Foto: Carlos Fausto/Arquivo pessoal

O sarampo do tempo de meu avô: memórias do etnocídio na pandemia


Os povos originários do Brasil conhecem bem essa história. Desde o início da colonização, tiveram que aprender em seus corpos o que é uma epidemia

Há duas semanas Kanari Kuikuro me ligou de Canarana, pequena cidade ao sul da Terra Indígena do Xingu, onde mora com mulher e muitos filhos:

— Oi, pamü (primo), estamos com medo. Queríamos voltar para aldeia, mas agora está tudo fechado.

— Pamü, não pode arriscar, vocês só podem voltar se fizerem quarentena. É uma doença grave.

— Eu sei, pamü, é como o sarampo do tempo de meu avô Agatsipá.

Conheci Agatsipá já bastante idoso, mas ainda com inteligência viva e os olhos brilhantes. Era um grande narrador de mitos e memórias. Teve vida longa. Sobreviveu a vários surtos e epidemias que vitimaram a população do Alto Xingu durante o século 20. A epidemia de sarampo de 1954 é a mais lembrada dentre elas. Foi aguda e veloz, vitimando famílias inteiras, sem que houvesse tempo para enterrar direito os mortos. Quando todos estavam doentes, não havia quem pudesse providenciar a comida, muito menos dispor dos corpos. É nessa hora que os urubus se aglomeram e as pessoas se espalham, levando a doença para outras partes.

Os povos indígenas conhecem bem essa história. Desde o início da colonização, tiveram que aprender em seus corpos o que é uma epidemia. Varíola, sarampo, varicela, gripe. Muitas vezes, uma se seguia à outra, sem que os sobreviventes tivessem tempo para se recuperar. Anchieta conta que, em 1562, uma epidemia matou 30 mil índios tupi na Baía de Todos os Santos; no ano seguinte, a varíola consumiu muitos sobreviventes, enquanto a fome acabou por dizimar o resto da população. E assim a Baía foi sendo despovoada, a ponto de Anchieta escrever em 1580, “a gente que de 20 anos a esta parte é gastada […] parece cousa, que se não pode crer; porque nunca ninguém cuidou, que tanta gente se gastasse nunca, quanto mais em tão pouco tempo”.

Essa mesma história se repetiu muitas vezes em diferentes partes do que viria a ser o Brasil. De alguns episódios, restou memória escrita. O Padre João Betendorf, por exemplo, conta-nos sobre um “andaço de bexigas” (varíola) que grassou no Pará, em 1695, ao qual se sucederam outras tantas doenças: “Acabadas já, de todo, as bexigas, entraram uns terríveis catarros, dos quais morreram muitos índios [...]; entrou também uma casta de sarampo que matou a muitos e durou meses e meses”.

Medidas sanitárias urgentes precisam ser tomadas em defesa dos povos indígenas e de suas terras. Não podemos ter um novo genocídio

A maioria dessas crises sanitárias, contudo, ocorreu longe dos olhos e da pena de missionários, viajantes e administradores coloniais. Quando olhamos o registro arqueológico do Alto Xingu, onde vivem os Kuikuro e vários outros povos indígenas, notamos uma descontinuidade ocorrer a partir do século 17. Há um claro declínio das grandes e numerosas aldeias fortificadas que lá existiam. A população indígena na região era possivelmente 10 a 20 vezes maior do que a atual, somando 50 a 100 mil pessoas. Contudo, no início do século 17, algo aconteceu que levou as grandes aldeias a serem abandonadas. A hipótese mais razoável: uma crise demográfica causada por uma sequência de epidemias, com a varíola ocupando lugar de destaque. Isso não apenas porque o vírus da varíola é extremamente letal, mas também porque a sua “janela” de transmissão era ampla. Os doentes ainda sem sintomas fugiam da morte nas aldeias contaminadas, levando consigo, como escrevem os cronistas, o “mal pestilencial” para o interior. A varíola deve ter, assim, chegado ao Alto Xingu muitas décadas antes de lá aparecerem os primeiros escravizadores de índios, já no século 18.

A essas primeiras epidemias seguiram-se outras, muitas delas descritas hoje pelos Xinguanos na forma de narrativas meio históricas, meio míticas, mas sempre trágicas. O sarampo de 1954, contudo, é definitivamente o sarampo de 1954. Os Xinguanos sabem bem o que ocorreu, sabem também que se a ajuda médica e, sobretudo, alimentar tivesse chegado mais rápido, vidas teriam sido poupadas. Mas os recursos eram escassos, a comunicação era precária e as dificuldades eram várias. E, como hoje, não havia vacina.

Foram os programas de vacinação que, a partir de 1970, levaram à inversão progressiva da curva demográfica descendente dos povos indígenas. A população começou timidamente a crescer após mais de quatro séculos de perda demográfica. A chave para o crescimento foi o tripé vacina, atendimento médico e preservação do território. A demarcação das terras indígenas após a Constituição de 1988 e a criação dos Distritos Sanitários Indígenas em 1999 são marcos fundamentais nessa luta pela vida.

Tudo isso está hoje em risco, não só porque não temos vacina nem remédio contra o novo vírus, como também porque não temos um governo à altura do desafio. O governo brasileiro parece flertar com a morte, sem perceber o óbvio. “É como o sarampo do tempo de meu avô.” Corpos insepultos nas ruas, mortes sem fim nas aldeias. Medidas sanitárias urgentes precisam ser tomadas em defesa dos povos indígenas e de suas terras. Não podemos ter um novo genocídio.

Kanu, uma das maiores cantoras do Alto Xingu e protagonista de nosso filme “As Hiper Mulheres”, me manda uma mensagem de áudio: “estamos com medo, mas estamos bem, a doença não chegou por aqui”. Mais um dia de alívio. Por quanto tempo?

Carlos Fausto é professor de antropologia do Museu Nacional, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e Global Scholar da Universidade de Princeton.

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