Foto: Rodrigo Garrido/Reuters

O tempo acidentado da pandemia e sua relação com o ‘normal’


Há um tempo de estabelecimento, diante de mais uma doença incontrolável, letal e transformadora dos nossos ritos cotidianos, que já deu conta de escamotear o efeito de surpresa e do risco da morte

Desde o início da pandemia, li e respondi diversos textos que anunciavam o porvir de uma nova realidade e de um novo tempo a partir de um acontecimento “sem precedentes”. Alguns textos, sobretudo de filósofos — idealistas e materialistas — pareciam ignorar absolutamente todos os eventos históricos e a relação inseparável do que poderíamos chamar de humanidade com as sucessivas pandemias planetárias.

O trabalho historiográfico do infectologista Stefan Cunha Ujvari (em “A história e suas epidemias: A convivência do homem com os microrganismos”) é minucioso ao desvelar a intrínseca relação entre história e epidemias: poderíamos adotar, rigorosamente, o enunciado de que a história é uma história de epidemias. Se nos atermos aos grandes períodos, o desenrolar da humanidade é atravessado por irrupções epidêmicas de forma praticamente invariável, constante.

Os efeitos de uma epidemia podem derivar para diversos caminhos: escrevemos sobre, transforma-se a forma como escrevemos, esquecemos sobre, arquivamos sobre, destacamos sobre, memorizamos sobre. O flâneur em uma cidade como a de São Paulo é um contemplador da nossa lida com epidemias. A intimidade do paulistano com nomes como Oswaldo Cruz, Adolfo Lutz, Vital Brasil e Emílio Ribas é inversamente proporcional ao saber sobre suas posturas heroicas frente à peste.

Aqueles que não se alienaram minimamente foram testemunhas do óbvio: taxas de salvamento absurdamente desproporcionais entre hospitais de luxo e sucateados, o mesmo entre públicos e privados, readaptação ao cotidiano mais segura em bairros de classe alta, países ricos recebendo insumos hospitalares com mais facilidade, oscilações nas bolsas de valores engordando as grandes fortunas, supervalorização imobiliária no mercado de luxo, etc. Enfim, o caráter adaptativo é próprio da especulação, da virtualidade, do dinheiro.

Há repetições e novidades nesta pandemia: a contingência reforçou a ideia de desaceleração própria que um certo romantismo apregoava diante da velocidade que é marca das relações contemporâneas. Boa parte da literatura apresentava enquanto recurso diante de uma epidemia a saída para as cidades do interior, o “desligamento” da relação com o grande e a reformulação com o pequeno: a família, os amigos, os pequenos círculos de troca fortalecidos diante da magnitude e dos perigos das megalópoles. Isso se repete: a procura por imóveis grandes, as fugas ao interior e os recursos de prazer ligados às pequenas celebrações foram adotados na clausura. A novidade do campo digital diminuiu a angústia da distância e deslocou até os mais resistentes às telas: afinal e sobretudo, o trabalho não pode parar.

A inclusão da ideia de morte no cotidiano produziu em um amigo a ideia de conceber um filho, de legado e transmissão. Em outro, a do fracasso, o paralisou

O que me pergunto, porém, é se estamos efetivamente em um “tempo fora do tempo”. Essa noção de “tempo de pandemia” é problemática pois exclui seu par oposto, sua antinomia, a dizer, o “tempo cotidiano”, o “tempo normal” ou o “tempo da razão”, da determinação própria de um tempo acidentado. Talvez por estarmos tão acostumados a circunscrever o fantástico nas telinhas da Netflix, nomeamos com rapidez essa distopia do cotidiano — e, portanto, da tecnocracia funcionalista também — de “tempo fora do tempo” ou “tempo de pandemia”. Mas, evocando Michel de Certeau, “a falha ou o fracasso da razão é precisamente o ponto cego que a faz ter acesso a uma outra dimensão, a de um pensamento, que se articula com o diferente como sua inapreensível necessidade (...) eliminar o imprevisto ou expulsá-lo do cálculo como acidente ilegítimo e perturbador da racionalidade, é interdizer a possibilidade de uma prática viva e ‘mítica’ da cidade”.

Penso, portanto, que há um tempo de estabelecimento, diante de mais uma doença incontrolável, letal e transformadora dos nossos ritos cotidianos, que já deu conta de escamotear o efeito de surpresa e do risco da morte. Nossa noção do “tempo cotidiano” se trata exatamente desse estabelecimento, assentamento: a morte — o acidente, o acaso, o fracasso, enfim, o incontrolável e o improvável em uma relação de interdependência com o tempo programado. Não exatamente como uma exceção, mas como a inclusão da ideia de morte e seu atravessamento. E então, a partir daí, o que tal acontecimento produzirá de efeito na cultura e em cada um de nós: a inclusão dessa ideia de morte produziu em um amigo a ideia de conceber um filho, de legado e transmissão. Em outro, a do fracasso, o paralisou.

Essa inclusão do rasgo e seu assentamento no “tempo do cotidiano” tem como efeito nossas reconsiderações frente ao destino, produzindo novos signos na cultura e nos obrigando a lidar com o fantástico próprio da vida fora do Netflix: nossos fracassos, perdas, faltas, travessias e por fim, desejos, enquanto vivos, portanto em risco.

Leonardo Goldberg é psicanalista e doutor em psicologia pela USP (Universidade de São Paulo). Autor de “Das tumbas às redes: luto e morte na contemporaneidade” (Benjamin, 2019).

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