Foto: Khalil Ashawi/Reuters

Covid-19 em zonas de conflito no mundo: um novo inimigo letal


Cumpre investigar e refletir se os abrandamentos e os cessar-fogos decretados por potências internacionais que apoiam conflitos têm ocorrido em função do senso de preservação à vida de civis ou se ocorrem por razões menos altruístas

Até o início de 2020, havia cerca de 35 regiões com conflitos armados ativos no mundo, segundo o International Institute for Strategic Studies, de Londres. A pandemia se impôs direcionando as atenções da mídia e governos para si, o que não significa que guerras e os problemas delas decorrentes tenham deixado de existir. Pelo contrário, na maioria dos casos, as situações somadas só dificultam a sobrevivência das populações afetadas.

Se em conflitos como os da Líbia, República Democrática do Congo e Afeganistão as investidas vêm se acirrando em meio ao coronavírus, temos também exemplos de zonas que tiveram suas atividades bélicas amenizadas, em alguns casos até um cessar-fogo decretado, na esteira dos apelos feitos pelo Secretário-Geral da ONU, António Guterres, pelo Papa Francisco e outras autoridades internacionais.

É o caso do Iêmen e da Síria. O primeiro, enfrenta a maior crise humanitária da atualidade, um país que já tinha uma economia fragilizada antes do conflito e caminha, segundo a ONU, para se tornar o país mais pobre do mundo. Desde 2014, a nação iemenita vem sendo devastada por uma guerra civil que tem como apoiadores externos a Arábia Saudita e o Irã, que rivalizam no suporte às facções locais que disputam o poder. Em recente declaração, o governo saudita, que chegou a fazer investidas diretas no país, inclusive com bombardeios, anunciou que iria cessar os ataques temporariamente. Um alívio em um cenário já tão alarmante.

O maior custo desses conflitos pode ser minimizado com a trégua: as milhares de vidas que podem ser salvas com melhores condições de enfrentamento à pandemia

Vale mencionar que, segundo o Comitê Internacional da Cruz Vermelha, cerca de 90% da população do Iêmen não tem acesso à rede pública de eletricidade e mais da metade carece de quantidades adequadas de água segura e serviços de saneamento. O sistema de saúde, antes mesmo da pandemia, estava em colapso, sem profissionais, medicamentos e equipamentos em número suficiente, e tendo de, além de cuidar dos feridos de guerra, enfrentar outras epidemias, como cólera e difteria. Ainda, das 29 milhões de pessoas que habitam o país, 22 milhões dependem de ajuda humanitária para sobreviver. Nessa linha, é interessante observar o paradoxo de que, embora a trégua permita maior acesso de ajuda humanitária às zonas de conflito, também vivemos um momento de retração da presença desses atores em escala mundial, que procuram evitar de espalhar o coronavírus, além de estarem sofrendo uma baixa de recursos que foram mobilizados para o enfrentamento da pandemia de covid-19.

A Síria, por sua vez, vive uma guerra que já se estende por nove anos e que provocou uma das maiores crises de deslocamentos forçados da história recente, com cifras milionárias que giram em torno de 400 mil mortos e 15 milhões de refugiados e deslocados internos. O governo de Bashar Al Assad age respaldado pela Rússia e luta para retomar o controle de regiões ao norte e noroeste, atualmente sob domínio de rebeldes que contam com apoio da Turquia. Bombardeios e ofensivas terrestres têm deixado mortes, sobretudo entre soldados sírios e turcos, porém, desde o início de abril, os governos de Vladimir Putin e Tayyip Erdogan, presidentes russo e turco, respectivamente, anunciaram que cessariam o combate e manteriam apenas patrulhas na região, o que é um grande alívio, inclusive para a chegada de ajuda humanitária a uma numerosa população civil que, há quase uma década, é debilitada. Porém, o inimigo invisível não poupou a região: a curva de contágio do coronavírus avança rapidamente.

A região de Idlib, noroeste sírio e um dos últimos redutos rebeldes, é uma das mais devastadas pela guerra. Investidas recentes do governo Assad já deixaram aproximadamente 1 milhão de pessoas desalojadas, que agora vivem, sobretudo, em acampamentos e abrigos coletivos, onde o autoisolamento muitas vezes não é possível e a estrutura precária faz com que simples atos de higiene, como lavar as mãos, se tornem um desafio.

Ainda, segundo a organização Médicos Sem Fronteiras, somente neste ano, 80 hospitais deixaram de funcionar em decorrência de ataques. Há também uma grande carência de profissionais da saúde, dado que a Síria perdeu 60% desses desde o início do conflito, seja por terem se refugiado fora do país, ou por terem sido mortos em ataques ou confrontos. São perdas drásticas, ainda mais considerando que regiões de conflito, em geral, já operam em seu limite de capacidade atendendo aos feridos e doentes em decorrência da guerra. O efeito da disseminação da covid-19 na região pode ser devastador.

Enquanto isso, também cumpre investigar e refletir se os abrandamentos e os cessar-fogos decretados por potências internacionais que apoiam conflitos têm ocorrido em função do senso de preservação à vida de civis — em um momento em que todas as nações enfrentam um inimigo comum e precisam voltar todas as suas forças para esse combate —, ou se ocorrem por razões menos altruístas — como as dificuldades logísticas no abastecimento de tropas com munição, armamentos e até mesmo insumos de saúde para os hospitais de campanha, além das dificuldades econômicas, já que os países se voltaram para questões internas, de enfrentamento ao coronavírus e salvação de seus mercados e cadeias produtivas. De um modo ou de outro, o maior custo desses conflitos pode ser minimizado com a trégua: o custo humano — as milhares de vidas que podem ser salvas com melhores condições de enfrentamento à pandemia enquanto a suspensão da guerra durar.

Victor Del Vecchio é advogado e mestrando pela USP (Universidade de São Paulo), atuou como consultor jurídico da OIM (Organização Internacional para as Migrações da ONU), é membro do ProMigra (Projeto de Promoção dos Direitos de Migrantes da USP), sócio do Bastos & Del Vecchio — Consultoria em Migração, e é professor da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing) de São Paulo.

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