Foto: Adriano Machado/Reuters

Do voto evangélico ao cristão: o que as eleições de 2020 têm a nos dizer?


O desafio é entender o cristianismo como um segmento multifacetado, que acolhe populações vulneráveis ao mesmo tempo que busca restringir direitos

O aumento da parcela da população brasileira que se identifica como evangélica tem impactado diretamente o cenário eleitoral do país e faz da relação entre religião e política um tema inescapável de debate. A alguns dias do primeiro turno das eleições municipais, é possível perceber que as referências à religião têm aparecido de duas formas específicas nas atividades eleitorais. A primeira, mais comum, é a invocação a Deus nos materiais de campanha, nos debates e na propaganda eleitoral gratuita. A segunda, o aumento significativo de candidatos e candidatas que se identificam como cristãos, sem assumir vínculo com uma instituição religiosa específica. É nestes que devemos prestar atenção.

De acordo com um primeiro levantamento realizado pelo Iser (Instituto de Estudos da Religião), 12.689 candidatos usarão nome religioso nas urnas nas eleições municipais de 2020. Embora esse número indique um crescimento significativo de 24% em relação às eleições municipais anteriores, ele não reflete o total das candidaturas com identidade religiosa.

Para dar um exemplo, Alexandre Isquierdo, candidato oficial da Assembleia de Deus Vitória em Cristo no Rio de Janeiro e vereador há três legislaturas, não usa nenhum nome religioso na urna. Ao mesmo tempo, mobiliza todo aparato institucional em sua campanha, o que inclui divulgação da candidatura nas mídias e redes sociais de Silas Malafaia, líder da igreja, e participação em cultos, inclusive em outras denominações, por toda a capital fluminense.

Com isso, quero chamar atenção para o fato de que o nome religioso nas urnas é uma estratégia eleitoral sem qualquer garantia de efetividade, o que não diminui sua importância como fenômeno a ser analisado. Ao mesmo tempo, a ampla reivindicação de uma identidade cristã por parte das candidaturas pode nos oferecer mais pistas para a compreensão do momento político que atravessamos. Embora não seja inédito, tendo sido detectado também em 2016 e 2018, esse fenômeno ganha notoriedade em 2020 por aparecer de forma mais nuançada, refletindo a própria complexidade do campo religioso brasileiro. Tão católico quanto evangélico, o presidente Jair Messias Bolsonaro é um ótimo exemplo para se pensar os sentidos e a eficácia dessa estratégia. Mas, afinal, o que ela quer dizer?

Avançar no debate sobre religiosidade na política sem cair em um discurso acusatório contra cristãos exige considerar que eles são múltiplos

Grosso modo, a afirmação dessa identidade religiosa mais difusa e polifônica confirma o recrudescimento das disputas em torno da representação do Brasil como uma nação cristã — terrivelmente cristã, na verdade — que deve ser pautada por determinados valores cristãos. Mobilizando discursivamente aquilo que Christina Vital chama de “retórica da perda”, esses atores políticos reivindicam a recuperação da ordem, da previsibilidade, da segurança e da unidade que existiam no Brasil e, em tese, foram destruídas por governos anteriores. Mais do que um mero recurso retórico, trata-se de um sentimento compartilhado entre pessoas que reconhecem como legítimos um conjunto de valores morais que precisam ser recuperados. Paralelamente, a imagem dessa unidade cristã, mais abrangente e robusta do que a evangélica, é mobilizada para implantação de uma agenda restritiva de direitos. As sucessivas intervenções no Plano Nacional de Direitos Humanos, capitaneadas por católicos e evangélicos, são um exemplo disso.

O que está sendo disputado agora, portanto, é a defesa de um cristianismo nada inclusivo, que defende uma concepção restrita de família, valoriza práticas de assistência social e o empreendedorismo, e que tem a disciplina e o respeito à hierarquia como pilares fundamentais. Não por acaso, candidaturas de oficiais do Exército e de policiais também ressoam positivamente entre cristãos.

Engana-se, entretanto, quem pensa que as candidaturas cristãs são sempre caricatas. Em São Paulo, o jovem candidato Henrique Krigner, líder do movimento cristão internacional Dunamis e colíder do The Send Brasil, mobiliza uma linguagem moderna e atraente em seu material de campanha. Nas redes sociais, define-se como missionário, embora também atue como presbítero na Zion Church. Profissionalmente, transitou por organizações não-governamentais e fez parte do RenovaBR, programa de capacitação política. Sua campanha eleitoral tem como mote o investimento em educação, empreendedorismo e transporte. Comunica sua identidade religiosa ao mobilizar um repertório compartilhado entre cristãos sem fazer referências diretas a temas polêmicos.

Logo, avançar nesse debate sem cair em um discurso acusatório contra cristãos exige considerar que eles são múltiplos, e exige, igualmente, refinar o entendimento sobre essa multiplicidade. Existem cristãos católicos, protestantes, pentecostais, neopentecostais, sem igreja e até mesmo sem religião. Existem cristãos católicos e evangélicos progressistas, inclusive, que também disputam a política institucional. E multiplicam-se as formas de experimentação da religiosidade cristã que não estão necessariamente ligadas às grandes igrejas: a consolidação do trabalho missionário em ministérios nacionais e internacionais, o surgimento nas redes sociais de influencers espirituais, a popularização de células para estudo da Bíblia e oração. Cada vez mais comum, também, é a busca pelo êxtase religioso por meio da arte, com novelas, teatros, filmes e as grandes produções musicais, como o The Send, que em 2020 reuniu 1,7 milhão de pessoas no Brasil. Por fim, a ampliação do acesso tecnológico e a difusão da internet, que também possibilitam que as pessoas vivam sua religiosidade sem precisar manter um vínculo institucional.

Estamos diante de um fenômeno cuja análise precisa ser cuidadosa. O resultado da eleição ainda está em aberto e esse cristianismo multifacetado também vem sendo disputado, mesmo que timidamente, pelo campo progressista. Também é preciso cuidado para não atribuir aos cristãos a causa de todo o retrocesso na agenda de direitos, gerando, assim, preconceito e desinformação. O segmento evangélico, por exemplo, tem um rosto que é predominantemente pobre, negro e feminino, o que confirma a importância das políticas de assistência oferecidas pelas igrejas. Isso não pode ser desconsiderado. O desafio, neste momento, é entender que os espaços religiosos são, de fato, locais de formação moral, acolhimento, cuidado e informação. Ao mesmo tempo, também são responsáveis por fornecer as bases de uma identidade cristã que vem sendo mobilizada para restringir direitos de uma grande parcela da população, e a disputa travada na política institucional é apenas um dos caminhos de atuação para isso. O sucesso (ou não) das candidaturas cristãs nos dirá, em pouco tempo, se elas têm o mesmo grau de efetividade das candidaturas evangélicas.

Lívia Reis é doutora em ciências sociais. Pesquisadora do Iser (Instituto de Estudos da Religião) e do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional/UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

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