Foto: Adriano Machado/Reuters

Cura, doença e tortura: o ritual palaciano de Jair Bolsonaro


É por meio dele que o presidente demonstra seu desprezo pela política vigente e esboça a instauração de uma nova ordem dependente dele e de seus filhos. Destruir, achacar e ameaçar sem que lhe pareça crível qualquer tipo de punição

Jair Bolsonaro criou seu próprio ritual palaciano. Cercado por seguranças de paletó e óculos escuros, por militares fardados filmando aqueles que dele se aproximam, o presidente desce de um carro e caminha em direção às grades que cercam as imediações do Palácio do Planalto. Mais próximos a ele estão os seus apoiadores. Um pouco mais à frente, e separados por um espaço vazio, os jornalistas.

O presidente faz-se ver e fotografar. Tira selfies, interage com aqueles que com ele vêm ter. Mesmo em tempos de pandemia internacional do novo coronavírus, deixa-se tocar por sua claque palaciana, que o espera diariamente. Esta anseia pela aparição do presidente, ávida por desfrutar das afrontas a jornalistas e à política instituída.

Da Idade Média à Revolução Francesa existiram, tanto na França como na Inglaterra, reis milagreiros que, apenas com seu toque, curavam seus súditos. O historiador francês Marc Bloch, em “Os reis taumaturgos”, se debruça sobre como soberanos restabeleciam a saúde daqueles acometidos por “escrófula”, enfermidade originada da tuberculose, e que se manifesta na pele do pescoço sob o aspecto de gânglios, secreções mal-cheirosas e inchaços descomunais.

As descrições dos rituais da cura pelo toque são impressionantes: duram horas e movimentam multidões de súditos em fila, esperando a sua vez de entrar em contato físico com o rei. A ritualística ocorre com toda solenidade e pompa que se pode imaginar atribuída ao momento em que o soberano exerce seu poder sobre-humano.

Para Bloch, refletir sobre a cura pelo toque lhe permite mergulhar na história da mentalidade política europeia. Afinal, tocar para curar não era um fenômeno periférico no exercício do poder real. O ritual compunha a engenharia política que estruturava um Estado monárquico extremamente ordenado e hierárquico, que encontrava nos poderes sobrenaturais do rei a sua legitimidade.

Caberia perguntar, seguindo Bloch, em que medida o ritual criado por Bolsonaro revela algo a respeito de nossa mentalidade política contemporânea? À primeira vista, a estrutura ritual parece mantida: pessoas aproximam-se do mandatário na expectativa de que algum tipo de recuperação ocorra. A melhora almejada por seus seguidores é entendida como um desejo de curar o Brasil dos efeitos dos desgovernos anteriores.

A pandemia de covid-19, entretanto, torna patente o outro lado desse projeto.

Quando os sinais são invertidos e tocar converte-se em um nefasto ritual de adoecimento, Bolsonaro emerge como antitaumaturgo, verdadeira fonte de transmissão de enfermidades — senão por si próprio, ao tocar o nariz e cumprimentar apoiadores, certamente pelas aglomerações que deliberadamente engendra. Nesse sentido, é significativa sua relutância em apresentar seus exames de covid-19, que poderiam atestar que ele cometeu um crime ao descumprir a quarentena e contaminar pessoas sabendo-se enfermo.

Com Bolsonaro, o rito do poder não deixa espaço para questionamentos. O presidente é enaltecido e louvado por sua claque a cada resposta, as chamadas mitadas

O antropólogo libertário David Graeber argumenta, em “On Kings”, que existe uma guerra sem fim entre povo e soberano: a população tenta impor limites, e o mandatário almeja exercer seu poder de maneira desenfreada. As estratégias para lidar com essa guerra variam. Se até poucos anos atrás podíamos falar de um consenso ao redor da democracia liberal para mediar esse conflito, figuras como Viktor Orbán (Hungria), Vladimir Putin (Rússia), Recep Erdogan (Turquia), Benjamin Netanyahu (Israel) e Jair Bolsonaro irrompem como líderes populistas de extrema direita que explicitam uma busca sem mediações pelo exercício do poder sem freios.

Graeber traça sua arqueologia do conceito de soberania a partir de certos elementos que se repetem: o rei estrangeiro, alguém chegado de fora do grupo social que governa; o caráter bufão do rei, que cria formas de se fazer obedecer em tom de palhaço; e o caráter civilizatório do projeto político, que relaciona a origem do poder com avanços, como o domínio do fogo ou de técnicas da agricultura.

Todos esses elementos encontram correspondentes no bolsonarismo. Bolsonaro é visto como alguém alheio ao sistema político — e ter sido um deputado federal medíocre joga a seu favor. Ele não é levado a sério — ser tido como inábil, incapaz e ignorante amplia seu poder. Bolsonaro reivindica para si um caráter transformador — consertar o país por meio de medidas neoliberais radicais e do uso de violência e punição pelo Estado.

É, porém, um quarto elemento elencado por Graeber que merece maior atenção: a relação entre soberano e mortos. Para o soberano, a linhagem dinástica é sempre ambígua, representa tanto fonte de legitimidade quanto ameaça de se governar à sombra de alguém mais grandioso. Exercer o poder é escolher com que mortos se aliar. Bolsonaro não hesita em comungar com torturadores. Seu pacto com os mortos é um pacto com os assassinos de outrora, um pacto com aqueles que dispõem do corpo alheio para ouvir a verdade que desejam.

Voltemos ao ritual palaciano de Bolsonaro. Ele é marcado por um desencontro profundo, um desentendimento não sujeito a conciliações. O que ali é performado na perspectiva de seus partidários como cura redentora para o país, é visto por seu adversários como temerosa escalada autoritária.

A performance ritual é marcada por uma inversão do coro teatral. No teatro épico, tal como relido pelo dramaturgo alemão Bertolt Brecht, o coro cria um diálogo direto entre ator e plateia, que visa deixar clara determinada posição crítica ao público. Com Bolsonaro, o rito do poder não deixa espaço para questionamentos. O presidente é enaltecido e louvado por sua claque a cada resposta, as chamadas mitadas.

É por meio desse ritual que o presidente demonstra seu desprezo pela política vigente e esboça a instauração de uma nova ordem dependente dele e de seus filhos. Destruir, achacar e ameaçar sem que lhe pareça crível qualquer tipo de punição, acreditando-se seguro, ou ao menos construindo uma postura desafiante, de que nada poderá lhe acontecer. Eis a morada última do autoritarismo.

Fábio Zuker é jornalista, antropólogo e ensaísta. Realiza seu doutorado em antropologia social na USP (Universidade de São Paulo), com pesquisa junto às formas de fazer política de populações indígenas no Rio Tapajós (Pará). É autor de “Vida e morte de uma baleia-minke no interior do Pará e outras histórias da Amazônia” (Publication Studio São Paulo, 2019) e “Em Rota de Fuga: ensaios sobre escrita, medo e violência” (Hedra-Quadrado Círculo, no prelo).

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