Foto: Marcos Corrêa/PR

Democracia partida: a disputa política do futebol na pandemia


Dirigentes de times oferecem sustentação ao governo federal, que convive com suspeitas e risco de deposição. Mas existem indícios de que há também oposição no campo esportivo

Antes da posse como presidente, Jair Bolsonaro participou da entrega da taça do Campeonato Brasileiro de Futebol 2018 ao Palmeiras. Vestido com o uniforme alviverde, o candidato eleito selava então um acordo com esportistas que haviam apoiado a sua campanha. No estádio Allianz Parque, em São Paulo, era formada a conexão das aspirações políticas do capitão reformado do Exército com setores do futebol, que se manteria impassível com a pandemia do novo coronavírus. Essa associação favoreceu a antecipação do retorno do Campeonato Carioca, a despeito das orientações sanitárias, e motivou encontros públicos de representantes de clubes com membros do governo em Brasília. Os dois lados justificam que a relação é pautada pela democracia, o que reforça o quão ambíguo pode ser esse conceito.

Foram concomitantes o crescimento do número de mortos pela covid-19 e atos pedindo pelo fechamento do Supremo Tribunal Federal e do Congresso Nacional no primeiro semestre de 2020. Apesar disso, o comentarista do SporTV Caio Ribeiro defendeu, em 2 de maio, no programa “Bem, amigos!”, que a comunidade esportiva evitasse manifestações políticas e, por conseguinte, críticas a Bolsonaro. Em contrapartida, o ex-jogador afirmou ser a favor da democracia.

O horizonte democrático que prevê participação política e promoção de saúde contrasta com o cerceamento de opiniões e o negacionismo na mais grave crise sanitária do século 21

Na mesma edição do programa, os demais participantes do debate divergiram quanto à possibilidade de atletas ou dirigentes se expressarem politicamente: todos se demonstraram a favor do posicionamento público com exceção de Ribeiro, que frisou a importância de se levar em consideração os departamentos de marketing e finanças dos clubes no debate sobre o retorno do calendário do futebol. A dicotomia entre saúde e economia foi um elemento constante na retórica do governo federal a respeito do isolamento social. Embora não tenham feito referência direta ao bolsonarismo, foram mencionadas pelos outros comentaristas as agressões a agentes de saúde e a profissionais da imprensa por parte de eleitores do presidente para destacar o clima de intolerância naquele período. Antes que o assunto fosse encerrado, os participantes chegaram ao consenso de que uma sociedade democrática era necessária.

A discussão reitera que o conceito está em disputa em um crítico momento político. Pesquisa recente do Datafolha indica que 75% dos brasileiros têm preferência pelo regime democrático. Mas uma primeira impressão não permite identificar a que democracia se referem os comentaristas e os cidadãos. Aquela que pressupõe direitos trabalhistas e liberdades individuais não comporta a defendida por Bolsonaro para justificar redes de desinformação ou protestos a favor de um “novo AI-5” (Ato Institucional Nº 5). O horizonte democrático que prevê participação política e promoção de saúde contrasta com o cerceamento de opiniões e o negacionismo na mais grave crise sanitária do século 21.

Não obstante Bolsonaro e o vice-presidente Hamilton Mourão tenham dado declarações acerca da importância dos valores democráticos, as sinalizações para o autoritarismo da chapa foram muitas. Desde a campanha eleitoral, quando o agora presidente ameaçou exilar, torturar e fuzilar opositores, até o período do mandato, quando desfilou junto a manifestantes que exortavam por intervenção militar. Na política esportiva, a ambiguidade permitiu, por exemplo, que um grupo de sócios que integra a direção do Flamengo alegasse apoiar a democracia e, simultaneamente, insistisse no retorno antecipado do calendário esportivo. O time carioca foi o primeiro da Série A a entrar em campo durante a pandemia, depois de breve paralisação.

É significativo que embates sobre o conceito de democracia se deem na mesa redonda esportiva. O gênero televisivo se tornou um espaço privilegiado para debates sobre diversos assuntos. Apesar das diferentes configurações que esses programas apresentaram desde a década de 1950 — quando a televisão chegou ao Brasil —, o público, a cobertura especializada e as próprias produções continuaram a enxergar ali um ambiente para a discussão da vida social brasileira. Como as emissoras foram controladas, ao longo desse período, por grupos pequenos, e a política nacional foi submetida a consecutivos períodos autoritários, transbordaram para esses programas outros temas cotidianos.

Essa característica deu destaque aos comentários esportivos e chamou a atenção da ditadura militar. Em 1979, o programa “Bola na mesa” foi multado pelo Dentel (Departamento de Telecomunicações) após terem sido recebidas denúncias contra colocações “impróprias e atentatórias” dos participantes. Tradicionalmente, as mesas redondas são exibidas em tempo real. O governo ditatorial foi o mesmo que restringiu programas ao vivo, com a preocupação de que fosse perdido o controle do que viria a público. Os debates, entretanto, nunca foram a expressão da democracia em sua essência. A transmissão ficava a cargo de grandes grupos de comunicação e, assim, estava suscetível a inclinações editoriais das empresas.

O Palmeiras foi um dos oito clubes a visitar Bolsonaro, em 30 de junho, como demonstração de apoio à Medida Provisória nº 984, que altera regras sobre os direitos de transmissão de eventos esportivos, assinada pelo presidente. Mais uma vez, a camisa alviverde esteve presente, quando todos posaram para fotos. Se dirigentes de times oferecem sustentação à gestão do governo federal, que convive com suspeitas e com o risco de deposição, existem indícios de que há também oposição no campo esportivo. A disputa a respeito do conceito de democracia em “Bem, amigos!” simboliza isso, assim como protestos antifascistas contra o projeto político em curso, protagonizados por torcedores de futebol.

Helcio Herbert Neto é repórter, mestre em comunicação pela UFF (Universidade Federal Fluminense), doutorando em história comparada pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e pesquisador do Sport/UFRJ (Laboratório de História do Esporte e do Lazer).

Os artigos publicados no nexo ensaio são de autoria de colaboradores eventuais do jornal e não representam as ideias ou opiniões do Nexo. O Nexo Ensaio é um espaço que tem como objetivo garantir a pluralidade do debate sobre temas relevantes para a agenda pública nacional e internacional. Para participar, entre em contato por meio de ensaio@nexojornal.com.br informando seu nome, telefone e email.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.