Foto: Alex Pazuello/Semcom

Os efeitos psíquicos da morte em massa no imaginário social


É no princípio de ‘igualdade mórbida’ do vírus que a perspectiva da morte se amplia. A morte em massa, tradicionalmente referida às populações precarizadas no Brasil, aparece como possibilidade, se não para todos, para grande parte da população

A morte em massa parece ter se apresentado como um tema novo no cotidiano do brasileiro desde a chegada da covid-19 em nosso território. Ora, o encontro com a morte no Brasil, um país que gera índices de homicídios dignos de nações em guerra, não parece trazer muitas novidades, salvo o fato de que se tratou, ao menos a princípio, de um risco de contaminação mais democrático do que o país costuma ser. Qual seria então a novidade?

A análise da situação psíquica coletiva da pandemia, a partir do modelo clássico freudiano do mecanismo da rejeição, parece ter algo a nos dizer novamente — sabendo desde já do risco de reduzir a complexidade da situação social brasileira a um modelo extemporâneo.

Freud descreveu a “verwerfung” como a operação psíquica que rejeita determinados elementos da realidade promovendo uma cisão radical deformadora da experiência do sujeito, mantendo-o alheio à sua própria história. No caso coletivo do Brasil, essa rejeição incide ao que parece estar agrupado em torno da ideia de morte em massa, como um elemento a ser silenciado e relegado à uma espécie de spam psíquico. Esses conteúdos ficam à margem da possibilidade de representação, sem conseguirem se transformar em pensamento. A novidade — como um paradoxo escondido na areia — é o fato de que nosso verdadeiro distanciamento social passou a ser desvelado e imposto às custas de uma espécie de retorno do rejeitado, rompendo com a possibilidade de negação que o caracterizava.

Na atividade clínica individual, esse funcionamento aparece ligado, sobretudo, às experiências traumáticas na forma como a psicanálise tradicionalmente as concebeu. Em resumo, tudo se passa como se o sujeito não conseguisse transformar em pensamento determinadas experiências que viveu ao mesmo tempo em que é assombrado por elas, atuando e repetindo compulsivamente as condições que as gerou, como uma tentativa desesperada de torná-las parte do eu. De um ponto de vista coletivo podemos sustentar a ideia de que a rejeição funcionaria do mesmo modo: atuamos e repetimos, compulsivamente, a violência da exclusão que atravessa a história do nosso país em uma tentativa, sendo bastante otimista, de integrar ao corpo social parte do que rejeitamos e que somos nós mesmos.

A rejeição da morte em massa parece atender à necessidade de manter fora do campo da consciência nosso histórico escravocrata

Hélio Pellegrino chamou a atenção para a particular formação do pacto social do brasileiro dentro também da perspectiva da psicanálise que articula o pacto social ao pacto edípico como o modelo freudiano clássico para a entrada na cultura. O pacto edípico, segundo Freud, regula o pacto social e é o modo privilegiado de estruturação subjetiva da família moderna. Diz respeito à experiência de renúncia do desejo incestuoso em troca de um projeto identificatório que aloca a criança nos valores sociais compartilhados. Repressão, renúncia e identificação são os pilares desta forma de estruturação subjetiva.

Ora, do ponto de vista social, como nos ensina Pellegrino, as razões que justificariam a renúncia ao desejo proibido não estão garantidas para o brasileiro comum, em função justamente da exclusão social, que deixa muita gente de fora dos ideais e dos valores da “cultura”. A rigor, em uma perspectiva social e histórica que leve em conta a experiência devastadora da escravidão e a gênese violenta do Estado brasileiro, o modelo edípico — pai, mãe e filho — como fiador da entrada na cultura, mediante a internalização da lei, parece realmente distante.

Outra condição importante do pacto social é a formação de uma aliança inconsciente que está na base das formações de vínculos. Renne Kaes, psicanalista francês, vai definir a aliança inconsciente como a necessidade de colocar de fora da consciência determinados conteúdos para a manutenção do vínculo social, um esforço estruturante mas que também pode ser patológico. Ele pressupõe de fundo um outro pacto, o pacto denegatório, que é o acordo inconsciente firmado para que o vínculo permaneça — a despeito dos interesses dos sujeitos — protegendo algum benefício coletivo, ao preço do desconhecimento do que está em jogo para cada um nesse vínculo.

No caso do Brasil, a rejeição da morte em massa parece atender à necessidade de manter fora do campo da consciência nosso histórico escravocrata. Se, em 1983, Pelegrino nos alertava para os riscos de uma atuação antissocial crescente com o rompimento do pacto social, talvez agora devêssemos incluir a dissolução do pacto denegatório, última aliança inconsciente do combinado democrático.

Foi preciso aguardar ainda alguns anos para entender que somos “contemporâneos da nossa escravidão”, como afirma Tales Ab’Sáber, por meio da perpetuação dos seus ideais e modos de subjetivação que operam desde o silenciamento e a recusa simbólica dessa experiência, dando continuidade à pesquisa das relações entre a psicanálise, a subjetividade e a história.

Não somos o “Édipo-rei” mas talvez encontramos em “Pai contra mãe” o mito machadiano fundador da nossa tragédia: “trabalhadores escassos de lucros” pegando no chicote para a captura de escravos-irmãos fugidios; “crianças de pouco tempo entrando sem vida neste mundo” entre os gemidos da mãe. A escravidão, que parece ter esquecido de levar consigo alguns ofícios e aparelhos, costura a máscara de flandres da pandemia moderna: um artefato que protege o corpo dócil e produtivo do escravo para otimizar a sua exploração.

É no princípio de igualdade mórbida do vírus, no entanto, que a perspectiva da morte se amplia. A morte em massa, tradicionalmente referida às populações precarizadas no Brasil, aparece como possibilidade, se não para todos, para grande parte da população. Não se trata mais de angustiar-se diante da dor do outro e com isso mobilizar as ações restaurativas do tecido social, como neuroticamente funcionamos durante muito tempo.

Em tempos de covid-19, a indesejada das gentes passa a ser o prenúncio da nossa própria morte. A morte em massa é o rejeito da nossa história, um navio negreiro devolvido da ressaca do mar oleoso, da lama de Brumadinho e Mariana, do genocídio da população indígena, da população preta, pobre e periférica, e que atravessa agora a rua da casa de todo mundo. Como se, a exemplo de Édipo, fosse esse o destino trágico de Candinho — o caçador de escravos fugidios de Machado de Assis — que para evitar a morte do filho acaba assassinando a mulher que o levava no ventre.

Marília Velano é psicanalista, mestre em psicologia/psicanálise pela Universidade Paris 7, Denis Diderot, e professora do Departamento de Psicanálise da Criança do Instituto Sedes Sapientiae de São Paulo.

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