Foto: Pari Stave/Metropolitan Museum of Art

O papel dos museus e seus espaços, durante e após a pandemia


É imprescindível o reconhecimento desses espaços como agentes culturais e educativos. E agora, cada vez mais, como um espaço de engajamento comunitário

Apesar de tudo que já foi discutido e especulado sobre o papel e uso dos museus durante a pandemia e quarentena, agora com alguns países e cidades ensaiando reaberturas graduais, começamos a repensar o uso de seus espaços físicos novamente. Para além de uma presença digital reforçada — e muitas vezes extremamente positiva, atingindo um público maior — é necessário refletir sobre o que o museu representa para sua comunidade e como sua estrutura e espacialidade podem contribuir nos dias de hoje.

A discussão sobre acesso aos museus vem antes dos tempos de reclusão. Algumas estratégias interessantes em museus de Nova York, por exemplo, têm mostrado boa repercussão e valem nossa atenção. O Museum of the City of New York investe em peso em seu papel como agente comunitário e referência de pesquisa. Suas exposições — geralmente relacionadas à história da cidade, seus espaços e sua população — são didáticas e informativas. Além das mostras no espaço físico do museu, muitas das exposições também ganham um formato online (muitas vezes expandido, contando com mais informações do que na mostra original), ficando arquivadas em seu site na internet.

A programação cultural do Museum of the City of New York atende aos mais variados públicos, mas sempre enfatizando aqueles que vivem no bairro e seu entorno, que por si só já é bem diversificado. O Queens Museum, por sua vez, segue uma lógica semelhante, assumindo um papel de espaço público para eventos e investindo em atividades que vão muito além das exposições para atrair visitantes. O caso desse museu localizado no bairro do Queens é especialmente interessante, uma vez que a região é considerada como o local de maior diversidade de imigrantes no mundo. A comunidade heterogênea de frequentadores é revigorante, mas também se mostra um desafio. Diferentes grupos e nacionalidades seguem tradições culturais específicas e regras de sociabilidade diversas. A programação do museu leva em conta essas multiplicidades, ao mesmo tempo que atende ao público geral.

O espaço físico dessas instituições deve ser visto como um valioso recurso e potencial apoio que as comunidades tanto precisam neste momento

Já o MET (Metropolitan Museum of Art), também em Nova York, tem investido na acessibilidade de suas redes sociais como principal ferramenta de atração e comunicação com um novo público em potencial. Em 2015, o museu contratou a curadora Kimberly Drew reconhecendo sua presença e influência digital com seu popular blog “Black Contemporary Art”. A inserção de Drew no mundo dos museus e da arte começou quando estava na faculdade e conseguiu um estágio no Studio Museum in Harlem. Foi lá que Drew conheceu o trabalho de muitos artistas com os quais ela passou a se identificar, entre eles Jean-Michel Basquiat, de quem ela não tinha nenhum conhecimento prévio. Foi durante esse estágio, que Drew se deu conta que, como ela, muitas pessoas não têm acesso aos museus, e se sentem acuadas ou intimidadas pelas grandes instituições. Seu blog tenta reverter isso ao apresentar informalmente trabalhos de artistas negros e as discussões em torno de sua visibilidade. Drew usava a plataforma como um espaço para compartilhar seu conhecimento e impressões de uma maneira mais democrática, convidando colaboradores, e se engajando com comentários de seus leitores. Museus e instituições de arte, mesmo os mais tradicionais como o MET, estão constantemente batalhando para atrair visitantes, e a contratação de Drew para administrar suas redes sociais foi um passo na busca por essa renovação.

Diante da pandemia, muitas dessas discussões sobre o atual papel dos museus merecem ser aprofundadas. Neste contexto, novos projetos e iniciativas ganharam impulso. Muitos museus começaram a coletar documentação sobre o momento sem precedentes em que vivemos, com doações e colaboração de voluntários. Objetos, máscaras, receitas, fotos, ilustrações, entre outros artefatos compõem esse ambicioso projeto de imortalizar e definir um momento histórico.

Acima de tudo, essas iniciativas criam um senso de comunidade e pertencimento, de uma experiência compartilhada e superação coletiva. A ideia de coleta de histórias e experiências em tempo real já havia sido colocada em prática por instituições como o California Historical Society e o Smithsonian National Museum of American History, mas agora o projeto ganha mais força em tempos de reclusão. Hashtags e outros mecanismos digitais são usados para facilitar o compartilhamento remoto de imagens, como #CovidStoriesNYC do City Museum of New York, por exemplo. O objetivo é tentar registrar este momento de maneira ampla e exploratória. Essas atividades remotas já têm destaque e de certa forma serão usadas e compartilhadas na mostra prevista para a reabertura do City Museum of New York no final de julho: a exposição “New York Responds: Beyond Covid” (Nova York responde: além da covid), trata justamente sobre o impacto da pandemia na cidade, mas traz também uma mensagem de esperança à população.

Ao mesmo tempo em que são valiosas essas estratégias comunitárias de curadoria, as demissões em massa, a falta de recursos advindos das bilheterias e o enxugamento de investimentos em cultura são preocupantes. Manter certas instituições funcionando e abertas ao público vai ser um desafio por si só. Mesmo grandes entidades como o MET Breuer já anunciaram fechar suas portas em definitivo e sublocar o imóvel para outra instituição. Agora, há também uma maior pressão para se rever a forma como museus são administrados e utilizados. É imprescindível o reconhecimento desses espaços como agentes culturais e educativos. E agora, cada vez mais, como um espaço de engajamento comunitário.

Com as novas regras de distanciamento social e o retorno gradual às atividades em áreas internas, o espaço físico dos museus terá que sofrer grandes adaptações, com público menor e mais restrito: justamente o contrário do que se tentava fazer. Além de uma programação tanto online como utilizando potenciais áreas externas de seus edifícios, o museu assume agora também um papel de apoio social.

A primeira grande iniciativa do gênero anunciada foi feita pelo Brooklyn Museum, em Nova York, (localizado em uma área central e de fácil acesso no bairro do Brooklyn) que transformou o espaço de seu estacionamento em um Banco de Alimentos emergencial desde o começo de junho. Reconhecendo a necessidade de apoio à população nova-iorquina que hoje bate recordes de desemprego, o museu fez uma parceria com a iniciativa Campaign Against Hunger para a segurança alimentar da comunidade. O Brooklyn Museum também se destaca abraçando a campanha virtual #OpenYourLobby, em que museus e teatros, ainda que fechados, deixam disponível seu lobby e banheiros durante protestos do Black Lives Matter como apoio aos manifestantes.

A crescente produção de conteúdo online garante a atividade educacional e intelectual dos museus — e isso deve continuar e prosperar mesmo após o período de distanciamento social. Todavia, o reconhecimento do espaço físico, da estrutura e alcance dessas instituições é extremamente importante em tempos emergenciais, e deve ser visto como um valioso recurso e potencial apoio que as comunidades tanto precisam neste momento.

Laura Belik é arquiteta e urbanista, formada pela Escola da Cidade, mestre em design studies pela Parsons, The New School e doutoranda em história, teoria e crítica da arquitetura na UC Berkeley.

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