brasil, sem papel na economia mundial e ainda mais na periferia do mundo. É um grande motivador para pensarmos seriamente em investir no desenvolvimento industrial e de serviços tecnológicos para o país e diminuir drasticamente a dependência da produção e exportação de commodities. Sem tirar o papel da nossa agricultura, isso teria muitos efeitos colaterais positivos, inclusive políticos, com a diminuição do poder da elite agro-conservadora que boicota e barra um projeto mais sustentável e inclusivo para o país.

Já no campo da comida produzida pela agricultura, a pandemia abre mais uma enorme oportunidade para o Brasil. Tem sido afirmado repetidamente o potencial único de combinarmos uma grande potência agrícola e ambiental, praticando uma agricultura eficiente, que conserva e restaura a biodiversidade, aumenta o equilíbrio biológico e fornece serviços ambientais. Também podemos ter uma produção e alimentação diversa, inclusiva e que de fato contribui para a saúde e o desenvolvimento e não somente para o crescimento econômico. E estamos muito bem posicionados no campo da sanidade vegetal, animal e da segurança alimentar. Muito mais do que os países emergentes do agro, como a China e outros da Ásia e da África. O controle da febre aftosa é o exemplo do Brasil para o mundo.

Mas isso não será alcançado na atual rota do Planalto ou do Congresso. Pelo contrário, aproveitar a enorme oportunidade à nossa frente exige uma guinada brusca e mudanças estruturais na pesquisa, no público prioritário e nas políticas agrícola, agrária e ambiental no país.

Luís Fernando Guedes Pinto é doutor em agronomia e agrônomo do Imaflora.

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