Foto: Adriano Machado/Reuters

No princípio era um vírus: epidemias podem ser oportunidades


Se tem algo que a história da ciência, e especificamente da medicina, nos ensina, é que a humanidade atravessou diferentes epidemias e que as consequências desses surtos nunca foram apenas o número de doentes e de mortos

E da interação entre humanos e o vírus, e de humanos com humanos, uma pandemia. Não há dúvidas de que um evento grave e real nos assola e é noticiado ininterruptamente. Mas, se no início, o tema era o vírus e seus efeitos no organismo humano, hoje são os efeitos que os milhares de humanos infectados simultaneamente causam nos sistemas globais de saúde, nos governos, nas economias e nas relações sociais. Isto porque, a partir da disseminação do vírus pelo mundo e da adoção de estratégias de contenção das infecções, com a adoção de medidas de isolamento e distanciamento social, a percepção sobre a doença, sua origem e consequências se tornaram, também, efeitos do vírus. Ou seja, buscam-se formas para se evitar que o vírus provoque um colapso na organização social contemporânea, incluindo, entre tantos fatores, os mercados, os serviços de saúde, as estruturas de governo e nossos próprios valores.

Seria apenas um vírus, como tantos que atacam milhares de pessoas no mundo todos os anos. Mas o desconhecimento de seus mecanismos de atuação, bem como de seu desenvolvimento em diferentes climas e condições, somados à sua rápida disseminação e aos desdobramentos das infecções para grupos de risco, fez com que a interpretação social da doença guardasse semelhança com os roteiros das inúmeras séries e filmes que retratam distopias apocalípticas. Ruas de cidades do mundo inteiro completamente esvaziadas diante do mesmo inimigo invisível. Essa é a principal manchete dos jornais das últimas semanas, ao lado do número de mortos e dos gráficos crescentes de infectados.

Somada a este quadro, temos a antiga percepção das doenças como castigos divinos, resposta aos pecados terrenos, à falta de fé e aos erros da humanidade. Com a peste negra, a lepra, varíola, a gripe espanhola, e outros surtos históricos, não foi diferente. E, mais uma vez, emergem explicações místicas sobre a origem e o desenvolvimento da epidemia. Além disso, nota-se, também, a continuidade no tempo de uma interpretação sobre as doenças que as localizam no outro, no estrangeiro. Aspecto que desencadeia ondas de racismo e xenofobia, aliadas aos fechamentos de cidades inteiras. Não se questiona, aqui, a necessidade de regulação do trânsito de pessoas para conter a moléstia, mas apontar a perpetuação histórica do estigma a grupos humanos considerados culpados pela existência de determinadas enfermidades.

Estamos diante de um desses momentos históricos em que a percepção sobre uma pandemia como motivo de alarde mundial permite refletir sobre quais inimigos escolhemos guerrear

Quarentena. Possibilidade de desabastecimento. Falta de leitos. Enfim, apesar de todas nossas diferenças, nos sentimos iguais diante da crise que decorre da pandemia. E lutamos, agora, contra um inimigo comum, iniciado, justamente, na China. O país de governo comunista com uma economia que atende ferozmente ao capitalismo. E disto, nas análises dos especialistas virtuais sobre atualidades, emergem as mais diversas teorias conspiratórias que contribuem para aumentar o preconceito e nos igualar contra um inimigo comum.

Mas, apesar do clima de união planetária diante de uma iminente catástrofe, a pandemia é sentida conforme o lugar social que ocupamos. Obviamente, classes e setores da sociedade percebem e vivem de formas diferentes os efeitos da doença. Enquanto alguns falam sobre trabalhar em home office, portas de empresas estão fechadas e seus empregados e patrões parados e sem saber como arcarão com as despesas do mês. Somos iguais na vulnerabilidade humana de contrair doenças e ao partilhamos a sensação de que existe um inimigo invisível, mas vivemos os efeitos do vírus conforme nosso lugar na pirâmide social. E, por isso, discute-se tanto o papel do Estado para minimizar as implicações da pandemia e de suas medidas de contenção para os mais vulneráveis.

E dos efeitos do vírus sobre o organismo humano e a saúde pública, chegou-se aos efeitos ideológicos da pandemia e seu enquadramento entre polaridades políticas e narrativas que ocupam lugar no mundo contemporâneo. De um lado, a ciência médica e as recomendações de isolamento social a todo custo. De outro, a necessidade de relativizar os números e os riscos para que a economia também salve vidas. E alguns governos assumem posições que corroboram com os cenários distópicos, buscando evitar o caos futuro. Contudo, também assumem que terão que adotar medidas para conter o possível caos futuro provocado pelas ações para contenção do vírus adotadas agora. E a roda da pandemia gira.

Se tem algo que a história da ciência, e especificamente da medicina, nos ensina, é que a humanidade atravessou diferentes epidemias e que as consequências desses surtos nunca foram apenas o número de doentes e de mortos. As interpretações sobre as doenças e as crises que decorrem de seus surtos também são efeitos do mesmo vírus que causam as moléstias.

As epidemias sempre trouxeram mudanças sociais, sentidas, não raro, séculos depois. Desde a forma como interpretamos as doenças, passando pelas maneiras como nos comportamos diante delas ou para evitá-las, até como subjetivamos nossa existência e nossas formas de organização social. Estamos diante de um desses momentos históricos em que a percepção sobre uma pandemia como motivo de alarde mundial, assim como sobre os mecanismos governamentais para combater seus efeitos, permite refletir sobre quais inimigos escolhemos guerrear.

Bianca Pataro é historiadora, especialista em história da ciência e mestre em ciências sociais. Atualmente trabalha com modos de vida e reassentamento em contexto de desastre, na reparação do rompimento da barragem de Fundão, em Mariana.

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